{"id":48832,"date":"2025-06-13T09:00:00","date_gmt":"2025-06-13T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=48832"},"modified":"2025-06-12T19:27:10","modified_gmt":"2025-06-12T22:27:10","slug":"datacenters-e-o-lugar-do-brasil-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/datacenters-e-o-lugar-do-brasil-no-mundo\/","title":{"rendered":"Datacenters e o lugar do Brasil no mundo"},"content":{"rendered":"\n<p>Na era da virtualidade e da computa\u00e7\u00e3o em nuvem, a necessidade de que os servidores estejam em terra \u00e9 uma vingan\u00e7a n\u00e3o s\u00f3 da geografia, mas do mundo f\u00edsico como um todo. Das vendas online \u00e0 IA, passando pelos aplicativos de mensagens e de localiza\u00e7\u00e3o, tudo que comp\u00f5e o ciberespa\u00e7o depende que as informa\u00e7\u00f5es estejam armazenadas em servidores reais, que s\u00e3o formados de mat\u00e9ria e que ocupam espa\u00e7o. Como tudo no mundo real, os servidores est\u00e3o sujeitos \u00e0s leis termodin\u00e2micas que vinculam trabalho, calor e energia. Finalmente, os datacenters s\u00e3o estruturas fundamentais para a <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/ciencia-de-dados-futuro-da-democracia\/\">ind\u00fastria 4.0<\/a>. Portanto, a defini\u00e7\u00e3o de onde instal\u00e1-los acaba sendo um assunto geopol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Pontos nevr\u00e1lgicos de uma cadeia de valor que movimenta bilh\u00f5es de d\u00f3lares e permeia todo o ciberespa\u00e7o, compostos por centenas de milhares de HDs administrados por nem uma centena de pessoas, os datacenters s\u00e3o intensivos em energia e \u00e1gua. Em ambos os casos, a elevada demanda se destina ao resfriamento dos processadores. Em 2022, o consumo energ\u00e9tico dos datacenters representou pouco mais de 1% do consumo mundial. Por um lado, trabalha-se intensamente para melhorar a efici\u00eancia energ\u00e9tica do setor. Por outro, dada a crescente demanda por datacenters e aplicando o paradoxo de Jevons \u2013 o aumento da efici\u00eancia no uso de um recurso leva ao aumento do seu consumo \u2013, podemos esperar que a parcela de energia consumida por eles dever\u00e1 aumentar nos pr\u00f3ximos anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tudo isso, nossa regi\u00e3o entrou no radar das big tech e dos governos dos pa\u00edses onde est\u00e3o suas sedes. J\u00e1 est\u00e3o em constru\u00e7\u00e3o um datacenter da Amazon na cidade de Quer\u00e9taro \u2013 munic\u00edpio na parte central do M\u00e9xico \u2013 e outro da Google na cidade de Colonia Nicolich \u2013 pr\u00f3xima \u00e0 capital do Uruguai.<\/p>\n\n\n\n<p>Semana passada, Marco Rubio, Secret\u00e1rio de Estado dos Estados Unidos, sugeriu em audi\u00eancia no Senado que se instalem datacenters no Paraguai. Rubio explicou que, por um lado, o desenvolvimento da IA implicar\u00e1 numa escalada do consumo energ\u00e9tico e, por outro, o Paraguai ainda n\u00e3o sabe o que fazer com o excedente da sua parte da energia gerada em Itaipu.<\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m semana passada ficamos sabendo que o TikTok pretende construir um datacenter no munic\u00edpio de Cacuia, no estado do Cear\u00e1. A decis\u00e3o pela localiza\u00e7\u00e3o se deveu a dois fatores. Estrategicamente posicionada no litoral nordestino, a cidade est\u00e1 pr\u00f3xima ao entroncamento de cabos submarinos de internet. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m pesou a favor o fato de o Cear\u00e1 ser um grande produtor de energia solar e e\u00f3lica. Aqui vale registrar que se o Cear\u00e1 tem grande oferta de energia, o mesmo n\u00e3o se pode dizer da \u00e1gua. Inclusive, o desabastecimento h\u00eddrico \u00e9 uma constante em Cacuia.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 no Congresso brasileiro ao menos dois projetos de lei sobre a mat\u00e9ria, o 2.338\/2023, sobre IA em geral, e o 3.018\/2024, que versa sobre datacenters de IA especificamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem embargo, dentro ou fora do Congresso, o que tem prevalecido, principalmente entre os empres\u00e1rios, \u00e9 a busca pela formula\u00e7\u00e3o de marcos legais que tornem o Brasil atrativo para a instala\u00e7\u00e3o dessas estruturas. Via de regra, o argumento utilizado \u00e9 que com uma das matrizes energ\u00e9ticas mais limpas do mundo, o Brasil poderia receber grande n\u00famero de datacenters.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal racioc\u00ednio evidencia o que alguns chamar\u00e3o de falta de projeto de desenvolvimento e de proje\u00e7\u00e3o nacional. Outros dir\u00e3o que esse \u00e9 o projeto: renovar nossas credenciais de pa\u00eds dependente e subalterno. Ora, por um lado, os atributos nacionais seriam o potencial de gera\u00e7\u00e3o de energia limpa e disponibilidade de \u00e1gua, por outro, recepcionar\u00edamos instala\u00e7\u00f5es que pouco empregam e cuja tecnologia viria toda de fora. A contribui\u00e7\u00e3o para a redu\u00e7\u00e3o custo de opera\u00e7\u00e3o e da pegada ambiental das big tech seria realizada atrav\u00e9s do refor\u00e7o do rentismo e da reprimariza\u00e7\u00e3o da economia dom\u00e9stica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 urgente que a sociedade como um todo se envolva e seja envolvida nessa discuss\u00e3o. Vivemos em um momento de transi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, com impactos na produ\u00e7\u00e3o, no consumo, nas rela\u00e7\u00f5es humanas e na pol\u00edtica. Vivemos um momento de transi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica: n\u00e3o demorar\u00e1 para que a China substitua os Estados Unidos na condi\u00e7\u00e3o de pa\u00eds mais poderoso do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>A discuss\u00e3o sobre nossa pol\u00edtica de datacenters \u00e9 uma pequena parte de um debate profundo: onde o Brasil quer estar na quadra hist\u00f3rica que se descortina? Ou, dito de outra forma, qual ser\u00e1 nosso lugar no mundo da ind\u00fastria 4.0 e no mundo da hegemonia chinesa?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de ser contra esse ou aquele pa\u00eds. Se n\u00e3o tivermos um projeto que promova um ecossistema de inova\u00e7\u00e3o industrial genuinamente brasileiro, estaremos condenados \u00e0 depend\u00eancia e a subalternidade. Sem projeto, apenas trocaremos o pa\u00eds ao qual seremos submissos. Se n\u00e3o nos comportarmos como adultos nas negocia\u00e7\u00f5es, se n\u00e3o tivermos o desenvolvimento nacional como b\u00fassola, nenhum pa\u00eds nos respeitar\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Precisamos de uma pol\u00edtica que absorva as tecnologias da ind\u00fastria 4.0 j\u00e1 existente e que nos permita inovar nesse campo a ponto de nos transformarmos em uma pot\u00eancia tecnol\u00f3gica. Do contr\u00e1rio, nossa m\u00e3o de obra qualificada ter\u00e1 que escolher entre emigrar, trabalhar em algo aqu\u00e9m do seu potencial ou trabalhar aqui para empresas estrangeiras. Do contr\u00e1rio, continuaremos dependendo do setor prim\u00e1rio, que concentra renda e gera poucos empregos e gera majoritariamente de baixa qualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podemos nos iludir de que essa \u00e9 uma quest\u00e3o menor ou que \u00e9 puramente t\u00e9cnica. Se na superf\u00edcie est\u00e3o as regras e as normas t\u00e9cnicas sobre a instala\u00e7\u00e3o dessas plantas, na ess\u00eancia est\u00e1 o que pode e o que n\u00e3o pode ser feito com os recursos naturais e humanos de nosso pa\u00eds. Est\u00e1 que papel queremos ter na produ\u00e7\u00e3o, na circula\u00e7\u00e3o e na apropria\u00e7\u00e3o da riqueza internacional, se uma plataforma da acumula\u00e7\u00e3o de empresas estrangeiras ou um ator relevante para os rumos da economia e da pol\u00edtica globais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Os pa\u00edses da regi\u00e3o precisam de uma pol\u00edtica que absorva as tecnologias da ind\u00fastria 4.0 j\u00e1 existente. 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