{"id":49592,"date":"2025-07-30T09:00:00","date_gmt":"2025-07-30T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=49592"},"modified":"2025-07-29T11:03:16","modified_gmt":"2025-07-29T14:03:16","slug":"bairros-brujos-e-favelas-um-seculo-de-informalidade-urbana-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/bairros-brujos-e-favelas-um-seculo-de-informalidade-urbana-na-america-latina\/","title":{"rendered":"Bairros brujos e favelas: um s\u00e9culo de informalidade urbana na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>A Greve dos Inquilinos de 1925 foi a primeira grande crise social do s\u00e9culo XX no Panam\u00e1. Essa greve teve origem na superlota\u00e7\u00e3o, na precariedade e na falta de alternativas de moradia que milhares de ex-trabalhadores do Canal sofriam nas cidades terminais da Rota Trans\u00edstmica. A essa situa\u00e7\u00e3o vol\u00e1til somou-se o aumento desmedido dos alugu\u00e9is por parte dos propriet\u00e1rios. O abalo causado por essa crise foi t\u00e3o grande que levou o governo a solicitar a interven\u00e7\u00e3o militar das tropas americanas acantonadas na antiga Zona do Canal, a fim de conter a revolta.<\/p>\n\n\n\n<p>O aumento dos alugu\u00e9is foi consequ\u00eancia da crise econ\u00f4mica e fiscal que o Panam\u00e1 vivia devido ao t\u00e9rmino da constru\u00e7\u00e3o do Canal e \u00e0 m\u00e1 gest\u00e3o das finan\u00e7as p\u00fablicas por parte dos governos que o pa\u00eds teve durante seu primeiro quarto de s\u00e9culo de exist\u00eancia. A essa crise local somou-se o impacto econ\u00f4mico global da Grande Depress\u00e3o do in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930. Devido \u00e0s press\u00f5es inflacion\u00e1rias e \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de abuso por parte dos propriet\u00e1rios, as tens\u00f5es sobre este tema mantiveram-se entre 1925 e 1932. Estas tens\u00f5es refletiram-se numa s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es, como protestos nas ruas, greves de n\u00e3o pagamento e at\u00e9 mesmo uma ocupa\u00e7\u00e3o de terras.<\/p>\n\n\n\n<p>O bairro de Boca La Caja \u2014 como ficou conhecida essa primeira ocupa\u00e7\u00e3o de terras em 1932 \u2014 surgiu da ocupa\u00e7\u00e3o realizada por 72 fam\u00edlias de pescadores na orla costeira pr\u00f3xima \u00e0 servid\u00e3o do que seria o aeroporto de Paitilla. Constru\u00eddo em 1934, este seria o primeiro aeroporto da cidade do Panam\u00e1 fora da Zona do Canal, segundo o que descreve o arquiteto \u00c1lvaro Uribe no livro Ciudad fragmentada (1989).<\/p>\n\n\n\n<p>O surgimento precoce de assentamentos informais durante o s\u00e9culo XX n\u00e3o foi uma situa\u00e7\u00e3o exclusiva do Panam\u00e1. Este bairro foi precedido pela ocupa\u00e7\u00e3o por soldados desmobilizados do Morro da Providencia, no Rio de Janeiro, em 1897, o assentamento informal mais antigo da regi\u00e3o. Outras ocupa\u00e7\u00f5es similares se seguiram, marcando uma primeira expans\u00e3o urbana na Am\u00e9rica Latina. A Favela da Rocinha, tamb\u00e9m no Rio de Janeiro (final dos anos 1920), Villa 31 em Buenos Aires (1932), Las Yaguas em Havana (d\u00e9cada de 1930) e Boca La Caja na cidade do Panam\u00e1 foram os primeiros assentamentos dessa onda inicial.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses assentamentos pioneiros seriam o precedente da explosiva ocupa\u00e7\u00e3o de terras que caracterizou o crescimento urbano das cidades latino-americanas entre a d\u00e9cada de 1940 e o final do s\u00e9culo XX. Bairro Petare em Caracas (1940), Cidade Nezahualc\u00f3yotl no M\u00e9xico (1950), Villa 21-24 em Buenos Aires (1950), Cidade Bol\u00edvar, Bogot\u00e1 (1950), Victoria em Santiago do Chile (1957), Cantegril em Montevid\u00e9u (1954), La Limonada na Guatemala (1958) e La Ci\u00e9naga em Santo Domingo (1958) comp\u00f5em a segunda onda de um fen\u00f4meno que se estenderia com for\u00e7a at\u00e9 o final da d\u00e9cada de 1990.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas duas primeiras ondas de assentamentos informais marcam a expans\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o autoconstru\u00edda como forma de construir cidades na Am\u00e9rica Latina, tanto em seus aspectos narrativos quanto sociais e f\u00edsicos. Os assentamentos informais deram origem a uma g\u00edria muito latino-americana que estigmatiza sua condi\u00e7\u00e3o de pobreza e precariedade. Termos como <em>favelas<\/em> no Brasil, <em>villas miseria<\/em> na Argentina, <em>barriadas de emergencia<\/em> ou <em>barriadas brujas<\/em> no Panam\u00e1, <em>cantegril<\/em> no Uruguai, <em>callampas<\/em> no Chile ou <em>tugurios<\/em> na Costa Rica fazem parte dos americanismos que d\u00e3o nome a esse fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conjunto, todos esses casos refletem um padr\u00e3o comum: crises profundas (b\u00e9licas ou econ\u00f4micas) expulsaram popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis \u2014 soldados desmobilizados, migrantes rurais e imigrantes estrangeiros pobres, ou trabalhadores desempregados \u2014 para as periferias urbanas, em n\u00fameros crescentes, at\u00e9 constitu\u00edrem uma parte consider\u00e1vel na forma\u00e7\u00e3o das cidades latino-americanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Fisicamente, os assentamentos informais localizaram-se em zonas perif\u00e9ricas e marginais das cidades. Colinas, \u00e1reas pantanosas, zonas industriais pr\u00f3ximas a portos ou ferrovias e at\u00e9 mesmo lix\u00f5es, entre outros espa\u00e7os, que permitiam residir perto dos centros de emprego, mas em terrenos pouco atraentes para o desenvolvimento urbano formal.<\/p>\n\n\n\n<p>Em geral, desses primeiros assentamentos, poucos foram totalmente eliminados. Alguns governos optaram pela erradica\u00e7\u00e3o e realoca\u00e7\u00e3o \u2014 como Cuba com Las Yaguas em 1960. Mais frequente tem sido a regulariza\u00e7\u00e3o progressiva: fornecimento de servi\u00e7os, reconhecimento legal da terra e, em alguns casos, certo grau de integra\u00e7\u00e3o urbana. Por exemplo, em Villa 31, em Buenos Aires, foram constru\u00eddos espa\u00e7os p\u00fablicos que buscam uma maior integra\u00e7\u00e3o com a cidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando a Boca La Caja, no Panam\u00e1, esse bairro continua sendo, atualmente, uma comunidade de pescadores e pessoas da classe trabalhadora. Situado na orla costeira \u2014 e cercado por arranha-c\u00e9us e shopping centers constru\u00eddos ao longo do s\u00e9culo XXI \u2014, tornou-se um espa\u00e7o cobi\u00e7ado pelo desenvolvimento imobili\u00e1rio da cidade. Nesse contexto, surgiu uma recente proposta por parte das autoridades de planejamento urbano da cidade para atribuir, pela <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-aconteceu-com-o-desenvolvimento-da-cidade-de-panama\/\">primeira vez em sua hist\u00f3ria<\/a>, c\u00f3digos de zoneamento a este bairro.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta proposta gerou mal-estar na comunidade. A origem do descontentamento \u00e9 que a proposta atribui um uso do solo para habita\u00e7\u00f5es individuais ao conjunto de lotes que comp\u00f5em este bairro. Os moradores de Boca La Caja exigem que lhes seja atribu\u00eddo um uso de alta intensidade, que permita a constru\u00e7\u00e3o de edif\u00edcios de at\u00e9 20 andares, uma vez que estes t\u00eam um valor de mercado superior ao das habita\u00e7\u00f5es individuais. Uma estrat\u00e9gia que parece destinada a obter melhores pre\u00e7os de venda das suas propriedades, caso sejam for\u00e7ados a abandonar a sua comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Boca La Caja exemplifica o desafio da cidade latino-americana, na qual j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 vi\u00e1vel manter os assentamentos informais no limbo entre o esquecimento institucional e a amea\u00e7a constante de despejo. A cidade latino-americana precisa gerar modelos inovadores para reduzir a expuls\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o para a periferia. A informalidade na habita\u00e7\u00e3o e no habitat \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o estrutural que afeta outros aspectos econ\u00f4micos e sociais da cidade, como o trabalho informal, o desemprego, a criminalidade, o mal-estar social, a salubridade e o bem-estar em geral, pelo que \u00e9 urgente atend\u00ea-la se n\u00e3o quisermos precipitar o colapso urbano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 1996, o relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Latino-Americana e do Caribe sobre assentamentos humanos apontava: \u201cA pobreza urbana pode muito bem constituir o problema pol\u00edtico e econ\u00f4mico mais explosivo da regi\u00e3o no pr\u00f3ximo s\u00e9culo. Entre 1970 e 1990, a porcentagem da popula\u00e7\u00e3o urbana em estado de pobreza absoluta subiu de 29% para 39%\u201d. Trinta e cinco anos depois, esses n\u00fameros s\u00f3 se agravaram. Segundo o PNUD, em 2022, \u201c<a href=\"https:\/\/featured.undp.org\/multidimensional-poverty\/es\/\">72% das pessoas que vivem em \u00e1reas urbanas s\u00e3o pobres<\/a>\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Os mais de 120 milh\u00f5es de habitantes da regi\u00e3o que ainda vivem na precariedade desses assentamentos s\u00e3o um claro indicador do pouco que foi feito nos \u00faltimos 100 anos para responder a um dos problemas fundamentais das cidades latino-americanas: proporcionar qualidade de vida, oportunidades e dignidade aos seus habitantes.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Impulsionados por crises econ\u00f4micas, migra\u00e7\u00f5es for\u00e7adas e aus\u00eancia de pol\u00edticas p\u00fablicas, milh\u00f5es de latino-americanos constru\u00edram suas casas nas periferias urbanas.<\/p>\n","protected":false},"author":609,"featured_media":49584,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16716,16766],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-49592","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desigualdad-es-pt-br","8":"category-pobreza-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49592","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/609"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49592"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49592\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49584"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49592"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49592"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49592"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=49592"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}