{"id":49352,"date":"2025-07-15T12:30:50","date_gmt":"2025-07-15T15:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=49352"},"modified":"2025-07-14T14:56:11","modified_gmt":"2025-07-14T17:56:11","slug":"imaginacao-a-partir-de-baixo-repensar-o-futuro-em-tempos-de-antropoceno","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/imaginacao-a-partir-de-baixo-repensar-o-futuro-em-tempos-de-antropoceno\/","title":{"rendered":"Imagina\u00e7\u00e3o \u201ca partir de baixo\u201d: repensar o futuro em tempos de Antropoceno"},"content":{"rendered":"\n<p>Se h\u00e1 algo que destacou a humanidade, \u00e9 sua capacidade de imaginar, recriar e construir horizontes de futuro. No entanto, diante da tripla crise planet\u00e1ria \u2014 englobada pela polui\u00e7\u00e3o, pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e pela perda de biodiversidade \u2014 nossa capacidade de <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-crise-climatica-uma-crise-de-lideranca-e-imaginacao\/\">imaginar<\/a> respostas e a\u00e7\u00f5es coletivas tem sido enfraquecida, pelo menos nas altas esferas pol\u00edticas internacionais e intergovernamentais, que est\u00e3o encontrando limites para uma governan\u00e7a \u201cde cima\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cA partir de baixo\u201d, na Am\u00e9rica Latina, o panorama \u00e9 outro. Existe uma diversidade de propostas e experi\u00eancias que interpelam a policrise que atravessamos como sociedade global. Talvez seja o momento de considerar seriamente propostas locais, com enfoque territorial, que n\u00e3o sejam apenas ambientalmente sustent\u00e1veis, mas tamb\u00e9m socialmente justas. S\u00f3 ent\u00e3o seremos realmente capazes de gerar as transforma\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para enfrentar a crise m\u00faltipla.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As grandes paradoxos do Antropoceno<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo do \u00faltimo s\u00e9culo \u2014 e especialmente nas \u00faltimas d\u00e9cadas \u2014 assistimos aos mais altos n\u00edveis de desenvolvimento cient\u00edfico, tecnol\u00f3gico e social, seja em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o ou em quest\u00f5es ambientais, entre outras \u00e1reas. Um exemplo foi o manejo internacional da pandemia de Covid-19, que marcou um antes e um depois na gest\u00e3o p\u00fablica da emerg\u00eancia por parte de organismos intergovernamentais em conjunto com o sistema cient\u00edfico e pol\u00edtico. N\u00e3o apenas por ter evidenciado as amea\u00e7as das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, mas porque mostrou que \u00e9 poss\u00edvel tomar medidas coletivas em tempos de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A pandemia tamb\u00e9m evidenciou a face oculta dos avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e sociais: o modelo de desenvolvimento capitalista baseado, fundamentalmente, na explora\u00e7\u00e3o desenfreada da natureza, que tem colocado em risco a vida no planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>O n\u00edvel de transforma\u00e7\u00e3o do mundo \u00e9 t\u00e3o impactante que alguns cientistas propuseram denominar nossa \u00e9poca como a do Antropoceno, destacando que os seres humanos nos tornamos for\u00e7as de mudan\u00e7a inexor\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>Ainda que n\u00e3o se tenha alcan\u00e7ado um consenso cient\u00edfico para renomear esta era, o Antropoceno \u00e9 uma lente muito potente para refletir sobre as paradoxos da crise clim\u00e1tica e ambiental \u2014 mas tamb\u00e9m para recriar a imagina\u00e7\u00e3o em tempos de crises m\u00faltiplas e construir horizontes comuns. Menos destrutivos e mais justos para a vida no planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>As paradoxos do Antropoceno s\u00e3o, em ess\u00eancia, as paradoxos da crise ambiental. A primeira delas est\u00e1 na pr\u00f3pria denomina\u00e7\u00e3o do \u201cAnthropos\u201d: todos os seres humanos s\u00e3o igualmente respons\u00e1veis pela crise atual ou precisamos estabelecer crit\u00e9rios claros para entender como chegamos at\u00e9 aqui? O Antropoceno, como conceito, apresenta certas limita\u00e7\u00f5es ao diluir responsabilidades, podendo obstruir discuss\u00f5es sobre estrat\u00e9gias de a\u00e7\u00e3o eficazes para enfrent\u00e1-lo. Se todos somos respons\u00e1veis, ent\u00e3o ningu\u00e9m o \u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p>A segunda paradoxo \u00e9 a vulnerabilidade dos seres humanos diante da cont\u00ednua onipot\u00eancia de controle planet\u00e1rio. A Covid-19 \u00e9 novamente uma amostra dessa fragilidade. Um v\u00edrus de origem zoon\u00f3tica afetou rapidamente a popula\u00e7\u00e3o mundial, gerando uma pandemia sem precedentes e colocando em xeque o sistema social, econ\u00f4mico e pol\u00edtico global. O reverso dessa fragilidade \u00e9 a ideia de onipot\u00eancia e controle da natureza que predominou ao longo da hist\u00f3ria. Aqui, o homem se distingue das demais esp\u00e9cies por sua capacidade de transformar, controlar e domesticar a natureza por meio da ci\u00eancia e da tecnologia.<\/p>\n\n\n\n<p>A terceira paradoxo do Antropoceno reside no risco existencial em que nos encontramos. Estamos vivenciando a maior ocorr\u00eancia de eventos extremos como ondas de calor, inc\u00eandios e inunda\u00e7\u00f5es \u2014 fruto das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Esse \u00e9 apenas um dos eixos do quebra-cabe\u00e7a que gera efeitos em cascata de vulnerabilidades crescentes e desiguais no mundo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, por que n\u00e3o pensar o Antropoceno como uma oportunidade de emancipa\u00e7\u00e3o, por meio da constru\u00e7\u00e3o de uma nova consci\u00eancia planet\u00e1ria, mas baseada no local, nas rela\u00e7\u00f5es sociais e de cuidado que se constroem a partir dos territ\u00f3rios? Talvez uma forma de come\u00e7ar seja conectar o Antropoceno com experi\u00eancias locais de transforma\u00e7\u00e3o que j\u00e1 est\u00e3o acontecendo e que tornam este mundo mais habit\u00e1vel. Essa pode ser uma oportunidade para sermos ousados e reimaginar transforma\u00e7\u00f5es sociais, \u00e9ticas e tecnol\u00f3gicas que deem lugar a formas renovadas de vida \u2014 mais sustent\u00e1veis, justas e democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A\u00e7\u00e3o clim\u00e1tica a partir do territ\u00f3rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A busca por esse horizonte coletivo, baseada na imagina\u00e7\u00e3o \u201ca partir de baixo\u201d, n\u00e3o \u00e9 apenas uma ideia conceitual: s\u00e3o pr\u00e1ticas concretas, muitas vezes invisibilizadas, que abrem caminhos a partir do local e do territorial. N\u00e3o \u00e9 preciso ir longe \u2014 na Am\u00e9rica Latina podemos encontrar uma grande diversidade de propostas e a\u00e7\u00f5es emancipadoras, tanto no campo quanto na cidade. Por meio de sua capacidade de resist\u00eancia, reinven\u00e7\u00e3o e recria\u00e7\u00e3o de imagin\u00e1rios coletivos, a regi\u00e3o se converte em uma fonte de alternativas diversas para interpelar nosso modo de habitar o Antropoceno.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma das experi\u00eancias mais potentes \u2014 e menos visibilizadas \u2014 nas cidades \u00e9 a das cooperativas de catadores urbanos da regi\u00e3o. As cooperativas e os catadores s\u00e3o atores-chave na sustentabilidade das cidades. A separa\u00e7\u00e3o de res\u00edduos, a coleta, o armazenamento e a recupera\u00e7\u00e3o de materiais recicl\u00e1veis s\u00e3o pr\u00e1ticas cotidianas que n\u00e3o apenas contribuem para o cuidado ambiental, mas tamb\u00e9m sustentam economias populares, comunit\u00e1rias e solid\u00e1rias. Longe de serem simples gestores de res\u00edduos, os catadores urbanos ressignificam o que a cidade descarta, transformando lixo em recurso da <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-economia-circular-para-o-tratamento-de-aguas-residuais\/\">economia circular<\/a>, dando novos usos a res\u00edduos que, de outra forma, terminariam contaminando os oceanos ou em aterros das grandes cidades.<\/p>\n\n\n\n<p>O que fazemos com nossos res\u00edduos? Sabemos para onde v\u00e3o? Separ\u00e1-los na origem faz diferen\u00e7a? Essas s\u00e3o algumas perguntas necess\u00e1rias para estabelecer conex\u00f5es. Inclusive, a conscientiza\u00e7\u00e3o sobre esses processos pode ser a chave para ampliar a imagina\u00e7\u00e3o, demandar pol\u00edticas p\u00fablicas e criar melhores condi\u00e7\u00f5es de apoio \u00e0s iniciativas locais.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra experi\u00eancia de conex\u00e3o com o Antropoceno \u00e9 a produ\u00e7\u00e3o de alimentos. De onde v\u00eam os alimentos que consumimos? Quem os produz? Como circulam e chegam \u00e0s nossas mesas?<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo dados da FAO, 70% da produ\u00e7\u00e3o de alimentos prov\u00e9m da agricultura familiar, tem car\u00e1ter diversificado e resiliente, e pode oferecer respostas \u00e0s necessidades sociais, econ\u00f4micas e ambientais frente \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Com uma baixa porcentagem de propriedade da terra, a agricultura de pequena escala \u00e9 a que mais contribui para a seguran\u00e7a alimentar. No entanto, uma abordagem integrada do sistema alimentar tamb\u00e9m exigir\u00e1 a inclus\u00e3o de dietas mais saud\u00e1veis, a redu\u00e7\u00e3o do desperd\u00edcio de alimentos e um maior apoio \u00e0 produ\u00e7\u00e3o agroecol\u00f3gica e camponesa-ind\u00edgena.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas experi\u00eancias ilustram como a imagina\u00e7\u00e3o \u201ca partir de baixo\u201d n\u00e3o espera grandes solu\u00e7\u00f5es tecnocr\u00e1ticas, mas atua a partir do cotidiano, transformando o presente com criatividade, compromisso e resist\u00eancia. Em tempos de Policrise, \u00e9 necess\u00e1rio reconhecer e visibilizar as a\u00e7\u00f5es que j\u00e1 est\u00e3o acontecendo nos territ\u00f3rios. A produ\u00e7\u00e3o de alimentos e as a\u00e7\u00f5es de reciclagem com inclus\u00e3o social nos lembram que os caminhos para a sustentabilidade e a justi\u00e7a clim\u00e1tica podem \u2014 e devem \u2014 ser constru\u00eddos a partir do local, das margens, por aqueles que foram historicamente invisibilizados.<\/p>\n\n\n\n<p>Em \u00faltima inst\u00e2ncia, se quisermos enfrentar o Antropoceno com seriedade, precisamos colocar em di\u00e1logo a imagina\u00e7\u00e3o e as pr\u00e1ticas que surgem \u201cde cima\u201d com aquelas desenvolvidas \u201cde baixo\u201d. Gerar alian\u00e7as inclusivas que possam transformar a crise em oportunidade. Aproveitemos a imagina\u00e7\u00e3o que j\u00e1 existe em nossa regi\u00e3o para transformar o caos em um horizonte de mudan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Este texto integra a colabora\u00e7\u00e3o entre a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Ibero-americanos para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (OEI) e a Latinoam\u00e9rica21 para a divulga\u00e7\u00e3o da plataforma Vozes de Mulheres Ibero-americanas. Conhe\u00e7a e participe da plataforma clicando AQUI.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Jana\u00edna da Silva<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diante \u00e0 crise planet\u00e1ria do Antropoceno, as repostas mais potentes n\u00e3o v\u00eam das c\u00fapulas globias, mas dos territ\u00f3rios que reinventam o futuro a partir de baixo. <\/p>\n","protected":false},"author":354,"featured_media":49347,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16751],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-49352","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-medioambiente-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49352","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/354"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49352"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49352\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49347"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49352"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49352"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49352"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=49352"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}