{"id":49048,"date":"2025-06-26T15:00:00","date_gmt":"2025-06-26T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=49048"},"modified":"2025-06-25T16:12:41","modified_gmt":"2025-06-25T19:12:41","slug":"as-politicas-do-governo-boric-em-relacao-ao-povo-mapuche-sao-mais-do-mesmo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-politicas-do-governo-boric-em-relacao-ao-povo-mapuche-sao-mais-do-mesmo\/","title":{"rendered":"As pol\u00edticas do governo Boric em rela\u00e7\u00e3o ao povo Mapuche s\u00e3o mais do mesmo"},"content":{"rendered":"\n<p>Gabriel Boric, o jovem presidente oriundo do movimento estudantil da d\u00e9cada passada, assumiu seu governo encarnando o \u00edmpeto por mudan\u00e7a expressado durante o estallido social de 2019, impulsionado tamb\u00e9m pela rejei\u00e7\u00e3o \u00e0 ultradireita pinochetista que havia vencido o primeiro turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais. No entanto, j\u00e1 no seu primeiro ano, o governo demonstrou que sua linha, no que diz respeito \u00e0 quest\u00e3o mapuche, seria a continuidade da domina\u00e7\u00e3o do Estado chileno sobre os povos ind\u00edgenas. De fato, seu mandato tem sido marcado pelas lutas desses povos para abrir espa\u00e7os de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, integrar processos pol\u00edticos e institucionais, apresentar propostas concretas, enfrentar ataques racistas, a militariza\u00e7\u00e3o dos territ\u00f3rios e a eterna decep\u00e7\u00e3o pela falta de resultados.<\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender as pol\u00edticas implementadas pelo Estado durante o governo de Gabriel Boric, \u00e9 necess\u00e1rio aprofundar-se em tr\u00eas pontos fundamentais: a derrota da Conven\u00e7\u00e3o Constitucional e suas consequ\u00eancias; o Plano Buen Vivir e a manuten\u00e7\u00e3o do estado de exce\u00e7\u00e3o; e, por fim, a cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o para a Paz e o Entendimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Em primeiro lugar, a derrota estrondosa nas urnas da proposta constitucional elaborada entre 2021 e 2022 pela Conven\u00e7\u00e3o Constitucional deixou marcas profundas. O processo havia come\u00e7ado com a esperan\u00e7a de inclus\u00e3o, com a in\u00e9dita presen\u00e7a de cadeiras reservadas para ind\u00edgenas (7 Mapuche), sendo sua primeira presidente Elisa Loncon, uma dirigente Mapuche, e o rascunho da nova constitui\u00e7\u00e3o inclu\u00eda muitas das reivindica\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas dos povos ind\u00edgenas. No entanto, essa esperan\u00e7a se transformou em frustra\u00e7\u00e3o ap\u00f3s a derrota esmagadora no plebiscito de setembro de 2022, sendo apontadas especialmente as propostas ind\u00edgenas \u2014 <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/chile-a-miragem-de-um-pais-plurinacional\/\">em particular a plurinacionalidade<\/a> \u2014 como grandes respons\u00e1veis pelo fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p>A direita interpretou isso como uma rejei\u00e7\u00e3o dos chilenos \u00e0s demandas mapuche, o que teve consequ\u00eancias claras quanto \u00e0 presen\u00e7a e influ\u00eancia do movimento ind\u00edgena, tanto nas ruas quanto no processo constitucional seguinte de 2023, no qual houve apenas um representante ind\u00edgena \u2014 que acabou renunciando. Esse segundo processo coincidiu com o crescimento do apoio \u00e0 direita e \u00e0 extrema direita nas pesquisas, com a demoniza\u00e7\u00e3o das demandas mapuche e a normaliza\u00e7\u00e3o do discurso racista e xenof\u00f3bico, especialmente nas redes sociais, tendo como principal v\u00edtima a ex-presidenta da Conven\u00e7\u00e3o, Elisa Loncon.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse contexto abalou a esquerda e os movimentos e organiza\u00e7\u00f5es sociais chilenas, mas principalmente o governo, que perdeu o controle da agenda. Boric havia chegado ao poder apoiando medidas de repara\u00e7\u00e3o territorial e direitos coletivos dos mapuche, al\u00e9m de criticar o uso do estado de exce\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o por parte do governo de Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora o novo governo n\u00e3o tenha renovado o estado de exce\u00e7\u00e3o inicialmente, poucos meses ap\u00f3s assumir, Boric voltou a implement\u00e1-lo, alegando o aumento dos ataques incendi\u00e1rios. Na pr\u00e1tica, trata-se da militariza\u00e7\u00e3o da regi\u00e3o, com presen\u00e7a de Carabineros, militares, Marinha e patrulhamento a\u00e9reo para controlar o territ\u00f3rio. Os atos de viol\u00eancia diminu\u00edram, mas a regi\u00e3o permanece h\u00e1 mais de tr\u00eas anos (praticamente todo o mandato de Boric) sob controle militar. Assim, o governo recorre ao mesmo expediente utilizado desde a invas\u00e3o desses territ\u00f3rios: repress\u00e3o e coer\u00e7\u00e3o. O estado de exce\u00e7\u00e3o j\u00e1 foi renovado mais de 50 vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>A partir de 2022, o governo de Boric implementou o chamado \u201cPlano Buen Vivir\u201d, em refer\u00eancia ao conceito da cosmovis\u00e3o ind\u00edgena, mas que nesse caso se refere a um plano de pol\u00edticas p\u00fablicas em meio ao estado de emerg\u00eancia. O plano inclui constru\u00e7\u00e3o de estradas, acesso \u00e0 \u00e1gua pot\u00e1vel, investimento em infraestrutura para comunidades e di\u00e1logo territorial.<\/p>\n\n\n\n<p>A nove meses do fim do governo Boric, foi apresentado o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o para a Paz e o Entendimento, criada em 2023 visando encontrar <a href=\"https:\/\/diplomatique.org.br\/chile-paz-e-compreensao-no-sul\/\">solu\u00e7\u00f5es de m\u00e9dio e longo prazo para o conflito na Araucan\u00eda<\/a>. A inst\u00e2ncia foi composta por oito membros, incluindo representantes mapuche com longa trajet\u00f3ria no movimento e pol\u00edticos como Francisco Huenchumilla (senador) e Adolfo Millabur (ex-convencional).<\/p>\n\n\n\n<p>Entre as 21 recomenda\u00e7\u00f5es do relat\u00f3rio est\u00e3o promessas j\u00e1 recorrentes, como o reconhecimento constitucional, a revitaliza\u00e7\u00e3o da l\u00edngua ou a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, al\u00e9m de outras mais inovadoras, como a repara\u00e7\u00e3o a todas as v\u00edtimas da viol\u00eancia. Essas medidas foram apoiadas por sete dos oito membros da Comiss\u00e3o, sendo curioso o apoio de uma integrante do Partido Republicano (de extrema direita), que alegou ter sofrido press\u00e3o de seu partido para rejeitar o relat\u00f3rio. Como consequ\u00eancia, ela teve que renunciar \u00e0 legenda.<\/p>\n\n\n\n<p>As recomenda\u00e7\u00f5es foram recebidas com modera\u00e7\u00e3o e cautela, pois colocam em pauta demandas hist\u00f3ricas, como enfrentar a apropria\u00e7\u00e3o das terras pelo Estado \u2014 origem do conflito. Nas \u00faltimas d\u00e9cadas, muitas iniciativas geraram a ilus\u00e3o de p\u00f4r fim ao conflito, mas acabaram engavetadas. Al\u00e9m disso, muitas dessas recomenda\u00e7\u00f5es ainda precisam seguir o tr\u00e2mite legislativo, o que depende do calend\u00e1rio eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>A nove meses do fim do mandato, parece ilus\u00f3rio pensar que essas iniciativas possam se concretizar, especialmente considerando que \u00e9 muito prov\u00e1vel que a direita pinochetista ven\u00e7a as pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es. Nesse contexto, at\u00e9 mesmo o nome da Comiss\u00e3o \u2014 \u201cpara a Paz e o Entendimento\u201d \u2014 soa ir\u00f4nico em um territ\u00f3rio militarizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, podemos dizer que as pol\u00edticas implementadas durante o governo de Boric em rela\u00e7\u00e3o aos Mapuche representam mais uma continuidade com os governos anteriores do que uma tentativa real de p\u00f4r fim ao conflito.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Jana\u00edna da Silva<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As pol\u00edticas implementadas durante o governo de Boric em rela\u00e7\u00e3o aos Mapuche representam mais uma continuidade com os governos anteriores do que uma tentativa real de p\u00f4r fim ao conflito.<\/p>\n","protected":false},"author":138,"featured_media":49042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16765,16767],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-49048","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-chile-es-pt-br","8":"category-pueblos-indigenas-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49048","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/138"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49048"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49048\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49048"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=49048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}