{"id":48781,"date":"2025-06-12T15:00:00","date_gmt":"2025-06-12T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=48781"},"modified":"2025-06-10T19:54:17","modified_gmt":"2025-06-10T22:54:17","slug":"reimaginar-o-caribe-do-turismo-extrativista-ao-desenvolvimento-inclusivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/reimaginar-o-caribe-do-turismo-extrativista-ao-desenvolvimento-inclusivo\/","title":{"rendered":"Reimaginar o Caribe: do turismo extrativista ao desenvolvimento inclusivo"},"content":{"rendered":"\n<p>A imagem id\u00edlica do Caribe como um para\u00edso de praias brancas, palmeiras e \u00e1guas turquesas tem sido uma constru\u00e7\u00e3o repetida <em>ad nauseam<\/em> pela ind\u00fastria tur\u00edstica internacional. No entanto, poucas vezes paramos para pensar no pre\u00e7o que as comunidades locais e os ecossistemas pagam para sustentar esse ideal. Hoje, mais do que nunca, urge pensar o modelo tur\u00edstico do Caribe, passando de um modelo extrativista, desigual e dependente para um que seja sustent\u00e1vel, inclusivo e respeitoso de sua diversidade cultural e ambiental.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia de COVID-19 evidenciou a enorme vulnerabilidade do turismo caribenho. Com o fechamento das fronteiras e a paralisa\u00e7\u00e3o da mobilidade internacional, muitas economias da regi\u00e3o ficaram virtualmente congeladas. Essa extrema depend\u00eancia do turismo internacional n\u00e3o s\u00f3 exp\u00f5e debilidades econ\u00f4micas, mas tamb\u00e9m revela profundas desigualdades: os benef\u00edcios frequentemente se concentram em grandes redes hoteleiras estrangeiras, enquanto as comunidades locais permanecem \u00e0 margem, enfrentando precariedade laboral, deslocamento territorial e danos aos seus meios de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo de turismo dominante no Caribe, baseado no turismo de massa e em cruzeiros, contribuiu para a padroniza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia tur\u00edstica. Isso se reflete na chegada de 34,2 milh\u00f5es de turistas internacionais \u00e0 regi\u00e3o em 2024, segundo a Caribbean Tourism Organization. Destes, o setor de cruzeiros, que teve um crescimento not\u00e1vel naquele ano, \u00e9 respons\u00e1vel por 33,7 milh\u00f5es de visitas, 98,5% do total de visitantes. Como alertava o poeta Derek Walcott, essa vis\u00e3o comercial reifica a identidade caribenha em um cart\u00e3o-postal superficial, vendido em folhetos que ignoram a riqueza cultural e a diversidade hist\u00f3rica das ilhas. As escalas curtas em navios de cruzeiro e pacotes com tudo inclu\u00eddo desincentivam o contato com a comunidade, homogene\u00edzam os destinos e limitam o impacto econ\u00f4mico local.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora esse setor tenha gerado mais de US$ 4,26 bilh\u00f5es em gastos diretos e criado mais de 94.000 empregos durante a temporada 2023\/2024, requer-se impulsionar uma transforma\u00e7\u00e3o real do turismo no Caribe, que deve come\u00e7ar pela revis\u00e3o das bases sobre as quais foi constru\u00eddo. Para o desenvolvimento do turismo e das comunidades caribenhas, a conectividade e o transporte s\u00e3o de vital import\u00e2ncia. No entanto, o transporte mar\u00edtimo na regi\u00e3o tem sido fragmentado e subdesenvolvido. Embora as ilhas sejam geograficamente pr\u00f3ximas, a conectividade intra-caribenha permanece limitada em compara\u00e7\u00e3o com as conex\u00f5es externas, e os servi\u00e7os de balsa enfrentam in\u00fameros desafios: infraestrutura obsoleta e insuficiente, inefici\u00eancias tecnol\u00f3gicas e de processos, procedimentos aduaneiros e migrat\u00f3rios pouco harmonizados e a aus\u00eancia de uma pol\u00edtica regional unificada.<\/p>\n\n\n\n<p>Superar essas barreiras implica investir em infraestrutura portu\u00e1ria moderna, harmonizar os processos aduaneiros e migrat\u00f3rios, e estabelecer acordos regionais que permitam uma mobilidade mais fluida entre os pa\u00edses do Caribe. Essa melhoria n\u00e3o s\u00f3 permitiria o turismo inter-ilhas, uma alternativa mais sustent\u00e1vel e descentralizada que protege e fomente a cultura e o patrim\u00f4nio dos diversos povos do Caribe, mas tamb\u00e9m abriria a possibilidade de promover a experi\u00eancia do Caribe como uma regi\u00e3o integrada. Fortalecer a conectividade interna \u00e9 chave para diversificar a economia, reduzir a depend\u00eancia de mercados emissores no norte global e construir uma identidade tur\u00edstica mais s\u00f3lida, enraizada nas din\u00e2micas culturais, sociais e econ\u00f4micas pr\u00f3prias do Caribe.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro eixo fundamental para <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/economia-azul-no-caribe-em-busca-da-resiliencia-e-a-regeneracao\/\">transformar o turismo<\/a> \u00e9 fortalecer as iniciativas de turismo comunit\u00e1rio (CBT, sigla em ingl\u00eas). Diferente do modelo extrativista, o CBT baseia-se na participa\u00e7\u00e3o ativa das comunidades, no respeito a suas formar de vida, e na oferta de experi\u00eancias aut\u00eanticas centradas em cultura, gastronomia, natureza e tradi\u00e7\u00f5es locais. Por exemplo, Santa L\u00facia, com sua Ag\u00eancia de Turismo Comunit\u00e1rio, prioriza o CBT h\u00e1 d\u00e9cadas, enquanto Trinidad e Tobago est\u00e1 desenvolvendo uma pol\u00edtica nacional nesse sentido. No entanto, a aus\u00eancia de dados sobre os impactos econ\u00f4micos, ambientais e sociais limita um compromisso pol\u00edtico firme para apoiar essas iniciativas.<\/p>\n\n\n\n<p>Para que o CBT n\u00e3o seja uma iniciativa marginal ou simb\u00f3lica, \u00e9 fundamental <strong>garantir o acesso ao financiamento, proporcionar uma forma\u00e7\u00e3o em gest\u00e3o de turismo e hospitalidade e desenvolver marcos regulat\u00f3rios que reconhe\u00e7am seu valor econ\u00f4mico, ambiental e cultural<\/strong>. Ademais, deve-se articular sistemas de monitoramento e indicadores que visibilizem seu real impacto nas comunidades, a fim de sustent\u00e1-lo e escalon\u00e1-lo. Essas a\u00e7\u00f5es permitiriam construir uma ind\u00fastria mais inclusiva, que redistribua benef\u00edcios e empodere os atores locais interessados como verdadeiros protagonistas do desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas n\u00e3o podemos falar de sustentabilidade sem abordar o impacto ecol\u00f3gico do turismo. O Caribe \u00e9 uma regi\u00e3o de alta vulnerabilidade clim\u00e1tica. Furac\u00f5es, eleva\u00e7\u00e3o do n\u00edvel do mar e degrada\u00e7\u00e3o costeira s\u00e3o amea\u00e7as que se intensificam com as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Empreendimentos tur\u00edsticos mal planejados, muitas vezes localizados em zonas de risco, n\u00e3o s\u00f3 agravam esses problemas, como tamb\u00e9m multiplicam os custos sociais e econ\u00f4micos ap\u00f3s cada desastre.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, \u00e9 urgente fortalecer a resili\u00eancia territorial do setor tur\u00edstico. Isso inclui a aplica\u00e7\u00e3o rigorosa de c\u00f3digos de constru\u00e7\u00e3o resistentes a fen\u00f4menos naturais, o planejamento territorial baseado na an\u00e1lise de riscos e a restaura\u00e7\u00e3o dos ecossistemas costeiros como barreiras naturais contra tempestades e eros\u00e3o. Ademais, deve-se exigir padr\u00f5es ambientais mais rigorosos para projetos tur\u00edsticos, evitando a destrui\u00e7\u00e3o de manguezais, recifes ou dunas, essenciais para a prote\u00e7\u00e3o das comunidades.<\/p>\n\n\n\n<p>A transi\u00e7\u00e3o para um turismo mais justo e resiliente no Caribe requer redefinir os indicadores de sucesso na ind\u00fastria tur\u00edstica. Durante d\u00e9cadas, o progresso foi medido pelo n\u00famero de visitantes ou pela receita bruta, sem considerar como essas receitas s\u00e3o distribu\u00eddas, seu impacto nos ecossistemas ou o legado que deixam nas comunidades. \u00c9 urgente adotar uma m\u00e9trica alinhada aos Objetivos de Desenvolvimento Sustent\u00e1vel, que incorpore as dimens\u00f5es sociais, culturais e ecol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse processo, a Associa\u00e7\u00e3o de Estados do Caribe (AEC), que re\u00fane 25 Estados-membros e 10 associados do Grande Caribe, desempenha um papel estrat\u00e9gico ao promover a integra\u00e7\u00e3o regional como motor do desenvolvimento econ\u00f4mico e da proje\u00e7\u00e3o internacional. Diante de desafios estruturais como a falta de infraestrutura, as diferen\u00e7as culturais e a depend\u00eancia externa, \u00e9 essencial impulsionar pol\u00edticas-chave, como o fortalecimento da conectividade, a amplia\u00e7\u00e3o do com\u00e9rcio e o posicionamento do Caribe como um destino regional diverso e articulado. Reimaginar o turismo na regi\u00e3o n\u00e3o significa s\u00f3 otimizar seu funcionamento, mas tamb\u00e9m transform\u00e1-lo profundamente, deixando para tr\u00e1s um modelo extrativista e avan\u00e7ando para um modelo verdadeiramente sustent\u00e1vel, inclusivo e resiliente.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O modelo de turismo dominante no Caribe, baseado no turismo de massa e em cruzeiros, contribuiu para a padroniza\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia tur\u00edstica.<\/p>\n","protected":false},"author":609,"featured_media":48776,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16754],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-48781","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desarrollo-pt-br","8":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48781","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/609"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48781"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48781\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48776"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48781"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48781"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48781"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=48781"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}