{"id":49950,"date":"2025-08-11T09:00:00","date_gmt":"2025-08-11T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=49950"},"modified":"2025-08-11T10:07:53","modified_gmt":"2025-08-11T13:07:53","slug":"estado-falido-o-rotulo-que-encobre-a-crise-no-haiti-e-sustenta-a-logica-da-intervencao-internacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/estado-falido-o-rotulo-que-encobre-a-crise-no-haiti-e-sustenta-a-logica-da-intervencao-internacional\/","title":{"rendered":"\u201cEstado falido\u201d: o r\u00f3tulo que encobre a crise no Haiti e sustenta a l\u00f3gica da interven\u00e7\u00e3o internacional"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 6 de janeiro de 2025, os jornalistas David Adams e Frances Robles publicaram no <em>New York Times<\/em> a reportagem \u201cMassacre Ap\u00f3s Massacre: A Sombria Espiral do Haiti em Dire\u00e7\u00e3o a um Estado Falido\u201d (<em>Massacre Upon Massacre: Haiti\u2019s Bleak Spiral Into a Failed State<\/em>). A mat\u00e9ria trazia \u00e0 tona o colapso da seguran\u00e7a p\u00fablica no pa\u00eds, escancarando a fragilidade institucional haitiana diante do avan\u00e7o das gangues e a incapacidade do governo local de responder \u00e0 crise. Meses depois, em 25 de junho, Robles voltou ao tema em \u201cUm Ano Ap\u00f3s a Chegada de uma For\u00e7a Internacional, o Haiti N\u00e3o Est\u00e1 Mais Perto da Paz\u201d (<em>A Year After an International Force Landed, Haiti Is No Closer to Peace<\/em>), defendendo uma atua\u00e7\u00e3o mais incisiva da comunidade internacional no pa\u00eds, especialmente por parte dos Estados Unidos \u2013 principal financiador da \u00faltima miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas no Haiti (<em>Multinational Security Support<\/em> &#8211; MSS).<\/p>\n\n\n\n<p>Para al\u00e9m dos dados e an\u00e1lises sobre a viol\u00eancia que assola a popula\u00e7\u00e3o haitiana, uma express\u00e3o recorrente chama a aten\u00e7\u00e3o: &#8216;Estado falido&#8217;. Mais do que um diagn\u00f3stico t\u00e9cnico, o termo carrega uma carga pol\u00edtica, simb\u00f3lica e hist\u00f3rica significativa. Esta express\u00e3o tem sido amplamente empregada por autoridades, acad\u00eamicos e ve\u00edculos de m\u00eddia dos Estados Unidos (e de outros pa\u00edses) para descrever a situa\u00e7\u00e3o no Haiti. Seu uso frequente contribui para consolidar uma vis\u00e3o espec\u00edfica do Haiti como incapaz de se autogovernar, o que, por sua vez, legitima a\u00e7\u00f5es externas com pretensa justificativa humanit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>A ex-embaixadora dos Estados Unidos no Haiti, Pamela White, declarou em 2022, durante audi\u00eancia no Comit\u00ea de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores da C\u00e2mara dos Deputados, que \u201co Haiti \u00e9 um Estado falido\u201d e defendeu uma interven\u00e7\u00e3o militar imediata: <em>\u201c<\/em>O que \u00e9 necess\u00e1rio AGORA n\u00e3o \u00e9 um plano complicado de cinco anos, mas tropas em solo, AGORA<em>\u201d<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa l\u00f3gica tamb\u00e9m est\u00e1 presente em recentes publica\u00e7\u00f5es vinculadas a universidades, como o artigo \u201cO Haiti est\u00e1 perto de se tornar um Estado falido\u201d (<em>Haiti is close to becoming a failed state<\/em>), publicado no <em>News@TheU<\/em>, da Universidade de Miami (2024), assim como em importantes centros de pesquisa, incluindo os textos \u201cO Haiti \u00e9 um Estado em fal\u00eancia?\u201d (<em>Is Haiti a Failing State?<\/em>), do <em>Center for Strategic and International Studies<\/em> (2019), e \u201cPergunte aos Especialistas: O que impulsiona a fragilidade do Haiti?\u201d (<em>Ask the Experts: What Drives Haiti\u2019s Fragility?<\/em>), do <em>United States Institute of Peace<\/em> (2022).<\/p>\n\n\n\n<p>Esses exemplos demonstram que estamos diante de uma narrativa estruturada, n\u00e3o de exce\u00e7\u00f5es. Apesar das cr\u00edticas constantes ao uso do termo \u201cEstado falido\u201d ap\u00f3s os efeitos da Guerra ao Terror \u2013 que motivaram, por exemplo, a mudan\u00e7a de nome do question\u00e1vel \u00edndice elaborado pelo <em>Fund for Peace<\/em>, que passou de <em>Failed States Index<\/em> para <em>Fragile States Index<\/em> em 2014 \u2013 a express\u00e3o continua sendo empregada em discursos pol\u00edticos, acad\u00eamicos e midi\u00e1ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa narrativa atua em m\u00faltiplas frentes: simplifica a crise haitiana, obscurece suas ra\u00edzes hist\u00f3ricas e promove solu\u00e7\u00f5es externas como as \u00fanicas vi\u00e1veis. Longe de ser neutra ou meramente descritiva, ela se apoia em uma hierarquia epist\u00eamica global que privilegia modelos ocidentais de Estado, deslegitimando formas locais de organiza\u00e7\u00e3o e resist\u00eancia. Assim, constr\u00f3i-se uma imagem racializada, retratando o pa\u00eds como ingovern\u00e1vel, violento e dependente \u2013 refor\u00e7ando, dessa forma, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/haiti-20-anos-depois-a-comunidade-internacional-parece-seguir-o-mesmo-caminho-que-levou-o-pais-a-tragedia-atual\/\">a l\u00f3gica da interven\u00e7\u00e3o e do controle externo<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Haiti foi a primeira rep\u00fablica negra do mundo, forjada por uma revolu\u00e7\u00e3o antiescravista vitoriosa em 1804, que derrotou o ex\u00e9rcito de Napole\u00e3o e desafiou o sistema colonial vigente. Desde ent\u00e3o, a hist\u00f3ria haitiana tem sido marcada n\u00e3o apenas por instabilidade interna, mas por interfer\u00eancias internacionais recorrentes, puni\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, ocupa\u00e7\u00f5es militares e imposi\u00e7\u00f5es de modelos de governan\u00e7a incompat\u00edveis com sua realidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Ignorar esse contexto hist\u00f3rico \u00e9 parte do problema. Ao insistir na categoria de \u201cEstado falido\u201d, o discurso internacional desconsidera as causas estruturais da crise haitiana \u2013 como a explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica prolongada, o peso da d\u00edvida hist\u00f3rica, as san\u00e7\u00f5es comerciais, a fragiliza\u00e7\u00e3o deliberada das institui\u00e7\u00f5es nacionais e os repetidos fracassos de interven\u00e7\u00f5es estrangeiras. Pior ainda, esse discurso justifica a repeti\u00e7\u00e3o das mesmas solu\u00e7\u00f5es que j\u00e1 se mostraram ineficazes, ao apresentar a fal\u00eancia como uma caracter\u00edstica intr\u00ednseca do Haiti, e n\u00e3o como um produto de processos hist\u00f3ricos e pol\u00edticos amplos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ret\u00f3rica ainda funciona como instrumento de invisibiliza\u00e7\u00e3o de formas alternativas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no pa\u00eds. Iniciativas locais de autogest\u00e3o, resist\u00eancia comunit\u00e1ria e soberania popular s\u00e3o frequentemente apagadas ou deslegitimadas, pois n\u00e3o se enquadram nos moldes liberais ocidentais. Com isso, refor\u00e7a-se a ideia de que os haitianos s\u00e3o incapazes de se autogovernar, reeditando discursos civilizat\u00f3rios do s\u00e9culo XIX sob uma roupagem supostamente t\u00e9cnica.<\/p>\n\n\n\n<p>A seletividade desse discurso tamb\u00e9m \u00e9 gritante. Pa\u00edses do Norte Global que enfrentam crises institucionais graves, eros\u00e3o democr\u00e1tica ou colapsos sociais raramente s\u00e3o rotulados como \u201cEstados falidos\u201d. O uso do termo se concentra de forma desproporcional em pa\u00edses do Sul Global, especialmente na \u00c1frica e no Caribe, revelando seu car\u00e1ter racializado e geopol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a aproxima\u00e7\u00e3o do fim do mandato da atual miss\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas no Haiti (MSS) \u2013 previsto para outubro de 2025, incluindo o encerramento do financiamento internacional j\u00e1 em setembro \u2013 torna-se urgente refletir sobre quais discursos est\u00e3o sendo mobilizados para sustentar a continuidade ou a retirada das interven\u00e7\u00f5es externas. Ao inv\u00e9s de aprofundar a escuta sobre solu\u00e7\u00f5es lideradas pelos haitianos, renova-se a ret\u00f3rica da incapacidade como estrat\u00e9gia de legitima\u00e7\u00e3o da inger\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Problematizar o uso do termo \u201cEstado falido\u201d \u00e9, portanto, mais do que uma disputa sem\u00e2ntica. Trata-se de uma batalha por narrativas que envolve reconhecimento pol\u00edtico. Questionar esse enquadramento abre espa\u00e7o para an\u00e1lises mais justas, informadas e sens\u00edveis \u00e0 complexidade do contexto haitiano. Significa tamb\u00e9m desafiar as suposi\u00e7\u00f5es universalizantes sobre o que \u00e9 um Estado funcional, quem define isso e com base em quais interesses.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa mudan\u00e7a de perspectiva exige coragem pol\u00edtica e responsabilidade intelectual, tanto da comunidade pol\u00edtica internacional quanto da academia. \u00c9 preciso reconhecer o papel que esses atores desempenham na reprodu\u00e7\u00e3o de desigualdades globais e na manuten\u00e7\u00e3o de sistemas que silenciam vozes perif\u00e9ricas.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00f3 assim ser\u00e1 poss\u00edvel caminhar rumo a formas mais respeitosas e horizontais de engajamento com o Haiti, que reconhe\u00e7am sua hist\u00f3ria de luta, suas formas pr\u00f3prias de organiza\u00e7\u00e3o e sua capacidade de protagonismo pol\u00edtico. O futuro do pa\u00eds n\u00e3o ser\u00e1 constru\u00eddo com base em estigmas e interven\u00e7\u00f5es impostas, mas sim com di\u00e1logo, justi\u00e7a hist\u00f3rica e soberania respeitada.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Uma s\u00e9rie de oito artigos sobre o Haiti em colabora\u00e7\u00e3o com o Grupo de Pesquisa Haiti: Descoloniza\u00e7\u00e3o e Liberta\u00e7\u00e3o \u2013 Estudos Contempor\u00e2neos e Cr\u00edticos, dirigido pela UNILA. O grupo publicou recentemente o livro: &#8220;<\/sub><\/em><a href=\"https:\/\/pedroejoaoeditores.com.br\/produto\/haiti-na-encruzilhada-dos-tempos-atuais-descolonialidade-anticapitalismo-e-antirracismo\/\"><sub><em>Haiti na Encruzilhada dos Tempos Atuais: Descolonialidade, Anticapitalismo e Antirracismo<\/em><\/sub><\/a><em><sub>&#8220;.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na narrativa internacional sobre o Haiti, a crise atual se apresenta como inevit\u00e1vel, ocultando suas ra\u00edzes hist\u00f3ricas e refor\u00e7ando a l\u00f3gica da interven\u00e7\u00e3o externa.<\/p>\n","protected":false},"author":698,"featured_media":49932,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16946,16762],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-49950","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-haiti-es-pt-br","8":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49950","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/698"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49950"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49950\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49932"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49950"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49950"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49950"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=49950"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}