{"id":49318,"date":"2025-07-13T06:00:00","date_gmt":"2025-07-13T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=49318"},"modified":"2025-07-11T14:22:38","modified_gmt":"2025-07-11T17:22:38","slug":"a-geopolitica-do-desencanto-trump-como-simbolo-de-uma-ordem-em-disputa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-geopolitica-do-desencanto-trump-como-simbolo-de-uma-ordem-em-disputa\/","title":{"rendered":"A Geopol\u00edtica do Desencanto: Trump como s\u00edmbolo de uma ordem em disputa"},"content":{"rendered":"\n<p>A leitura da reapari\u00e7\u00e3o de Donald Trump \u00e0 cena internacional como uma figura disruptiva n\u00e3o pode se limitar ao capricho de uma personalidade avassaladora. Com seu estilo provocador, ele n\u00e3o s\u00f3 gera confus\u00e3o: tamb\u00e9m aplica (embora talvez de forma intuitiva) estrat\u00e9gias conhecidas na psicologia econ\u00f4mica. O \u201canchoring\u201d descrito por Kahneman e Tversky \u2014 fixar um ponto de partida extremo para depois negociar a partir da\u00ed \u2014 aparece em suas posturas duras iniciais, que depois modera ao negociar tratados ou compromissos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trump \u00e9, em muitos sentidos, um sintoma, um catalisador; uma lente inc\u00f4moda, mas \u00fatil, para ler os processos de reconfigura\u00e7\u00e3o global.<\/strong> Focar apenas no personagem ajuda a compreender o estilo de lideran\u00e7a e talvez sua estrat\u00e9gia pol\u00edtica, mas nos deixa sem respostas.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde a crise financeira de 2008, passando pela pandemia, at\u00e9 os atuais conflitos armados \u2014 R\u00fassia-Ucr\u00e2nia, Israel-Hamas, I\u00eamen, Sud\u00e3o \u2014, assistimos a um momento de profunda instabilidade. H\u00e1 v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es em evolu\u00e7\u00e3o. Os \u201caumentos tarif\u00e1rios\u201d por parte de Trump, cujo \u00faltimo cap\u00edtulo \u00e9 a decis\u00e3o do Canad\u00e1 de pausar novos impostos sobre as tecnologias. O bombardeio estadunidense contra instala\u00e7\u00f5es do programa nuclear iraniano, com o consequente risco de uma escalada regional. Em suma, guerras quentes convivem com tens\u00f5es crescentes no com\u00e9rcio mundial, disputas por mat\u00e9rias-primas estrat\u00e9gicas (como terras raras), urg\u00eancias energ\u00e9ticas e desafios ambientais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trump, o \u201cbulldozer\u201d geopol\u00edtico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A geopol\u00edtica, em seus tr\u00eas n\u00edveis discursivos, est\u00e1 voltando ao centro do debate. Por um lado, \u00e9 utilizada entre especialistas na academia. Ademais, h\u00e1 uma ampla produ\u00e7\u00e3o por parte de governos e institui\u00e7\u00f5es como ONGs e <em>think tanks<\/em>, sobretudo desde a segunda metade do s\u00e9culo XX. E, por outro lado, h\u00e1 um grande uso do discurso que Gerard Toal qualifica como \u201cgeopol\u00edtica popular\u201d: vinculado \u00e0 m\u00eddia, aos filmes e \u00e0s conversas nas ruas. Basta olhar para a curva de pesquisas da <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-e-a-geopolitica\/\">palavra \u201cgeopolitics\u201d<\/a> no Google Trends para notar que o interesse das pessoas pela geopol\u00edtica cresce exponencialmente. Buscar padr\u00f5es e tend\u00eancias na gest\u00e3o do territ\u00f3rio e o poder atual tem muito potencial anal\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a psicologia nos ajuda a entender o fen\u00f4meno Trump, mas a an\u00e1lise vai al\u00e9m do com\u00e9rcio e da economia. Trump n\u00e3o \u00e9 tanto o criador de uma nova pol\u00edtica externa, mas sim um sinal dos tempos: reflete uma fratura interna dos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, catalisa uma reordena\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Geografia e poder: a heran\u00e7a de Tuc\u00eddides em uma chave contempor\u00e2nea<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em um cen\u00e1rio onde a <em>pax americana<\/em> j\u00e1 n\u00e3o se sustenta em seus pr\u00f3prios termos, buscam-se explica\u00e7\u00f5es para a nova realidade. O polit\u00f3logo Graham Allison resgatou o conceito da \u201cArmadilha de Tuc\u00eddides\u201d, da tens\u00e3o estrutural que ocorre quando uma pot\u00eancia emergente amea\u00e7a deslocar uma hegem\u00f4nica, fazendo um paralelo entre Atenas e Esparta com China e Estados Unidos. Fareed Zakaria entende que entramos em um \u201cmundo p\u00f3s-norte-americano\u201d, onde os Estados Unidos j\u00e1 n\u00e3o ditam as regras sozinhos, mas sim que a ascens\u00e3o relativa de outras pot\u00eancias dispersa o poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ejetados para uma nova reordena\u00e7\u00e3o, a retirada parcial dos Estados Unidos da cena global, mais gestual do que efetiva, abriu espa\u00e7o para a multiplica\u00e7\u00e3o de atores estrat\u00e9gicos.<\/strong> A Europa enfrenta sua vizinhan\u00e7a inst\u00e1vel (R\u00fassia, Oriente M\u00e9dio, Norte da \u00c1frica) enquanto tenta redefinir seu papel em mat\u00e9ria de defesa, imigra\u00e7\u00e3o e energia. A \u00c1sia, por sua vez, posiciona-se com determina\u00e7\u00e3o e estende seus tent\u00e1culos tecnol\u00f3gicos e log\u00edsticos pelo mundo, chegando \u00e0 Am\u00e9rica Latina \u2014 que tem sido tradicionalmente o \u201cquintal dos Estados Unidos\u201d \u2014, como demonstram o Porto Chancay no Peru, carros e baterias el\u00e9tricas no Brasil, constru\u00e7\u00e3o de parques solares e o centro de dados da Huawei, entre outros projetos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A China n\u00e3o luta s\u00f3 pelo poder econ\u00f4mico; disputa narrativas.<\/strong> Citando Kishore Mahbubani, enquanto os Estados Unidos est\u00e3o presentes na \u00c1sia h\u00e1 um s\u00e9culo, a China est\u00e1 l\u00e1 h\u00e1 mil anos. E provavelmente continuar\u00e1 l\u00e1. Essa perspectiva hist\u00f3rica n\u00e3o s\u00f3 relativiza a influ\u00eancia ocidental, mas interpela as formas de leitura das mudan\u00e7as globais: nem tudo pode ser observado a partir de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p>O Vietn\u00e3 \u00e9 um exemplo de como os atuais processos de industrializa\u00e7\u00e3o, mediados pela globaliza\u00e7\u00e3o e pela tecnologia, reconfiguram as classes sociais e as estruturas econ\u00f4micas. Sociedades que absorvem a popula\u00e7\u00e3o camponesa para o trabalho industrial em crescimento, frente a outras \u2014 como muitas ocidentais \u2014 onde a classe m\u00e9dia envelhecida e prec\u00e1ria experimenta a deteriora\u00e7\u00e3o como perda relativa. S\u00e3o duas din\u00e2micas temporais e estruturais distintas, em competi\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica. A isso se somam pol\u00edticas p\u00fablicas de desenvolvimento com janelas temporais diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p>Na China, Coreia do Sul, Jap\u00e3o, Taiwan, \u00cdndia ou R\u00fassia, h\u00e1 estrat\u00e9gias de desenvolvimento orientadas ao longo prazo que est\u00e3o dando frutos. Enquanto isso, nos Estados Unidos, uma vis\u00e3o de curto prazo resulta em setores internos com velocidades diferentes. Uma esp\u00e9cie de \u201cdumping pol\u00edtico\u201d funciona entre sistemas que conseguem sustentar uma estrat\u00e9gia econ\u00f4mica e pol\u00edtica, entre outras circunst\u00e2ncias, \u00e0 custa da falta de altern\u00e2ncia no governo e da supress\u00e3o da oposi\u00e7\u00e3o, em compara\u00e7\u00e3o com as democracias, nas quais o prazo de validade dos mandatos muitas vezes n\u00e3o consegue manter objetivos de m\u00e9dio ou longo prazo. Na Am\u00e9rica Latina, sofre-se o pior dos dois mundos. H\u00e1 500 anos, vive-se uma inser\u00e7\u00e3o assim\u00e9trica na economia que gera desigualdade social interna e impactos ambientais muito fortes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Trump, mais do que Trump: o produto de uma eros\u00e3o estrutural<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 figura de Trump, propomos uma vis\u00e3o que excede a psicologia ou a moralidade do personagem. Trump n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma anomalia. \u00c9, em todo caso, uma consequ\u00eancia dos desajustes dentro de um sistema econ\u00f4mico e pol\u00edtico desgastado. Os Estados Unidos experimentam uma fratura interna marcada pelo enfraquecimento de sua classe m\u00e9dia, pela concentra\u00e7\u00e3o de poder nos setores financeiros e pelo empobrecimento de amplas camadas sociais h\u00e1 d\u00e9cadas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A globaliza\u00e7\u00e3o foi o verdadeiro tsunami das \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas.<\/strong> Alterou as cadeias de valor, deslocou centros produtivos, fragmentou sociedades. E fez isso de maneira desigual. Enquanto algumas elites globalizadas ganharam acesso a novos mercados e recursos, outras \u2014 mais nacionais, menos m\u00f3veis \u2014, mas n\u00e3o necessariamente as classes baixas, come\u00e7aram a perder terreno. Trump, assim como outras figuras como Bolsonaro, Le Pen ou Milei, expressa essa tens\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata, ent\u00e3o, de avaliar se Trump tem raz\u00e3o, mas de compreender o que seu \u00eaxito pol\u00edtico est\u00e1 nos dizendo. Talvez seu m\u00e9rito seja ter apontado (intencionalmente ou n\u00e3o) que o sistema global est\u00e1 se desintegrando. A perda de competitividade e influ\u00eancia dos Estados Unidos leva Trump a testar medidas unilaterais que tensionam ainda mais o tabuleiro, desde ataques preventivos a inimigos estrat\u00e9gicos at\u00e9 press\u00f5es comerciais sobre parceiros hist\u00f3ricos como o Canad\u00e1. Mas tamb\u00e9m obriga atores intermedi\u00e1rios \u2014 Europa, Am\u00e9rica Latina, Sudeste Asi\u00e1tico \u2014 a repensar suas pr\u00f3prias margens de manobra.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A Am\u00e9rica Latina diante do tabuleiro agitado<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o-chave n\u00e3o \u00e9 tanto se as regi\u00f5es ou pa\u00edses devem apoiar ou rejeitar os Estados Unidos ou a China, ou com que l\u00f3gica jogar no curto prazo no mercado tarif\u00e1rio ou no da estrid\u00eancia comunicacional, mas como se posicionar neste mundo reconfigurado. Com vasto territ\u00f3rio, recursos naturais estrat\u00e9gicos e ainda uma janela demogr\u00e1fica ativa, pa\u00edses como Brasil ou Argentina t\u00eam oportunidades que n\u00e3o devem ser desperdi\u00e7adas em leituras reativas ou viscerais. A geopol\u00edtica pode e deve ajudar a pensar estrategicamente: a partir de nossa localiza\u00e7\u00e3o, de nossos interesses, de nossas capacidades.<\/p>\n\n\n\n<p>Responder \u00e0s medidas unilaterais de Trump com repres\u00e1lias puramente emocionais ou mec\u00e2nicas \u2014 aumentando tarifas, por exemplo \u2014 pode ser t\u00e3o ineficaz quanto ing\u00eanuo. O que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 uma leitura complexa, multidisciplinar, capaz de articular economia, sociologia, hist\u00f3ria e pol\u00edtica externa. Uma leitura que entenda que o mundo n\u00e3o \u00e9 un\u00edvoco e que lideran\u00e7as carism\u00e1ticas \u2014 sejam de direita ou de esquerda \u2014 n\u00e3o podem substituir a an\u00e1lise estrutural. <strong>Os consensos que transcendem os ciclos pol\u00edticos s\u00e3o os que, a longo prazo, beneficiar\u00e3o nossas economias e sociedades<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Menos curto prazo, mais realismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A atual incerteza geopol\u00edtica n\u00e3o desaparecer\u00e1 t\u00e3o cedo. A ordem global est\u00e1 em disputa, as narrativas se multiplicam, os atores se reconfiguram. Trump \u2014 amado ou odiado \u2014 n\u00e3o \u00e9 o come\u00e7o nem o fim do processo. \u00c9 um espelho quebrado que reflete m\u00faltiplas crises: a do modelo neoliberal, a do multilateralismo, a da confian\u00e7a nas elites. Compreend\u00ea-lo requer algo mais do que condena\u00e7\u00f5es morais ou simpatias ideol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a geopol\u00edtica volta ao centro da an\u00e1lise, \u00e9 porque precisamos de ferramentas complexas para pensar um mundo que se tornou interconectado e, ao mesmo tempo, competitivo. E, como nos lembra a hist\u00f3ria, n\u00e3o h\u00e1 erro pior do que enfrentar uma crise com estruturas antigas. Trump n\u00e3o \u00e9 o terremoto, \u00e9 a rachadura. E se n\u00e3o mudarmos a lente, veremos apenas os escombros, n\u00e3o as estruturas que continuam a ruir sob nossos p\u00e9s.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Trump n\u00e3o \u00e9 a causa da desordem global, mas sim o sintoma mais ruidoso de um sistema que j\u00e1 estava se desintegrando.<\/p>\n","protected":false},"author":487,"featured_media":49312,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16949,16758],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-49318","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-internacional-pt-br","8":"category-donald-trump-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49318","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/487"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49318"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49318\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49312"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49318"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49318"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49318"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=49318"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}