{"id":497,"date":"2019-08-08T08:01:18","date_gmt":"2019-08-08T11:01:18","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=497"},"modified":"2023-01-18T21:24:24","modified_gmt":"2023-01-19T00:24:24","slug":"a-politica-externa-brasileira-no-diva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-politica-externa-brasileira-no-diva\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica externa do Brasil no div\u00e3"},"content":{"rendered":"\n<p>Na psican\u00e1lise, o div\u00e3 serve para que o paciente pense sua\nidentidade, trabalhe as imagens que deseja projetar, mude os pap\u00e9is que quer\ndesempenhar no mundo e amadure\u00e7a como pessoa adulta. O sof\u00e1 conecta o eu do\npaciente e, da psican\u00e1lise aos assuntos internacionais, serve para compreender\na identidade e os pap\u00e9is que a pessoa desempenha nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas,\necon\u00f4micas, socioculturais e geoestrat\u00e9gicas mundiais. Este n\u00e3o \u00e9 um artigo te\u00f3rico,\nmas uma tentativa de me concentrar na conjuntura cr\u00edtica que um paciente\nespec\u00edfico vive: o Brasil. Mesmo assim, devo declarar que me baseio\nprincipalmente na suposi\u00e7\u00e3o de que as elites t\u00eam um papel essencial no pensar\nsobre esse paciente que \u00e9 o Estado e sua pol\u00edtica externa. E essas elites como\nconstituintes do sujeito podem orientar sua a\u00e7\u00e3o na dire\u00e7\u00e3o de uma vida adulta\nde relativa autonomia, ou em lugar disso a uma rela\u00e7\u00e3o infantilizada de\ndepend\u00eancia para com um tutor perene. Por isso, a constru\u00e7\u00e3o de consensos entre\nos membros da elite \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o fundamental para a proje\u00e7\u00e3o de poder\ninternacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual foi a imagem do Brasil nos \u00faltimos anos e como ela\nmudou desde o julgamento pol\u00edtico de Dilma Rousseff? Sob os governos do Partido\ndos Trabalhadores (PT), o Brasil liderou a cria\u00e7\u00e3o de novas institui\u00e7\u00f5es de\nintegra\u00e7\u00e3o regional, defendeu as rela\u00e7\u00f5es sul-sul, fomentou iniciativas\nmultilaterais e coaliz\u00f5es internacionais como o F\u00f3rum IBSA e o grupo BRICS,\nassim como as confer\u00eancias de c\u00fapula entre a \u00c1frica e a Am\u00e9rica do Sul e entre\nos pa\u00edses \u00e1rabes e a Am\u00e9rica do Sul.<\/p>\n\n\n\n<p>A identidade que o Brasil projetava se baseava em tr\u00eas\npilares: o foco na Am\u00e9rica do Sul, sem descuidar da solidariedade para com\noutros pa\u00edses em desenvolvimento; o bom desempenho econ\u00f4mico e uma ambi\u00e7\u00e3o\npol\u00edtica de se adaptar \u00e0 governan\u00e7a mundial; e a constru\u00e7\u00e3o de uma\ndemocracia&nbsp; relacionada \u00e0 inclus\u00e3o\nsocial e reconhecimento dos direitos das minorias. Uma social-democracia do sul,\nconsagrada aos princ\u00edpios da constitui\u00e7\u00e3o de 1988. No que tange \u00e0 pol\u00edtica\nexterna, o Brasil desempenhou papel chave na conex\u00e3o da pol\u00edtica interna com a\nambi\u00e7\u00e3o de se inserir no contexto mundial, no qual sua imagem se beneficiou\ngra\u00e7as a melhoras sociais, pol\u00edticas, institucionais e econ\u00f4micas.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando o vice-presidente <a href=\"http:\/\/www.biblioteca.presidencia.gov.br\/presidencia\/ex-presidentes\/michel-temer\/biografia-1\/biografia\">Michel Temer<\/a> assumiu, depois de um controvertido impeachment de Rousseff, a identidade do pa\u00eds come\u00e7ou a mudar. O novo minist\u00e9rio foi o primeiro totalmente branco, rico e masculino desde a redemocratiza\u00e7\u00e3o. As prioridades da pol\u00edtica externa se concentraram em novos acordos comerciais bilaterais, no realinhamento do Brasil com o Ocidente (Estados Unidos e Europa), na abertura do Mercosul e no isolamento da Venezuela. A oitava confer\u00eancia de c\u00fapula do grupo BRICS terminou sem resultados relevantes para o Brasil. Na ONU, o pa\u00eds ratificou o Acordo de Paris em 2016 e o Pacto Mundial sobre Migra\u00e7\u00e3o em 2018; ainda assim, ao solicitar admiss\u00e3o pela Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), o Brasil se desviou da solidariedade sul-sul e do multilateralismo internacionalista que mantinha anteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante o governo Temer, muitas das decis\u00f5es foram\nprejudicadas pela instabilidade pol\u00edtica, esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o\nininterruptos, baixos \u00edndices de crescimento, alta do desemprego, tens\u00f5es\ninterestatais, a pris\u00e3o de Lula e o ressurgimento da viol\u00eancia no campo e nas\ncidades, que caracterizaram a crise institucional e pol\u00edtica do pa\u00eds sob o\ngoverno dele.<\/p>\n\n\n\n<p>Em outubro de 2018, o candidato de extrema direita venceu as elei\u00e7\u00f5es. Paradoxalmente, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/br\/o-perigo-dos-outsiders\/\">Jair Bolsonaro<\/a> se apresentou como pol\u00edtico antissistema na tentativa de se distanciar da pol\u00edtica tradicional, apesar de sua longa carreira pol\u00edtica. Sua campanha mobilizou as redes sociais de maneira inovadora e explorou o uso intenso de not\u00edcias falsas. Mas na por\u00e7\u00e3o j\u00e1 decorrida de seu mandato surgiram tens\u00f5es dentro da coaliz\u00e3o formada por militares, segmentos do sistema judicial, igrejas neopentecostais e extremistas de direita. Estes defenderam prioridades estrat\u00e9gicas divergentes no desenvolvimento da infraestrutura, integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, previd\u00eancia social e reforma das aposentadorias, pol\u00edtica externa, transpar\u00eancia e pol\u00edticas de combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, foram implementadas formalmente pol\u00edticas de conservadorismo moral a fim de recuperar o senso de autoridade pol\u00edtica, para limpar a esfera p\u00fablica dentro de uma narrativa que tende a solapar os direitos das minorias e a vis\u00e3o pluralista da democracia. Os advers\u00e1rios pol\u00edticos (especialmente os esquerdistas e intelectuais) s\u00e3o representados como o inimigo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p>Como se pode interpretar uma transforma\u00e7\u00e3o t\u00e3o profunda da pol\u00edtica externa?&#8221;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p>Como se pode interpretar uma transforma\u00e7\u00e3o t\u00e3o profunda da\npol\u00edtica externa? Hoje em dia, a identidade internacional do Brasil e os pap\u00e9is\nprojetados nos assuntos internacionais podem estar sofrendo uma mudan\u00e7a radical\nque os afasta do que foi uma democracia participativa. Com base na \u00eanfase em\numa pol\u00edtica externa que rompe com o conceito de inser\u00e7\u00e3o internacional\naut\u00f4noma, at\u00e9 agora o governo representou a continuidade do golpe institucional\nde 2016 e intensificou o retorno dos militares a posi\u00e7\u00f5es chave na\nadministra\u00e7\u00e3o; o alinhamento com Washington e outros governos de direita na\nCol\u00f4mbia, Hungria, Israel e It\u00e1lia; o abandono de uma pol\u00edtica externa aut\u00f4noma\nna Am\u00e9rica do Sul; a op\u00e7\u00e3o por narrativas religiosas e mitol\u00f3gicas para\ninterpretar os problemas internacionais contempor\u00e2neos como a mudan\u00e7a do clima,\na migra\u00e7\u00e3o, a interven\u00e7\u00e3o militar e o papel da ONU; e a constru\u00e7\u00e3o de um regime\ndemocr\u00e1tico somente nas telas dos televisores. <\/p>\n\n\n\n<p>Para compreender essa mudan\u00e7a, introduzi o conceito de\n&#8220;dilema de gradua\u00e7\u00e3o&#8221;. (Carlos R. S. Milani, Leticia Pinheiro e Maria\nRegina Soares de Lima, 2017). As pot\u00eancias de segundo n\u00edvel e n\u00e3o nucleares\n(como o Brasil) enfrentam um dilema a cada vez que suas elites t\u00eam que escolher\nentre um desenvolvimento aut\u00f4nomo ou dependente; em termos de seguran\u00e7a, entre\nades\u00e3o autom\u00e1tica e balan\u00e7o; quando se cria uma pol\u00edtica multilateral, entre\nalian\u00e7as tradicionais e coaliz\u00f5es inovadoras e flex\u00edveis (como o F\u00f3rum IBSA e o\ngrupo BRICS); em termos geopol\u00edticos e no campo da coopera\u00e7\u00e3o para o\ndesenvolvimento, entre a \u00eanfase em norte-sul ou as rela\u00e7\u00f5es sul-sul. Para isso,\n\u00e9 preciso assumir vari\u00e1veis como as percep\u00e7\u00f5es, interpreta\u00e7\u00f5es e enquadramentos\ndo internacional por parte das elites, que n\u00e3o necessariamente convergem com os\npap\u00e9is nacionais e ambi\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>A coes\u00e3o entre governo e elites (grupos empresariais,\nsindicatos, meios de comunica\u00e7\u00e3o, a academia e os movimentos sociais) \u00e9\ncondi\u00e7\u00e3o sine qua non para um processo de gradua\u00e7\u00e3o bem sucedido. Uma das\ngrandes falhas dos governos do PT foi descuidar dessa dimens\u00e3o. Por exemplo, o\nBrasil deveria insistir no relacionamento sul-sul e em uma ordem mundial\nmultipolar (anos PT), ou apostar em uma aproxima\u00e7\u00e3o com o Ocidente sob a\nhegemonia dos Estados Unidos (pol\u00edtica atual)? A opini\u00e3o p\u00fablica geral e a\nmaioria das elites tendem a&nbsp;\nfavorecer mais a segunda op\u00e7\u00e3o. Por que o Brasil deveria cooperar com o\nHaiti e a Guin\u00e9-Bissau quando ainda h\u00e1 tantas necessidades em n\u00edvel nacional?\nQuais s\u00e3o os benef\u00edcios de uma pol\u00edtica externa de solidariedade sul-sul?<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o surgimento da rep\u00fablica, em 1889, os brasileiro\nest\u00e3o expostos a uma tradi\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e a uma pol\u00edtica externa centrada na\ncoopera\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses ocidentais. Depois do final da Segunda Guerra Mundial,\na democracia prosperou at\u00e9 que, em 1964, foi interrompida por um golpe militar.\nTanto em 1964 quanto em 2016, as elites puseram em risco a democracia para\nevitar lidar com reformas estruturais, pol\u00edticas sociais e os n\u00edveis dram\u00e1ticos\nde desigualdade. Vincular as vari\u00e1veis dom\u00e9sticas aos desafios regionais e\nmundiais \u00e9 uma ferramenta anal\u00edtica chave para abordar o &#8220;dilema da\ngradua\u00e7\u00e3o&#8221; como uma contribui\u00e7\u00e3o conceitual para compreender o que o\nBrasil est\u00e1 passando.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o dilema da gradua\u00e7\u00e3o e o div\u00e3? O\ngolpe vem sendo historicamente a alternativa escolhida pelas elites para evitar\nos dilemas que o sof\u00e1 pode provocar na gradua\u00e7\u00e3o do paciente. O dilema no caso\ndo Brasil est\u00e1 vinculado a uma crise de identidade e parece que as elites temem\nos poss\u00edveis efeitos transformadores do sof\u00e1. Quando os brasileiros branco se\nveem no exterior e algu\u00e9m lhes pergunta sobre sua origem, costumam responder\n&#8220;sou de origem alem\u00e3&#8221;, ou italiana, japonesa, eslava, espanhola ou\nportuguesa. Essa \u00e9 uma das marcas da identidade brasileira, ainda que\ngeneticamente quase todos sejam africanos ou amer\u00edndios.<\/p>\n\n\n\n<p>Outra autoimagem reconstru\u00edda atrav\u00e9s do sof\u00e1 implicaria\naceitar o Brasil como na\u00e7\u00e3o &#8220;arco-\u00edris&#8221;, e assim renunciar ao poder\nque nega o pluralismo na sociedade. Ainda assim, o cen\u00e1rio atual mostra que a\nriqueza hist\u00f3rica, cultural e religiosa de s\u00e9culos de forma\u00e7\u00e3o nacional deve\ndar lugar a um projeto neoconservador cuja viabilidade depender\u00e1 tanto de apoio\nnacional quanto de apoio internacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante da rejei\u00e7\u00e3o a enfrentar os desafio do sof\u00e1, um\ncen\u00e1rio poss\u00edvel seria a necessidade de o Brasil redefinir sua participa\u00e7\u00e3o no\ngrupo BRICS. O Brasil vai se retirar do BRICS ao suspender sua participa\u00e7\u00e3o na\nUnasur? Alguns ministros de Bolsonaro j\u00e1 declararam que o BRICS deve se\ndistanciar da geopol\u00edtica e se concentrar no investimento e com\u00e9rcio, mas como\nisso afetar\u00e1 o grupo? Como China e R\u00fassia avaliar\u00e3o essa mudan\u00e7a? Outro cen\u00e1rio\nseria&nbsp; mudar o BRICS. Se o Brasil\nj\u00e1 n\u00e3o se encaixa, a Turquia poderia transformar o BRICS em TRICS? No futuro\npr\u00f3ximo, veremos se finalmente se confirmam essas transforma\u00e7\u00f5es na geopol\u00edtica\ne na economia pol\u00edtica do planeta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na psican\u00e1lise, o div\u00e3 serve para que o paciente pense sua identidade, trabalhe as imagens que deseja projetar, mude os pap\u00e9is que quer desempenhar e amadure\u00e7a como pessoa adulta. 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