{"id":49687,"date":"2025-08-02T09:00:00","date_gmt":"2025-08-02T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=49687"},"modified":"2025-10-13T09:20:34","modified_gmt":"2025-10-13T12:20:34","slug":"discursos-desgastados-e-outlets-nao-autorizados-refazer-a-roda-da-democracia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/discursos-desgastados-e-outlets-nao-autorizados-refazer-a-roda-da-democracia\/","title":{"rendered":"Discursos desgastados e outlets n\u00e3o autorizados: refazer a roda da democracia"},"content":{"rendered":"\n<p>A recente c\u00fapula Democracia Sempre, realizada em Santiago do Chile, reuniu um punhado de presidentes de esquerda da Am\u00e9rica Latina com o presidente do governo espanhol, Pedro S\u00e1nchez. O evento, apresentado como um f\u00f3rum para defender a democracia, o multilateralismo e combater a desinforma\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m foi um retrato revelador de como a lideran\u00e7a oficialista espanhola usa a Am\u00e9rica Latina como um cen\u00e1rio alternativo para reposicionar discursos que j\u00e1 n\u00e3o encontram eco em suas pr\u00f3prias sociedades. A Am\u00e9rica Latina \u00e9 o <em>outlet<\/em> da pol\u00edtica espanhola?<\/p>\n\n\n\n<p>Pedro S\u00e1nchez, \u00fanico l\u00edder europeu presente, chegou ao Chile em meio a uma tempestade pol\u00edtica em seu pa\u00eds. A Espanha est\u00e1 em chamas: esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o que atingem o cora\u00e7\u00e3o do governo, uma oposi\u00e7\u00e3o fortalecida e uma cidadania cada vez mais c\u00e9tica diante da ret\u00f3rica moralizante do Executivo. Nesse contexto, sua presen\u00e7a na Am\u00e9rica do Sul n\u00e3o pode ser lido como um gesto diplom\u00e1tico desinteressado. Deve ser vista como uma manobra pol\u00edtica: uma tentativa de projetar lideran\u00e7a internacional enquanto sua autoridade dom\u00e9stica se desgasta.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A autoridade moral<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica externa espanhola para a Am\u00e9rica Latina tem sido historicamente ambivalente. \u00c0s vezes paternalista, outras vezes ausente e, em ocasi\u00f5es, como agora, instrumental. S\u00e1nchez n\u00e3o veio para ouvir, veio para ensinar. Em seu discurso, pediu para \u201cpassar \u00e0 ofensiva\u201d contra o que chamou de \u201cinternacional reacion\u00e1ria\u201d, uma coaliz\u00e3o de for\u00e7as de ultradireita contr\u00e1rias aos valores democr\u00e1ticos em ambos os lados do Atl\u00e2ntico. Mas o problema n\u00e3o \u00e9 o diagn\u00f3stico. \u00c9 o contexto: com que autoridade moral um presidente cercado por esc\u00e2ndalos em seu pa\u00eds pode vir dar li\u00e7\u00f5es sobre \u00e9tica democr\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p>Na foto, foi acompanhado por outros l\u00edderes cuja legitimidade tamb\u00e9m est\u00e1 em quest\u00e3o. Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, presidente do Brasil, chegou exultante ap\u00f3s o que parece ser uma vit\u00f3ria diplom\u00e1tica: as recentes medidas comerciais dos Estados Unidos contra seu pa\u00eds, motivadas pelo julgamento de Jair Bolsonaro, reacenderam sua popularidade. Mas Lula <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/analisis\/brasil-incertidumbre-realidad-ideologicamente-cristalizada\">n\u00e3o \u00e9 um novato na pol\u00edtica<\/a> nem um s\u00edmbolo imaculado. Seu retorno ao poder foi t\u00e3o celebrado quanto questionado. E sua alian\u00e7a com S\u00e1nchez responde mais a uma necessidade de blindagem pol\u00edtica do que a uma vis\u00e3o compartilhada do futuro.<\/p>\n\n\n\n<p>O colombiano Gustavo Petro, por sua vez, representa o caso mais problem\u00e1tico do grupo. Seu governo est\u00e1 <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/analisis\/colombia-consulta-popular\">cercado por esc\u00e2ndalos de diversas naturezas<\/a>, sua coaliz\u00e3o se fragmentou e seu estilo confrontador contribuiu para uma polariza\u00e7\u00e3o que paralisa qualquer tentativa de reforma. Petro n\u00e3o \u00e9 hoje um parceiro confi\u00e1vel para seus aliados internos e nem para seus pares internacionais. Sua presen\u00e7a na c\u00fapula, longe de fortalecer a mensagem, enfraquece-a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que os pa\u00edses ganham com isso?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Yamand\u00fa Orsi, presidente do Uruguai, <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/opinion-agenda\/crecer-uruguay-desafio-gobierno-orsi\">\u00e9 o mais novo no cargo<\/a> e, portanto, o mais cauteloso. Sua participa\u00e7\u00e3o parece mais um gesto de cortesia diplom\u00e1tica do que uma ades\u00e3o ideol\u00f3gica plena. No entanto, sua presen\u00e7a tamb\u00e9m levanta quest\u00f5es: o que o Uruguai ganha ao se aliar a um bloco que parece mais interessado em ret\u00f3rica do que em resultados?<\/p>\n\n\n\n<p>O anfitri\u00e3o, Gabriel Boric, fecha o quadro com um paradoxo. Chegou ao poder como s\u00edmbolo de renova\u00e7\u00e3o. Mas se despede com baixos \u00edndices de aprova\u00e7\u00e3o e a <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/opinion-agenda\/el-giro-comunista-del-oficialismo-chileno\">derrota contundente de seu partido<\/a> nas prim\u00e1rias da esquerda chilena. A vit\u00f3ria de Jeannette Jara, candidata do comunismo nessas prim\u00e1rias, marca uma virada que deixa Boric em uma posi\u00e7\u00e3o desconfort\u00e1vel: organizador de uma c\u00fapula que j\u00e1 n\u00e3o representa nem mesmo o futuro de seu pr\u00f3prio espa\u00e7o pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>A c\u00fapula Democracia Sempre foi apresentada como um esfor\u00e7o para construir uma narrativa alternativa frente ao avan\u00e7o da ultradireita. Mas, na pr\u00e1tica, tem funcionado mais como um clube de autoafirma\u00e7\u00e3o para l\u00edderes em apuros. A ret\u00f3rica da defesa democr\u00e1tica perde for\u00e7a quando quem a defende <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/analisis\/america-latina-ante-la-tercera-ola-de-autocratizacion\">enfrenta s\u00e9rias dificuldades<\/a> para sustent\u00e1-la em seus pr\u00f3prios pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>A Espanha, em particular, deveria refletir sobre o uso que faz da Am\u00e9rica Latina como plataforma de reposicionamento pol\u00edtico. N\u00e3o \u00e9 a primeira vez que o faz, mas \u00e9 uma das mais evidentes. Em vez de construir rela\u00e7\u00f5es baseadas no respeito m\u00fatuo e na coopera\u00e7\u00e3o efetiva, insiste-se numa l\u00f3gica de exporta\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que pouco tem a ver com as necessidades reais da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Ouvir mais e falar menos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A pol\u00edtica n\u00e3o \u00e9 um outlet onde se colocam os discursos que j\u00e1 n\u00e3o se vendem em casa. Nem \u00e9 um espa\u00e7o onde s\u00f3 conversa quem pensa igual. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que Democracia Sempre gerou <a href=\"https:\/\/x.com\/diego_schalper\/status\/1947276357664153743?s=46\">resist\u00eancias em alguns c\u00edrculos pol\u00edticos<\/a> de alto n\u00edvel. A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o precisa de serm\u00f5es, precisa de parceiros. E o presidente espanhol, se quiser ter um papel relevante no continente, deve abandonar a tenta\u00e7\u00e3o da superioridade moral e criar um di\u00e1logo verdadeiro e diversificado que re\u00fana partes diferentes. Ou seja, integrar mais e falar menos.<\/p>\n\n\n\n<p>A c\u00fapula no Chile deixou uma imagem clara: um grupo de l\u00edderes que, mais do que construir o futuro, parecem se agarrar ao passado da primeira onda progressista. Um passado em que a ret\u00f3rica, inflada pelos altos pre\u00e7os das mat\u00e9rias-primas, era suficiente para governar. Mas <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/debates\/opinion\/el-reto-de-una-democracia-sexy\">os tempos mudaram h\u00e1 muito tempo<\/a>, e a pol\u00edtica, como a hist\u00f3ria, n\u00e3o perdoa quem insiste em repetir f\u00f3rmulas esgotadas.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Chile recebeu presidentes progressistas, entre eles o espanhol Pedro S\u00e1nchez, sob o lema Democracia Sempre. Isso \u00e9 coerente com o que ocorre internamente em cada pa\u00eds?<\/p>\n","protected":false},"author":292,"featured_media":49671,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,16708],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-49687","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-politica-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49687","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/292"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49687"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49687\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49671"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49687"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49687"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49687"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=49687"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}