{"id":5047,"date":"2021-04-29T07:24:00","date_gmt":"2021-04-29T10:24:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5047"},"modified":"2021-04-30T07:33:53","modified_gmt":"2021-04-30T10:33:53","slug":"por-que-a-vacinacao-por-si-so-nao-e-a-solucao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/por-que-a-vacinacao-por-si-so-nao-e-a-solucao\/","title":{"rendered":"Por que a vacina\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 n\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>A pandemia de Covid-19 nos colocou diante de uma complexidade de desafios cujas urg\u00eancias confrontam o tempo. O tempo da ci\u00eancia, o tempo da gest\u00e3o p\u00fablica, o tempo da gest\u00e3o individual de nossas car\u00eancias e das necessidades mais b\u00e1sicas do nosso cotidiano, inclusive o tempo do nosso imediatismo.<\/p>\n\n\n\n<p>A capacidade de produ\u00e7\u00e3o de uma pol\u00edtica p\u00fablica que se sustente ao longo do tempo depende de diferentes fatores, como coordena\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es, realiza\u00e7\u00e3o de monitoramento das condi\u00e7\u00f5es de vida e impactos das a\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, produ\u00e7\u00e3o de conhecimento e informa\u00e7\u00e3o, constante avalia\u00e7\u00e3o dos resultados e, por fim, <a href=\"http:\/\/comunica.ufu.br\/noticia\/2020\/05\/importancia-da-informacao-e-da-comunicacao-na-pandemia-de-coronavirus-estrategias-da\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma boa comunica\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Sa\u00fade e boa gest\u00e3o da crise sanit\u00e1ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao definirem o que \u00e9 sa\u00fade, e quais s\u00e3o os comportamentos saud\u00e1veis, as pol\u00edticas de sa\u00fade conduzem comportamentos \u2013 um verdadeiro controle dos corpos individuais e coletivos. Produzem uma enxurrada de informa\u00e7\u00f5es, orienta\u00e7\u00f5es e dados \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos indiv\u00edduos (atualmente ao alcance das m\u00e3os nos aplicativos dos celulares) para conduzi-los no cuidado de si e do coletivo. Tudo cuidadosamente calculado, planejado e comunicado.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma gest\u00e3o bem-sucedida de uma crise social e sanit\u00e1ria provocada por uma pandemia, passa necessariamente pela capacidade de comunica\u00e7\u00e3o dos governos, com produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o voltada para o esclarecimento e orienta\u00e7\u00e3o do comportamento das pessoas. Requer objetividade e transmiss\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es precisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio da pandemia de Covid-19, o <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/apos-a-covid-varios-futuros-possiveis\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mundo vem buscando caminhos e alternativas para garantir a normalidade,<\/a> nem que seja sinalizando com a promessa de um \u201cnovo normal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, buscar a normalidade nos impede de pensar em termos de ruptura. Toda crise \u00e9 pot\u00eancia para a transforma\u00e7\u00e3o. Por\u00e9m, a ruptura que motiva a busca de novas formas de a\u00e7\u00e3o, outros par\u00e2metros, novos paradigmas e utopias, tamb\u00e9m nos mergulha em medo, ansiedade e luto. Paralisa, implorando pelo conhecido. Nos prende na gest\u00e3o da urg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A necessidade de dar garantias de normalidade vem conduzindo discursos pol\u00edticos, decis\u00f5es em pol\u00edticas p\u00fablicas, debates na m\u00eddia e as escolhas de cada um de n\u00f3s. Em v\u00e1rios pa\u00edses isso se soma a uma gest\u00e3o p\u00fablica antidemocr\u00e1tica pautada pelos princ\u00edpios neoliberais: a urg\u00eancia do mercado, o apagamento do social, a austeridade fiscal, a manipula\u00e7\u00e3o dos medos individuais e coletivos. Monta-se uma impiedosa armadilha coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p>O Chile \u00e9 o pa\u00eds da Am\u00e9rica Latina que mais avan\u00e7ou na vacina\u00e7\u00e3o de seus cidad\u00e3os contra a Covid-19.&nbsp; Entretanto, no \u00faltimo m\u00eas, ao atingir cerca de 40% de sua popula\u00e7\u00e3o vacinada com a primeira dose, viu o n\u00famero de casos da doen\u00e7a explodir, com um recorde que supera o pior momento de 2020. Especialistas em sa\u00fade p\u00fablica apontam para uma m\u00e1 comunica\u00e7\u00e3o pelo governo de Sebasti\u00e1n Pi\u00f1era.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ao focar na campanha de vacina\u00e7\u00e3o e em seus benef\u00edcios, e ao mesmo tempo relaxar restri\u00e7\u00f5es de circula\u00e7\u00e3o, permitindo a reabertura de escolas e shopping centers, o governo incentivou a retomada da rotina, potencializando a circula\u00e7\u00e3o do v\u00edrus, a prolifera\u00e7\u00e3o de novas cepas e o cont\u00e1gio. Como resultado, viu-se uma explos\u00e3o na contamina\u00e7\u00e3o e nas taxas de ocupa\u00e7\u00e3o de leitos de UTIs, um esgotamento das equipes e profissionais de sa\u00fade, e uma transforma\u00e7\u00e3o no perfil de seus doentes: est\u00e3o cada vez mais jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Se antes os leitos de UTI eram ocupados por idosos e pessoas dos grupos de risco, o v\u00edrus encontrou seu caminho entre os que agora n\u00e3o apresentam resist\u00eancia imunol\u00f3gica: adultos jovens. Apesar do avan\u00e7o da vacina\u00e7\u00e3o nos grupos de risco, a letalidade segue a mesma, pois o v\u00edrus s\u00f3 migrou e se adaptou a um novo grupo. Adicionalmente, por ser mais jovem, este grupo \u00e9 composto por pessoas que passam mais tempo lutando pela vida quando a doen\u00e7a se agrava. Com isso, ocupam os leitos de UTI por um tempo muito maior, mesmo quando acabam evoluindo a \u00f3bito. Em suma, o governo passou o recado errado, e as pessoas ansiosas pela normalidade n\u00e3o pensaram duas vezes para incorpor\u00e1-lo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A situa\u00e7\u00e3o do Brasil para al\u00e9m da vacina\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Vacina tornou-se palavra de ordem no Brasil. Os esfor\u00e7os e a comunica\u00e7\u00e3o dos governos voltaram-se para a vacina\u00e7\u00e3o, que ganha ares de passaporte para o normal. Por\u00e9m, a isso se soma o \u201cabre e fecha\u201d de escolas, com\u00e9rcio, \u00e1reas de lazer, bares e restaurantes. Um dia as atividades ao ar livre est\u00e3o proibidas, na semana seguinte s\u00e3o permitidas apenas individualmente, na outra em grupo. Praias fecham, mas bares e restaurantes abrem ao p\u00fablico. Pa\u00eds afora, o que vemos \u00e9 um vai e vem de recomenda\u00e7\u00f5es disparatadas a partir de l\u00f3gicas locais e fragmentadas, todas voltadas para o esfor\u00e7o de manter a rotina e n\u00e3o desagradar os interesses econ\u00f4micos mais poderosos. E sem qualquer coordena\u00e7\u00e3o centralizada.<\/p>\n\n\n\n<p>Na m\u00eddia, discutem-se quantidade de leitos e aberturas de vagas de UTI como se fossem um recurso infinito, independente de or\u00e7amento ou de recursos humanos. Conforme aumenta a curva de casos, o gestor aumenta o n\u00famero de leitos. A taxa de ocupa\u00e7\u00e3o de leitos \u00e9 um dos principais indicadores adotados para a decreta\u00e7\u00e3o das \u201cfases\u201d que indicam a gravidade da pandemia que cada munic\u00edpio atravessa (ocupa\u00e7\u00e3o de leitos, taxa de casos e mortalidade).<\/p>\n\n\n\n<p>Indicadores que passaram a pautar nosso cotidiano, quando as taxas sobem aumentam as restri\u00e7\u00f5es, quando descem se relaxam as restri\u00e7\u00f5es. Pior, esse vai e vem dos dados e das decis\u00f5es parece nos conferir uma fr\u00e1gil, por\u00e9m necess\u00e1ria sensa\u00e7\u00e3o de previsibilidade e de controle. Afinal, as decis\u00f5es s\u00e3o tomadas com orienta\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas embasadas por monitoramento de dados. E as pessoas entendem o recado: se bares, restaurantes, shoppings, escolas&#8230; est\u00e3o abertos, ent\u00e3o posso frequent\u00e1-los. Uma m\u00edope gest\u00e3o dos riscos voltada para a normaliza\u00e7\u00e3o e ditada pelas urg\u00eancias do mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Estamos diante de decis\u00f5es tomadas a partir de par\u00e2metros \u201cfora do lugar\u201d, orientadas por ideias e valores que n\u00e3o s\u00e3o capazes de dar uma resposta \u00e0 crise que estamos vivendo, estabelecendo uma gest\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas que pode bem ser definida pela imagem do cachorro correndo atr\u00e1s do pr\u00f3prio rabo.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a comunica\u00e7\u00e3o sobre os riscos da Covid-19 e as orienta\u00e7\u00f5es de preven\u00e7\u00e3o e de comportamento para evitar transmiss\u00e3o e cont\u00e1gio n\u00e3o forem claras, e prevalecerem as a\u00e7\u00f5es voltadas para o retorno a uma \u201cvida normal\u201d que nunca vir\u00e1, a gest\u00e3o p\u00fablica se resumir\u00e1 \u00e0 gest\u00e3o das urg\u00eancias impostas pela fila da morte nos leitos hospitalares \u2013 de escalada imprevis\u00edvel diante de recursos finitos. Um dia precisaremos de leitos, no outro de oxig\u00eanio, depois de sedativos, e amanh\u00e3 de um incremento na produ\u00e7\u00e3o de caix\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00a0Para al\u00e9m do risco da normaliza\u00e7\u00e3o da escalada da morte, p\u00f5e-se em jogo a credibilidade da vacina\u00e7\u00e3o. A armadilha est\u00e1 em fazer crer que a vacina \u00e9 a grande sa\u00edda para uma crise que requer muito mais do que a\u00e7\u00f5es e esfor\u00e7os realizados a partir de uma l\u00f3gica de urg\u00eancia. A vacina \u00e9 somente parte da solu\u00e7\u00e3o. Deveria ser acompanhada por medidas de distanciamento, um longo per\u00edodo de isolamento social, utiliza\u00e7\u00e3o de m\u00e1scaras, testagem em massa e monitoramento dos doentes. Acima de tudo, pela aceita\u00e7\u00e3o de que houve uma ruptura definitiva com a vida que viv\u00edamos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Luis Zafra no Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A gest\u00e3o bem sucedida de uma crise social e sanit\u00e1ria depende necessariamente da capacidade de comunica\u00e7\u00e3o dos governos e da produ\u00e7\u00e3o e dissemina\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es destinadas a esclarecer e orientar o comportamento da popula\u00e7\u00e3o. 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