{"id":4862,"date":"2021-04-21T08:45:00","date_gmt":"2021-04-21T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=4862"},"modified":"2021-04-20T04:13:03","modified_gmt":"2021-04-20T07:13:03","slug":"a-eleicao-do-equador-e-o-corsi-e-recorsi-da-politica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-eleicao-do-equador-e-o-corsi-e-recorsi-da-politica\/","title":{"rendered":"A elei\u00e7\u00e3o do Equador e o corsi e recorsi da pol\u00edtica"},"content":{"rendered":"\n<p>No in\u00edcio do s\u00e9culo XVIII, o fil\u00f3sofo italiano Giambattista Vico prop\u00f4s entender o desenrolar da hist\u00f3ria humana como um <em>corsi e recorsi<\/em> indefinidos, ou seja, uma repeti\u00e7\u00e3o sucessiva de processos e eventos, reconfigurados, mas repetidos em sua ess\u00eancia \u00faltima. Algo como o Eterno Retorno de Nietzsche, mas sem tanta carga ideol\u00f3gica. Os resultados das elei\u00e7\u00f5es no Equador parecem, para a pol\u00edtica latino-americana das \u00faltimas d\u00e9cadas, confirmar esta vis\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Em controv\u00e9rsia com outros cen\u00e1rios pol\u00edticos mais previs\u00edveis, no sentido de que uma disputa eleitoral pode ser fechada, mas seu resultado final n\u00e3o surpreende em seu significado e impacto, a elei\u00e7\u00e3o de Lasso confirma a regra pol\u00edtica latino-americana: o vencedor surpreende e supera todas as especula\u00e7\u00f5es, an\u00e1lises e pesquisas anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que Arauz venceria?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es gerais, onde era \u00f3bvio que a vota\u00e7\u00e3o, se houvesse, seria entre o correista Arauz e o liberal Lasso, surpreendentemente houve alguns dias em que n\u00e3o se sabia se o segundo era realmente Lasso, ou o l\u00edder da CONAIE (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional Ind\u00edgena do Equador) Yaku Perez. A confort\u00e1vel lideran\u00e7a de Arauz naquele primeiro turno (33% dos votos) enfrentou uma segunda minoria indecisa entre Lasso e Yaku, ambos com 19% dos votos.<\/p>\n\n\n\n<p>O corre\u00edsmo de Arauz temia que os votos fossem para a Yaku porque, embora as rela\u00e7\u00f5es entre Correa e CONAIE fossem muito conflituosas no segundo mandato do ex-presidente, se supunha que ambos competiam mais ou menos pelo mesmo eleitorado. Por outro lado, uma elei\u00e7\u00e3o com Lasso, um neoliberal e um homem do<em> establishment<\/em> financeiro, os fez pressupor uma vit\u00f3ria previs\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, o anticorre\u00edsmo quis manter o segundo lugar de Yaku pelas mesmas raz\u00f5es e objetivos: o l\u00edder da CONAIE &#8220;mordia&#8221; votos para Arauz e somava, por medo e n\u00e3o por amor, como disse Borges, os eleitores de Lasso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Mas Lasso ganhou<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s as elei\u00e7\u00f5es de 11 de abril, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/lasso-rompe-a-tendencia-dos-ultimos-14-anos-no-equador\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Lasso obteve, surpreendentemente, uma vit\u00f3ria eleitoral, se n\u00e3o confort\u00e1vel, ent\u00e3o c\u00f4moda.<\/a> Aquelas que n\u00e3o deixam espa\u00e7o para os derrotados reivindicarem: 52,5% a 47,5%. Mais uma vez, a pol\u00edtica latino-americana surpreendeu tanto os locais quanto os estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>As primeiras an\u00e1lises desdobram uma s\u00e9rie de perguntas para explicar uma vit\u00f3ria eleitoral t\u00e3o surpreendente. Em primeiro lugar, o reperfilamento da campanha de Lasso, projetada pelo inef\u00e1vel Jaime Duran Barba, que procurou se abrir a setores e quest\u00f5es fora de sua ideologia mais conservadora (g\u00eanero, meio ambiente, minorias). Em segundo lugar, a agenda estabelecida por Lasso obrigou Arauz a um confronto discursivo defensivo. Terceiro, o fato de as comunidades ind\u00edgenas terem virado as costas para Arauz foi confirmado pela vota\u00e7\u00e3o. E finalmente, o furioso anticorre\u00edsmo de uma grande parte dos setores m\u00e9dios urbanos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que estes e outros fatores s\u00e3o heterog\u00eaneos, incompar\u00e1veis, difusos e dif\u00edceis de medir. Mas, evidentemente, algo os fez convergir em uma op\u00e7\u00e3o n\u00e3o desejada por muitos, mas tomada como &#8220;o mal menor&#8221;. O que, naturalmente, influenciar\u00e1 mais tarde na gest\u00e3o do novo governo, uma vez terminada a ef\u00eamera gl\u00f3ria da posse presidencial.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Algumas chaves para a pol\u00edtica latino-americana no s\u00e9culo XXI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Evidentemente, as elei\u00e7\u00f5es no Equador, Peru, Bol\u00edvia, Uruguai, Brasil, Argentina, ou seja, nos \u00faltimos dois anos, mostram um cen\u00e1rio pol\u00edtico muito flutuante. At\u00e9 pouco mais da segunda d\u00e9cada deste s\u00e9culo, havia uma clara predomin\u00e2ncia de governos progressistas, com a diversidade do progressivismo na Am\u00e9rica Latina (esquerdas, centro-esquerdas, social-democratas, populistas).<\/p>\n\n\n\n<p>A partir da\u00ed, foi observado um incipiente giro pol\u00edtico-ideol\u00f3gico, que ficou conhecido como o &#8220;giro \u00e0 direita&#8221; na pol\u00edtica da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-50950590\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Mas nos \u00faltimos anos, a oscila\u00e7\u00e3o entre direita e esquerda<\/a>, com tudo o que est\u00e1 no meio ideol\u00f3gico, n\u00e3o parece mais seguir um padr\u00e3o claro. As elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o somente posicionam governos de uma cor ou outra, mas estas indefini\u00e7\u00f5es s\u00e3o observadas dentro dos pr\u00f3prios governos.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta observar o componente evang\u00e9lico de governos &#8220;esquerdistas&#8221; como o de L\u00f3pez Obrador (que inclui ex-pol\u00edticos do conservador PAN) e o de Ortega na Nicar\u00e1gua. As fortes divis\u00f5es internas do governo do MAS na Bol\u00edvia, que, dois meses ap\u00f3s a elei\u00e7\u00e3o presidencial e a vit\u00f3ria, sofreu duas derrotas nas elei\u00e7\u00f5es departamentais e municipais. No Peru, nas recentes elei\u00e7\u00f5es houve seis candidaturas que obtiveram entre 8 e 16% dos votos, em um arco que vai de uma extrema direita para uma esquerda radical.<\/p>\n\n\n\n<p>A poss\u00edvel nova candidatura de Lula est\u00e1 crescendo no Brasil, ao mesmo tempo em que retarda a queda no apoio a Bolsonaro. O Chile adiou uma elei\u00e7\u00e3o (Reforma Constitucional) que \u00e9 uma aspira\u00e7\u00e3o do centro-esquerda e, ao mesmo tempo, uma v\u00e1lvula de escape para o governo liberal de Pi\u00f1era.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, a Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma regi\u00e3o particular em muitos aspectos. Naturalmente, a pol\u00edtica n\u00e3o poderia ser menos. Imprevisibilidade, altos e baixos, euforia e depress\u00e3o, per\u00edodos de auge econ\u00f4mico e crise fulminante. Esquerdas e direitas.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez somente retornando ao boom liter\u00e1rio dos anos 1960 e seu realismo m\u00e1gico poderemos dar pistas para uma compreens\u00e3o mais emp\u00edrica e metodologicamente definida para encontrar certos padr\u00f5es de nosso comportamento pol\u00edtico. Entretanto, vamos ser cautelosos em nossa an\u00e1lise prospectiva. Afinal de contas, os pesquisadores de opini\u00e3o p\u00fablica t\u00eam mais dificuldade.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Fundaci\u00f3n del Barrio<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Am\u00e9rica Latina \u00e9 uma regi\u00e3o particular em muitos aspectos. Naturalmente, a pol\u00edtica n\u00e3o poderia ser menos. Imprevisibilidade, altos e baixos, euforia e depress\u00e3o, per\u00edodos de boom econ\u00f4mico e crise fulminante. 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