{"id":50948,"date":"2025-09-15T15:00:00","date_gmt":"2025-09-15T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=50948"},"modified":"2025-09-16T09:59:00","modified_gmt":"2025-09-16T12:59:00","slug":"renovar-a-democracia-de-promessas-nao-cumpridas-a-um-desenvolvimento-humano-resiliente","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/renovar-a-democracia-de-promessas-nao-cumpridas-a-um-desenvolvimento-humano-resiliente\/","title":{"rendered":"Renovar a democracia: de promessas n\u00e3o-cumpridas a um desenvolvimento humano resiliente"},"content":{"rendered":"\n<p>A democracia \u00e9 a \u00fanica forma de governo que se baseia no ideal da igualdade pol\u00edtica e no respeito pelas liberdades individuais e coletivas. Essa caracter\u00edstica a torna mais do que um sistema pol\u00edtico: a democracia \u00e9 uma condi\u00e7\u00e3o essencial para o desenvolvimento humano. O economista Amartya Sen nos ensinou que o desenvolvimento n\u00e3o pode ser reduzido ao crescimento econ\u00f4mico ou \u00e0 acumula\u00e7\u00e3o de riqueza. Desenvolver-se significa expandir as capacidades e liberdades reais das pessoas para levar a vida que elas valorizam. Sem democracia, o desenvolvimento \u00e9 fr\u00e1gil e incompleto, pois as pessoas n\u00e3o podem exercer sua influ\u00eancia na constru\u00e7\u00e3o de seu futuro. E sem desenvolvimento para todos, a democracia perde legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p>A democracia oferece espa\u00e7os, processos e mecanismos para a voz, a escolha e a presta\u00e7\u00e3o de contas, elementos essenciais para ampliar oportunidades e liberdades. Quando as pessoas podem influenciar as decis\u00f5es e contribuir para o bem-estar coletivo, aumentam as possibilidades de que o desenvolvimento e a prosperidade sejam acess\u00edveis a todos, bem como as possibilidades e condi\u00e7\u00f5es para uma maior coes\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, na Am\u00e9rica Latina e no Caribe, essas promessas da democracia continuam inconclusas. Embora a regi\u00e3o tenha consolidado institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas nas \u00faltimas d\u00e9cadas, as lacunas nos servi\u00e7os b\u00e1sicos, as desigualdades persistentes e a crescente desinforma\u00e7\u00e3o enfraqueceram a confian\u00e7a dos cidad\u00e3os de que a democracia realmente se traduz em igualdade e mais liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As desigualdades como barreiras estruturais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em teoria, a igualdade pol\u00edtica deve se traduzir em maior igualdade em termos de bem-estar. Mas essa suposi\u00e7\u00e3o se esvazia diante de um contexto de profundas e persistentes lacunas sociais e econ\u00f4micas que dificultam qualquer forma de igualdade.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina e o Caribe continuam sendo uma das regi\u00f5es mais desiguais do mundo: 1% dos mais ricos concentram quase metade da riqueza, enquanto muitas fam\u00edlias em situa\u00e7\u00e3o de pobreza pagam mais impostos indiretos do que recebem em transfer\u00eancias. Enquanto alguns t\u00eam acesso a sistemas de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o compar\u00e1veis aos dos pa\u00edses mais ricos do mundo, outros vivem realidades pr\u00f3ximas \u00e0s dos pa\u00edses mais atrasados em termos de desenvolvimento. Al\u00e9m disso, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o carece de mecanismos para enfrentar um choque moderado sem cair na pobreza, 31% permanecem em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade e as altas taxas de informalidade no trabalho prejudicam a qualidade do emprego, aumentam a exclus\u00e3o e reduzem a mobilidade social.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando as pessoas n\u00e3o t\u00eam acesso \u00e0 sa\u00fade, \u00e0 educa\u00e7\u00e3o ou a um emprego digno, quando o Estado n\u00e3o tem capacidade para proteger os direitos, a democracia deixa de ser um espa\u00e7o de liberdade e se vive de maneira radicalmente diferente dependendo de quem voc\u00ea \u00e9 e onde vive. Para alguns, \u00e9 uma realidade tang\u00edvel; para outros, apenas uma palavra sem conte\u00fado.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a maioria dos cidad\u00e3os da Am\u00e9rica Latina e do Caribe continue considerando a democracia como o melhor sistema de governo, cada vez mais pessoas questionam sua capacidade de resolver problemas essenciais e melhorar suas vidas. 65% da popula\u00e7\u00e3o se declara insatisfeita com o funcionamento da democracia e 41% est\u00e1 aberta a alternativas autorit\u00e1rias, o que \u00e9 preocupante. Isso deve nos alarmar, mas tamb\u00e9m nos mobilizar: para que a democracia possa cumprir seu potencial como ve\u00edculo de desenvolvimento humano, \u00e9 imperativo abordar as desigualdades estruturais.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Desinforma\u00e7\u00e3o acelerada: uma amea\u00e7a com novas ferramentas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A essas lacunas se soma outro desafio: a desinforma\u00e7\u00e3o. Embora n\u00e3o seja um fen\u00f4meno novo \u2014 a manipula\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o sempre existiu \u2014, hoje a desinforma\u00e7\u00e3o circula em um ecossistema digital de alta velocidade dominado por algoritmos que priorizam o sensacionalismo em detrimento da veracidade. Not\u00edcias falsas, campanhas de desacredita\u00e7\u00e3o e ataques sistem\u00e1ticos \u00e0s autoridades eleitorais corroem a confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es. Em \u00e9pocas eleitorais, essas din\u00e2micas distorcem a delibera\u00e7\u00e3o p\u00fablica e minam a possibilidade de os cidad\u00e3os exercerem suas liberdades de maneira informada.<\/p>\n\n\n\n<p>A perigosa combina\u00e7\u00e3o de desigualdades estruturais, desinforma\u00e7\u00e3o acelerada e mal-estar emocional est\u00e1 gerando d\u00favidas cada vez mais generalizadas sobre a capacidade das democracias de cumprir o que prometem. E n\u00e3o se trata de uma percep\u00e7\u00e3o isolada, mas sim de dados comprovados: entre 2000 e 2024, o apoio \u00e0 democracia na regi\u00e3o caiu de 60% para 52%. Isso significa que milh\u00f5es de cidad\u00e3os e cidad\u00e3s j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o convencidos de que este seja um sistema que lhes proporcione bem-estar, proteja a todos e garanta liberdades.<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo diante desse desencanto, a voca\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica continua viva. A Am\u00e9rica Latina e o Caribe continuam sendo a regi\u00e3o em desenvolvimento mais democr\u00e1tica do mundo. E isso n\u00e3o \u00e9 pouca coisa, nem pode ser dado como certo.<\/p>\n\n\n\n<p>O paradoxo \u00e9 claro: enquanto a regi\u00e3o continua sendo a mais democr\u00e1tica do mundo em desenvolvimento, a insatisfa\u00e7\u00e3o com seu funcionamento cresce e amea\u00e7a sua legitimidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Corrigir a promessa democr\u00e1tica<\/p>\n\n\n\n<p>Uma democracia tamb\u00e9m \u00e9 reconhecida por sua capacidade de ser questionada, de ouvir uma cidadania cr\u00edtica e de se renovar para responder aos desafios de seu tempo. Os sinais de mal-estar n\u00e3o s\u00e3o necessariamente uma senten\u00e7a, mas um chamado \u00e0 a\u00e7\u00e3o, que come\u00e7a pelo reconhecimento das falhas e pela firme vontade de retomar o rumo. Uma coisa \u00e9 clara: o que funcionou no passado n\u00e3o ser\u00e1 mais suficiente no futuro, que depende da capacidade de nossas democracias de se adaptarem sem perder sua ess\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>A legitimidade das democracias depender\u00e1 em grande medida de sua capacidade de garantir resultados tang\u00edveis na melhoria da qualidade de vida das pessoas e nas possibilidades de exercer sua ag\u00eancia na constru\u00e7\u00e3o de seu futuro. Corrigir a promessa democr\u00e1tica e recuperar a confian\u00e7a da cidadania s\u00f3 ser\u00e1 poss\u00edvel por meio de seu v\u00ednculo \u00edntimo com o desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas as estrat\u00e9gias de desenvolvimento na regi\u00e3o tamb\u00e9m precisam ser repensadas. O \u00faltimo Relat\u00f3rio Regional sobre Desenvolvimento Humano do PNUD, \u201cS<a href=\"https:\/\/www.undp.org\/es\/latin-america\/informe-regional-sobre-desarrollo-humano-2025\">ob press\u00e3o: recalibrando o futuro do desenvolvimento na Am\u00e9rica Latina e no Caribe<\/a>\u201d, sugere que, em um contexto de incertezas crescentes, crises recorrentes e sobrepostas e transforma\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas, a \u00fanica forma de garantir o desenvolvimento humano de maneira sustent\u00e1vel \u00e9 colocando a resili\u00eancia como eixo central. Prop\u00f5e um desenvolvimento humano resiliente como facilitador da ag\u00eancia e protetor das liberdades efetivas das pessoas, e tamb\u00e9m como um roteiro para o desenvolvimento na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Um guia renovado para o desenvolvimento na regi\u00e3o implica transcender os instrumentos tradicionais de redu\u00e7\u00e3o da pobreza e ampliar a cobertura dos sistemas de prote\u00e7\u00e3o social; garantir a presen\u00e7a do Estado em todas as regi\u00f5es, fortalecendo a governan\u00e7a local e os mecanismos de participa\u00e7\u00e3o cidad\u00e3 para melhorar a cobertura e a efic\u00e1cia institucional; desenvolver uma base digital s\u00f3lida focada na inova\u00e7\u00e3o e na redu\u00e7\u00e3o de desigualdades, tudo com base na efici\u00eancia, inclus\u00e3o e presta\u00e7\u00e3o de contas. Diante dessa mudan\u00e7a de paradigma, a democracia surge como o \u00fanico sistema que, al\u00e9m de representar um valor intr\u00ednseco, representa um meio instrumental e construtivo de desenvolvimento que promete enriquecer a vida dos cidad\u00e3os por meio da liberdade pol\u00edtica e do exerc\u00edcio dos direitos civis e pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe t\u00eam a oportunidade \u2014 se assim o decidirem \u2014 de demonstrar ao mundo que democracia e desenvolvimento n\u00e3o s\u00e3o promessas n\u00e3o cumpridas; s\u00e3o motores insepar\u00e1veis de um futuro compartilhado de prosperidade e liberdade.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No Dia Internacional da Democracia, a Am\u00e9rica Latina enfrenta o desafio de renovar um sistema desgastado pelas desigualdades e pela desinforma\u00e7\u00e3o, mas ainda essencial para um desenvolvimento humano resiliente e equitativo.<\/p>\n","protected":false},"author":759,"featured_media":50893,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,16755],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-50948","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-crisis-politica-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50948","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/759"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=50948"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/50948\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/50893"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=50948"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=50948"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=50948"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=50948"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}