{"id":49316,"date":"2025-07-12T09:00:00","date_gmt":"2025-07-12T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=49316"},"modified":"2025-07-11T14:16:02","modified_gmt":"2025-07-11T17:16:02","slug":"eleicao-judicial-mexicana-onde-a-oposicao-nao-tem-nada-a-reclamar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/eleicao-judicial-mexicana-onde-a-oposicao-nao-tem-nada-a-reclamar\/","title":{"rendered":"Elei\u00e7\u00e3o judicial mexicana, onde a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem nada a reclamar"},"content":{"rendered":"\n<p>O M\u00e9xico cruzou um limiar institucional em 1\u00ba de junho de 2025: pela primeira vez em sua hist\u00f3ria, os integrantes da Suprema Corte de Justi\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o, do Tribunal Eleitoral, do Tribunal de Disciplina Judicial e de outros \u00f3rg\u00e3os do sistema judicial foram <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/eleicao-do-poder-judiciario-e-autocratizacao-na-mexico\/\">eleitos por voto popular<\/a>. Essa reforma, com profundas implica\u00e7\u00f5es estruturais, n\u00e3o nasceu de um diagn\u00f3stico t\u00e9cnico consensual nem de uma press\u00e3o cidad\u00e3 articulada. Foi o desfecho de uma narrativa que, em meio ao desgaste institucional acumulado, conseguiu consolidar sua legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante anos, o sistema de justi\u00e7a carregou o descr\u00e9dito social: a percep\u00e7\u00e3o de impunidade, a opacidade de muitos ju\u00edzes, o distanciamento do Poder Judici\u00e1rio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s causas cidad\u00e3s e uma imagem generalizada de elitismo. Nesse contexto, a proposta de \u201cdemocratizar a justi\u00e7a\u201d atrav\u00e9s do voto popular ganhou terreno. O que em outro momento teria parecido invi\u00e1vel \u2014 eleger ju\u00edzes e magistrados como se fossem deputados ou prefeitos \u2014 tornou-se uma solu\u00e7\u00e3o politicamente vi\u00e1vel diante de uma demanda difusa por mudan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa narrativa prosperou em grande parte devido \u00e0 falta de oposi\u00e7\u00e3o efetiva. Os partidos tradicionais, longe de articular uma defesa t\u00e9cnica do modelo republicano, carregavam uma co-responsabilidade evidente na degrada\u00e7\u00e3o do sistema judicial. Durante anos, fizeram parte \u2014 por a\u00e7\u00e3o ou omiss\u00e3o \u2014 de um projeto institucional que perdeu legitimidade perante a cidadania.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando chegou a hora de participar, optaram por se retirar. N\u00e3o promoveram candidaturas competitivas, n\u00e3o ofereceram uma narrativa alternativa e tamb\u00e9m n\u00e3o defenderam publicamente a autonomia judicial a partir de uma l\u00f3gica cidad\u00e3. Alguns atores limitaram sua interven\u00e7\u00e3o a cr\u00edticas em f\u00f3runs fechados, sem capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o nem propostas concretas. Outros simplesmente se calaram. Essa omiss\u00e3o, mais por impot\u00eancia do que por estrat\u00e9gia, deixou o terreno livre para uma elei\u00e7\u00e3o sem concorr\u00eancia real, onde a disputa ocorreu quase exclusivamente entre candidaturas individuais, sem um projeto pol\u00edtico que as apoiasse.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse abandono n\u00e3o pode ser explicado sem revisar a deteriora\u00e7\u00e3o interna dos partidos que, por d\u00e9cadas, dominaram o sistema pol\u00edtico. O PAN come\u00e7ou a perder sua identidade quando deixou de ser uma comunidade de princ\u00edpios para se tornar uma m\u00e1quina pragm\u00e1tica de acesso ao poder. O \u00eaxodo de figuras hist\u00f3ricas como Pablo Emilio Madero, Bernardo B\u00e1tiz ou Jes\u00fas Gonz\u00e1lez Schmal foi um aviso precoce. Em vez de renovar sua voca\u00e7\u00e3o republicana, o partido foi capturado por caciques locais \u2014 como os Yunes em Veracruz ou os Moreno Valle em Puebla \u2014 que o esvaziaram ideologicamente.<\/p>\n\n\n\n<p>O PRI, por sua vez, iniciou seu decl\u00ednio ap\u00f3s perder a presid\u00eancia em 2000. Com o fim do presidencialismo hegem\u00f4nico, tamb\u00e9m desapareceu a disciplina interna que o mantinha coeso. O que se seguiu foi uma lenta fragmenta\u00e7\u00e3o territorial, perda de lideran\u00e7a e decomposi\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria. Embora tenha recuperado o poder em 2012, o \u201cnovo PRI\u201d parecia focado em executar seu pr\u00f3prio caminho para a extin\u00e7\u00e3o. Nesta elei\u00e7\u00e3o, seu papel foi meramente simb\u00f3lico.<\/p>\n\n\n\n<p>O PRD, finalmente, n\u00e3o sobreviveu \u00e0 lideran\u00e7a que ajudou a elevar: a de Andr\u00e9s Manuel L\u00f3pez Obrador. Desde 2012, sua milit\u00e2ncia e lideran\u00e7a migraram para o Morena, e o que antes era uma esquerda com voca\u00e7\u00e3o cr\u00edtica se reduziu a uma sigla sem conte\u00fado, sem estrutura e sem base social. Neste processo eleitoral, nem mesmo conseguiu articular uma posi\u00e7\u00e3o reconhec\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as defici\u00eancias n\u00e3o foram apenas pol\u00edticas. Do ponto de vista t\u00e9cnico, a reforma evidenciou profundas fraquezas decorrentes de sua implementa\u00e7\u00e3o precipitada. Os requisitos de elegibilidade eram laxistas e, embora a abertura das candidaturas tenha sido apresentada como um gesto democratizador, a maioria dos perfis carecia de avalia\u00e7\u00f5es objetivas que permitissem distinguir entre trajet\u00f3rias s\u00f3lidas e candidaturas improvisadas. A isso se somou o desinteresse dos partidos em elevar o padr\u00e3o profissional do processo.<\/p>\n\n\n\n<p>O modelo de comunica\u00e7\u00e3o institucional tamb\u00e9m n\u00e3o cumpriu seu objetivo. As informa\u00e7\u00f5es eram confusas, mal programadas, dispersas e sem um enfoque pedag\u00f3gico claro. N\u00e3o houve debates p\u00fablicos nem espa\u00e7os estruturados para contrastar perfis. A maioria dos cidad\u00e3os votou sem saber claramente quais seriam as fun\u00e7\u00f5es da pessoa que elegia. A autoridade eleitoral, sem tempo nem ferramentas suficientes, n\u00e3o conseguiu traduzir a relev\u00e2ncia constitucional do processo em uma narrativa compreens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A fiscaliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m requer ajustes profundos. N\u00e3o apenas para garantir transpar\u00eancia e equidade, mas para estabelecer limites claros ao financiamento e evitar que o Poder Judici\u00e1rio se torne um novo espa\u00e7o de clientelismo pol\u00edtico. Um tema especialmente sens\u00edvel foi o uso de \u201cacorde\u00f5es\u201d ou materiais de apoio durante a vota\u00e7\u00e3o. A falta de regulamenta\u00e7\u00e3o espec\u00edfica gerou d\u00favidas razo\u00e1veis sobre a validade do voto. Cabe ao INE definir, com clareza normativa, o alcance e as condi\u00e7\u00f5es desses instrumentos para processos futuros.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso se refletiu em um n\u00famero contundente: apenas 13% do eleitorado participou da elei\u00e7\u00e3o. Embora juridicamente v\u00e1lida, essa participa\u00e7\u00e3o obriga a uma revis\u00e3o profunda do modelo: seus limites, suas defici\u00eancias e suas possibilidades. \u00c9 necess\u00e1rio construir um marco normativo mais transparente, mais exigente e mais funcional antes do pr\u00f3ximo exerc\u00edcio em 2027.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse cen\u00e1rio, surge com for\u00e7a um nome que n\u00e3o pode ser ignorado: Hugo Aguilar Ortiz, advogado mixteco, defensor dos povos origin\u00e1rios e pr\u00f3ximo presidente da Suprema Corte. Ele obteve cerca de seis milh\u00f5es de votos \u2014 um n\u00famero extraordin\u00e1rio em uma elei\u00e7\u00e3o de baixa participa\u00e7\u00e3o \u2014, refletindo n\u00e3o apenas efic\u00e1cia territorial, mas uma conex\u00e3o simb\u00f3lica com setores historicamente exclu\u00eddos. Sua candidatura encarnou uma narrativa diferente: justi\u00e7a a partir do territ\u00f3rio, n\u00e3o da mesa; justi\u00e7a com rosto ind\u00edgena. E essa narrativa conseguiu ultrapassar as fronteiras do c\u00e1lculo pol\u00edtico convencional.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das cr\u00edticas sobre o uso de formatos pr\u00e9-fabricados ou apoio visual, sua vota\u00e7\u00e3o revela o surgimento de um novo ator no xadrez pol\u00edtico nacional, com legitimidade social e um poder simb\u00f3lico dif\u00edcil de ignorar.<\/p>\n\n\n\n<p>A elei\u00e7\u00e3o judicial de 2025 n\u00e3o deve ser entendida apenas como uma anomalia, mas como o in\u00edcio de uma nova etapa constitucional. Se esse modelo deve continuar \u2014 como j\u00e1 estabelece a Carta Magna \u2014, \u00e9 imprescind\u00edvel corrigir suas falhas originais: fortalecer os filtros de acesso, garantir campanhas sujeitas ao escrut\u00ednio p\u00fablico, fomentar uma participa\u00e7\u00e3o informada e assumir que os atores pol\u00edticos t\u00eam uma responsabilidade hist\u00f3rica que n\u00e3o podem continuar evitando.<\/p>\n\n\n\n<p>A justi\u00e7a se abriu ao voto popular. \u00c9 uma realidade constitucional. N\u00e3o ser\u00e1 de outra forma. \u00c9 hora de revis\u00e1-la, fortalec\u00ea-la e avali\u00e1-la. E, quando chegar a hora, submet\u00ea-la novamente ao julgamento das urnas em 2027.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A justi\u00e7a no M\u00e9xico ultrapassou o limiar do voto popular sem orienta\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica nem apoio claro dos cidad\u00e3os, marcando o in\u00edcio de uma nova etapa constitucional t\u00e3o in\u00e9dita quanto incerta.<\/p>\n","protected":false},"author":385,"featured_media":49307,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16706,16711],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-49316","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mexico-pt-br","8":"category-elecciones-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49316","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/385"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49316"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49316\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49307"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49316"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49316"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49316"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=49316"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}