{"id":49197,"date":"2025-07-04T09:00:00","date_gmt":"2025-07-04T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=49197"},"modified":"2025-07-03T15:45:05","modified_gmt":"2025-07-03T18:45:05","slug":"bolivia-capacidade-estatal-e-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/bolivia-capacidade-estatal-e-democracia\/","title":{"rendered":"Bol\u00edvia: capacidade estatal e democracia"},"content":{"rendered":"\n<p>Pela segunda vez, a foto de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/bolivia-reinventar-o-populismo\/\">Evo Morales n\u00e3o estar\u00e1 na c\u00e9dula eleitoral<\/a> para as elei\u00e7\u00f5es de agosto deste ano. Em resposta, este pol\u00edtico, em tr\u00eas ocasi\u00f5es, ordenou seus seguidores a bloquear estradas e atacar as for\u00e7as da ordem. A \u00faltima mobiliza\u00e7\u00e3o, de 15 dias, n\u00e3o s\u00f3 agravou o colapso da economia nacional, como tamb\u00e9m mostrou que na Bol\u00edvia existem vastos territ\u00f3rios onde a autoridade do Estado n\u00e3o chega e onde imperam as atividades il\u00edcitas. Se antes sab\u00edamos que Chapare \u00e9 uma zona vermelha onde se cultiva e se cozinha a folha de coca, hoje ficamos sabendo, com pesar, que a hist\u00f3rica cidade mineira de Llallagua n\u00e3o produz apenas estanho e prata, mas tamb\u00e9m maconha e contrabando.<\/p>\n\n\n\n<p>Os longos anos de bonan\u00e7a pela receita da venda de mat\u00e9rias-primas (2006-2014) n\u00e3o serviram para melhorar a capacidade estatal. Embora durante os anos de super\u00e1vit exportador tenham sido constru\u00eddas mais institui\u00e7\u00f5es educacionais, ampliados os servi\u00e7os de sa\u00fade e constru\u00eddas estradas, com igual for\u00e7a cresceram em poder e tamanho os neg\u00f3cios e empresas que encheram os bolsos ao abrigo da ilegalidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, se em 2006 o n\u00famero de cooperativistas mineiros era de 54.200 pessoas, 15 anos depois esse n\u00famero havia subido para 135.436 membros. Sob o argumento ris\u00edvel de que as cooperativas cumprem uma \u201cfun\u00e7\u00e3o social\u201d, foram-lhes doadas m\u00e1quinas, estabelecimentos e terrenos, al\u00e9m de isen\u00e7\u00f5es fiscais. Isso as transformou em uma poderosa for\u00e7a econ\u00f4mica e pol\u00edtica, cujo poder se manifesta nas ruas e estradas sempre que o Estado tenta controlar os danos ao meio ambiente e a explora\u00e7\u00e3o trabalhista. Algo semelhante acontece com o contrabando de ve\u00edculos velhos do Chile para a Bol\u00edvia. Em julho de 2014, a ent\u00e3o ministra de Hidrocarbonetos, Marlene Ardaya, anunciou a aplica\u00e7\u00e3o de restri\u00e7\u00f5es \u00e0 venda de gasolina para ve\u00edculos sem documentos; uma d\u00e9cada depois, n\u00e3o s\u00f3 esse an\u00fancio n\u00e3o foi cumprido, como as feiras de compra e venda de ve\u00edculos ilegais cresceram por toda parte. Al\u00e9m disso, uma deputada do partido Movimento ao Socialismo (MAS) afirmou que esses ve\u00edculos, popularmente conhecidos como chutos, cumpriam o prop\u00f3sito de servir aos camponeses em seu trabalho. Da mesma forma, a produ\u00e7\u00e3o de coca cresceu em competitividade: se na zona cocalera dos Yungas a folha milenar \u00e9 colhida at\u00e9 duas vezes por ano, no Chapare \u00e9 colhida seis vezes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os sucessivos governos do Estado plurinacional t\u00eam flertado com a ilegalidade e a delinqu\u00eancia. Grande parte da nova elite que o MAS apoiou e acolheu cresceu gra\u00e7as \u00e0s amplas possibilidades que pode oferecer um Estado que pactua e firma acordos com aqueles que n\u00e3o cumprem as normas e leis.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso tem efeitos grav\u00edssimos na cultura c\u00edvica. Em um contexto em que \u00e9 mais f\u00e1cil acumular riqueza fazendo o que \u00e9 errado do que o que \u00e9 certo, a pr\u00e1tica de \u201cser esperto\u201d se institucionalizou. Para as pessoas que ganham com seu trabalho, ver como os corruptos e as corruptas empoleirados nas institui\u00e7\u00f5es obt\u00eam grandes lucros acaba sendo um desincentivo para serem honestos e empreendedores. A \u201cviveza crioula\u201d, ao n\u00e3o ser sancionada nem punida socialmente, se torna um padr\u00e3o sinistro de comportamento que consiste em ter dinheiro e poder antes de honra e dignidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso gera uma insatisfa\u00e7\u00e3o da cidadania com a democracia. Com um Estado fraco, com partidos pol\u00edticos que s\u00e3o s\u00f3 uma sigla e com institui\u00e7\u00f5es tomadas de assalto pelos espertalh\u00f5es de sempre, o que resta da democracia na Bol\u00edvia \u00e9 muito pouco, talvez apenas sua assist\u00eancia disciplinada \u00e0s jornadas eleitorais. Por isso, se ir \u00e0s urnas fosse suficiente para mudar os administradores judiciais, h\u00e1 muito tempo a justi\u00e7a boliviana seria uma das melhores; se definir em elei\u00e7\u00f5es abertas um governante ou autoridade de turno bastasse para alcan\u00e7ar cidadania e efic\u00e1cia, h\u00e1 muito tempo a Bol\u00edvia seria uma democracia plena. Os anos de bonan\u00e7a econ\u00f4mica tamb\u00e9m s\u00e3o oportunidades para construir institucionalidade. Perdemos essa oportunidade ou, melhor, a desperdi\u00e7amos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem um Estado forte, nenhum projeto neoliberal, libert\u00e1rio, estatista ou socialista pode ter sucesso. Enquanto o Estado estiver \u00e0 merc\u00ea de grupos que operam na ilegalidade, nenhum projeto econ\u00f4mico ou pol\u00edtico ser\u00e1 vi\u00e1vel. Enquanto o Estado negociar sua estatalidade com elites de colarinho branco que zelam por seus interesses, de nada valer\u00e1 estar \u00e0 frente do governo. Hoje, o desafio est\u00e1 em construir um Estado forte; que ele seja grande ou pequeno \u00e9 um detalhe menor.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Bol\u00edvia atual apresenta um Estado enfraquecido, cooptado por redes ilegais e sem capacidade para fazer cumprir a lei em vastos territ\u00f3rios do pa\u00eds.<\/p>\n","protected":false},"author":279,"featured_media":49189,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16710,16714],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-49197","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-bolivia-pt-br","8":"category-corrupcion-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49197","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/279"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49197"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49197\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49189"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49197"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49197"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49197"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=49197"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}