{"id":50287,"date":"2025-08-29T09:00:00","date_gmt":"2025-08-29T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=50287"},"modified":"2025-08-28T10:45:14","modified_gmt":"2025-08-28T13:45:14","slug":"o-nacionalismo-como-ultimo-refugio-de-mau-governo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-nacionalismo-como-ultimo-refugio-de-mau-governo\/","title":{"rendered":"O nacionalismo como \u00faltimo refugio de mau governo"},"content":{"rendered":"\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, os mapas s\u00e3o redesenhados mais rapidamente nos discursos de campanha do que nos escrit\u00f3rios de Chancelaria. A ilha de Santa Rosa, hoje centro de tens\u00e3o entre Peru e Col\u00f4mbia, \u00e9 apenas o \u00faltimo cap\u00edtulo de uma velha receita regional: quando a estabilidade interna est\u00e1 em risco, h\u00e1 sempre um peda\u00e7o de terra \u00e0 m\u00e3o para agitar o nacionalismo. Aqui, a diplomacia costuma dar lugar \u00e0 orat\u00f3ria patri\u00f3tica e a soberania se torna combust\u00edvel pol\u00edtico que queima com mais for\u00e7a em tempos de pesquisas adversas.<\/p>\n\n\n\n<p>O presidente colombiano, Gustavo Petro, \u00e9 o novo protagonista dessa hist\u00f3ria de instiga\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. O confronto eclodiu quando, em 7 de agosto, ele reivindicou como sua a referida ilha, localizada na tr\u00edplice fronteira entre seu pa\u00eds, Peru e Brasil, no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, em protesto contra o fato de que, em 3 de julho, o Congresso peruano criou ali, atrav\u00e9s de uma lei, o distrito de Santa Rosa de Loreto como parte de seu territ\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p>A ilha onde est\u00e1 localizado este distrito surgiu por volta de 1970 devido a um processo natural de fragmenta\u00e7\u00e3o da parte sul da ilha peruana de Chiner\u00eda. A leste, faz fronteira com as cidades de Leticia (Col\u00f4mbia) e Tabatinga (Brasil). L\u00e1 vivem exclusivamente habitantes peruanos, que somam aproximadamente 1.800 pessoas, que t\u00eam documento de identidade e usufruem dos servi\u00e7os p\u00fablicos do Estado peruano.<\/p>\n\n\n\n<p>O Peru garante que tratados internacionais como o do Rio de Janeiro de 1934 o respaldam e que a narrativa de Petro se deve ao desconhecimento, embora, na verdade, ao reivindicar a ilha como sua, Petro tente desviar a aten\u00e7\u00e3o e encobrir os esc\u00e2ndalos internos que o cercam, como o caso de corrup\u00e7\u00e3o na compra de caminh\u00f5es-tanque com sobrecustos e o desvio de recursos para supostamente subornar congressistas em troca de apoio \u00e0s suas reformas sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>A justi\u00e7a tamb\u00e9m investiga o aparente financiamento il\u00edcito de sua campanha presidencial, na qual se presume que houve doa\u00e7\u00f5es de narcotraficantes a favor de seu filho Nicol\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<p>Com tudo isso, em junho de 2025, a desaprova\u00e7\u00e3o de Petro atingiu seu ponto mais alto e, embora tenha tido uma recupera\u00e7\u00e3o moderada em agosto, a rejei\u00e7\u00e3o continua significativamente acima do apoio. 89% dos colombianos questionam a crise de inseguran\u00e7a cidad\u00e3 que, segundo eles, piorou durante seu mandato, e a convoca\u00e7\u00e3o unilateral de consultas populares, como a da reforma trabalhista. Tamb\u00e9m n\u00e3o houve melhorias na sa\u00fade, o que faz com que o governo seja visto como pouco eficaz, e a explora\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica foi restringida, o que afeta as expectativas de crescimento econ\u00f4mico.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses epis\u00f3dios afetaram fortemente sua credibilidade e o levaram a buscar uma narrativa que lhe devolvesse o protagonismo e coesionasse seu basti\u00e3o eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p>Petro est\u00e1 usando o tema politicamente? Claramente sim, ele est\u00e1 fazendo isso. Ele transferiu a comemora\u00e7\u00e3o da Batalha de Boyac\u00e1 para Leticia para evitar um protesto de mineiros que estava lhe custando capital social. Ele apelou para a defesa da soberania e n\u00e3o descartou recorrer a tribunais internacionais se o diferendo com o Peru n\u00e3o for resolvido por vias diplom\u00e1ticas. Uma encena\u00e7\u00e3o em que cada declara\u00e7\u00e3o altissonante adquire um tom \u00e9pico.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, a sociedade peruana est\u00e1 convencida de que o presidente colombiano usa o tema como uma cortina de fuma\u00e7a. A manobra chega justamente quando sua coaliz\u00e3o, o Pacto Hist\u00f3rico, precisa se posicionar para as elei\u00e7\u00f5es presidenciais de maio de 2026. E, como em tantas outras hist\u00f3rias latino-americanas, o verdadeiro campo de batalha n\u00e3o est\u00e1 no territ\u00f3rio em disputa, mas na opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Basta olhar para o conflito entre a Venezuela e a Guiana pelo Esequibo, que sempre se reacende especialmente em momentos de crise econ\u00f4mica, san\u00e7\u00f5es e isolamento diplom\u00e1tico da ditadura de Nicol\u00e1s Maduro. Embora a disputa por esse territ\u00f3rio se arraste desde o s\u00e9culo XIX, Maduro a transformou em um trunfo recorrente sempre que a economia entra em colapso ou os protestos amea\u00e7am incendiar as ruas. Algo cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p>Em dezembro de 2023, o referendo sobre esta regi\u00e3o foi um movimento claro para apelar ao nacionalismo e legitimar o governo antes das elei\u00e7\u00f5es que, seis meses depois, acabou por perder, mas manteve o poder com manobras judiciais denunciadas at\u00e9 hoje. Assim, demonstrou, mais uma vez, que a disputa territorial \u00e9 para o seu regime uma t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o de aparecimento priorit\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p>Este ano, Maduro redobrou a press\u00e3o com planos para instalar uma zona militar especial e conceder licen\u00e7as petrol\u00edferas na \u00e1rea, acompanhadas de manobras militares na fronteira que buscam refor\u00e7ar o discurso anti-imperialista pelo apoio dos Estados Unidos \u00e0 Guiana. Sua atitude confirma que, na Am\u00e9rica Latina, a exalta\u00e7\u00e3o patri\u00f3tica continua sendo o \u00e1libi favorito para desviar o olhar dos problemas e esc\u00e2ndalos internos.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Bol\u00edvia de Evo Morales, aconteceu algo semelhante. Ap\u00f3s anos insistindo na reivindica\u00e7\u00e3o mar\u00edtima contra o Chile, a decis\u00e3o de Haia em 2018 foi completamente desfavor\u00e1vel ao seu pa\u00eds: determinou que o Chile n\u00e3o tinha nenhuma obriga\u00e7\u00e3o jur\u00eddica ou diplom\u00e1tica de negociar uma sa\u00edda soberana para o mar. No entanto, o ex-presidente e seu entorno se agarraram a uma frase do veredicto que indicava que a decis\u00e3o \u201cn\u00e3o impedia\u201d que os dois pa\u00edses conversassem, algo que na verdade apenas aludia \u00e0 possibilidade de di\u00e1logos bilaterais volunt\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos meses, j\u00e1 impedido de se candidatar, Morales pediu para votar nulo nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2025 e voltou a deixar em aberto a possibilidade de retomar a causa mar\u00edtima como bandeira. Em sua ret\u00f3rica, \u00e9 prov\u00e1vel que o tema do mar continue aparecendo como um recurso de agita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A ilha, o mar ou o rio s\u00e3o apenas desculpas: o que realmente est\u00e1 em jogo \u00e9 o poder. O nacionalismo continua sendo o ref\u00fagio preferido daqueles maus governantes que n\u00e3o querem prestar contas por seus fracassos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em tempos de pesquisas adversas, questionar a soberania territorial de um pa\u00eds vizinho \u00e9 o combust\u00edvel perfeito para cuidar da estabilidade interna. Petro segue os passos de Maduro e Evo Morales.<\/p>\n","protected":false},"author":621,"featured_media":50275,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17008,16811],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-50287","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-gustavo-petro-es-pt-br","8":"category-nacionalismo-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50287","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/621"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50287"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50287\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50275"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50287"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50287"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50287"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=50287"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}