{"id":51462,"date":"2025-09-27T09:00:00","date_gmt":"2025-09-27T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=51462"},"modified":"2025-09-26T12:34:07","modified_gmt":"2025-09-26T15:34:07","slug":"america-latina-presa-na-armadilha-dos-recursos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/america-latina-presa-na-armadilha-dos-recursos\/","title":{"rendered":"Am\u00e9rica Latina presa na armadilha dos recursos"},"content":{"rendered":"\n<p>A Am\u00e9rica Latina segue presa a um modelo econ\u00f4mico que a condena a depender da exporta\u00e7\u00e3o de produtos prim\u00e1rios. Enquanto a China, os Estados Unidos e a Uni\u00e3o Europeia sustentam seu desenvolvimento com manufaturas de alto valor agregado, inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e servi\u00e7os, nossa regi\u00e3o continua vendendo petr\u00f3leo, cobre, soja, caf\u00e9 e minerais como se o tempo n\u00e3o passasse. Mais da metade de nossas exporta\u00e7\u00f5es s\u00e3o mat\u00e9rias-primas, com pouca transforma\u00e7\u00e3o local. E embora haja exce\u00e7\u00f5es, como o M\u00e9xico no setor automotivo ou o Brasil na ind\u00fastria aeron\u00e1utica, o padr\u00e3o regional \u00e9 claro: vivemos do que a terra e o subsolo nos d\u00e3o, mas n\u00e3o do que nossas universidades e centros de inova\u00e7\u00e3o conseguem construir.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse atraso n\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia, mas consequ\u00eancia direta de um sistema educacional que n\u00e3o responde \u00e0s necessidades do s\u00e9culo XXI, de um investimento p\u00fablico insuficiente e de uma vis\u00e3o de desenvolvimento que nunca priorizou o conhecimento como motor central. Segundo dados da UNESCO, a Am\u00e9rica Latina investe em m\u00e9dia 4,3% do PIB em educa\u00e7\u00e3o, muito abaixo dos 6% recomendados. Pa\u00edses como Haiti mal chegam a 1,2%, enquanto outros, como Bol\u00edvia, se aproximam de 8%, mas com s\u00e9rias defici\u00eancias de qualidade. A consequ\u00eancia \u00e9 que quase um ter\u00e7o dos adolescentes n\u00e3o conclui o ensino m\u00e9dio e que, entre os mais pobres, as chances de terminar a escola s\u00e3o drasticamente reduzidas. Ou seja, formamos sociedades onde a educa\u00e7\u00e3o continua sendo um privil\u00e9gio e n\u00e3o um direito efetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma regi\u00e3o que educa mal, que abandona seus jovens no caminho e que n\u00e3o conecta universidades com ind\u00fastrias, est\u00e1 destinada a ser fornecedora de mat\u00e9rias-primas. N\u00e3o \u00e9 de surpreender, ent\u00e3o, que nossa produtividade laboral esteja estagnada, que 70% da for\u00e7a de trabalho sobreviva na informalidade e que o emprego formal com proje\u00e7\u00e3o seja escasso. Segundo o Banco Mundial, quase 30% das empresas na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o conseguem crescer por falta de trabalhadores qualificados. Essa car\u00eancia \u00e9 consequ\u00eancia de um sistema que nunca se modernizou nem entendeu que o desenvolvimento do capital humano \u00e9 a \u00fanica maneira de competir em um mundo onde a inova\u00e7\u00e3o manda.<\/p>\n\n\n\n<p>O problema se agrava com a fuga de c\u00e9rebros. Quando se consegue formar um profissional de excel\u00eancia, as oportunidades na regi\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o limitadas que o talento emigra. Os Estados Unidos, a Europa e, mais recentemente, a China se tornaram destinos de cientistas, engenheiros, m\u00e9dicos e pesquisadores latino-americanos. Basta ver o que aconteceu na Venezuela, onde, segundo estudos recentes, uma propor\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel dos migrantes venezuelanos tem forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria ou p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o; por exemplo, o Banco Interamericano de Desenvolvimento indica que mais da metade dos que emigraram da Venezuela t\u00eam forma\u00e7\u00e3o universit\u00e1ria ou p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. Uma fuga de talentos que deixou hospitais sem m\u00e9dicos, universidades sem professores e empresas sem engenheiros.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a Venezuela seja um caso extremo, o padr\u00e3o se repete em pa\u00edses como Argentina, Peru ou Col\u00f4mbia, onde a migra\u00e7\u00e3o qualificada ultrapassa 10% dos profissionais formados. Exportamos petr\u00f3leo e cobre, mas tamb\u00e9m exportamos c\u00e9rebros, e em ambos os casos o valor agregado \u00e9 capturado por outros.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa combina\u00e7\u00e3o de baixa qualidade da educa\u00e7\u00e3o, fuga de talentos e falta de investimento em pesquisa impacta diretamente o emprego. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que a regi\u00e3o tenha taxas persistentes de pobreza, mesmo em ciclos de bonan\u00e7a dos pre\u00e7os. O fato \u00e9 que os empregos gerados nos setores extrativos ou agr\u00edcolas costumam ser inst\u00e1veis, mal remunerados e com poucas oportunidades de crescimento. Ao n\u00e3o diversificar para ind\u00fastrias mais complexas, deixamos milh\u00f5es de trabalhadores presos em atividades de baixo valor.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a Am\u00e9rica Latina envia para o mundo navios de soja, min\u00e9rio de ferro, cobre ou petr\u00f3leo bruto, a China exporta mais de 90% em manufaturas, como eletr\u00f4nicos, maquin\u00e1rio, t\u00eaxteis e produtos qu\u00edmicos. A Uni\u00e3o Europeia ultrapassa 70% em manufaturas de alto valor, com ind\u00fastrias como a farmac\u00eautica, automotiva ou aeron\u00e1utica. Os Estados Unidos, al\u00e9m de exportarem manufaturas, se tornaram o grande exportador de servi\u00e7os tecnol\u00f3gicos e financeiros.<\/p>\n\n\n\n<p>A depend\u00eancia de produtos prim\u00e1rios n\u00e3o s\u00f3 nos torna mais pobres, mas tamb\u00e9m mais vulner\u00e1veis. Somos ref\u00e9ns de ciclos de mat\u00e9rias-primas que n\u00e3o controlamos. Por outro lado, quem aposta na inova\u00e7\u00e3o e na manufatura gera resili\u00eancia, pois seu valor n\u00e3o depende do clima ou de um conflito geopol\u00edtico, mas da capacidade de suas ind\u00fastrias e de seu povo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Podemos sair desse ciclo?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Sim, mas n\u00e3o ser\u00e1 r\u00e1pido. Exemplos internacionais mostram que um processo de transforma\u00e7\u00e3o produtiva baseado em educa\u00e7\u00e3o e inova\u00e7\u00e3o requer pelo menos uma d\u00e9cada de investimento sustentado. Para come\u00e7ar, a Am\u00e9rica Latina deveria aumentar seus gastos com educa\u00e7\u00e3o para 6% do PIB, melhorar a qualidade do ensino, reduzir a evas\u00e3o escolar e vincular muito mais a universidade \u00e0 empresa. Ao mesmo tempo, \u00e9 necess\u00e1rio destinar mais recursos \u00e0 pesquisa e ao desenvolvimento. Atualmente, investimos apenas 0,7% do PIB em P&amp;D, enquanto a OCDE investe, em m\u00e9dia, 2,4%.<\/p>\n\n\n\n<p>Superar a depend\u00eancia prim\u00e1ria tamb\u00e9m implica pol\u00edticas de reten\u00e7\u00e3o e retorno de talentos. N\u00e3o basta formar profissionais, \u00e9 preciso dar-lhes oportunidades reais para que pesquisem, criem empresas ou liderem ind\u00fastrias a partir daqui. Alguns pa\u00edses do Leste Europeu conseguiram reverter a fuga de c\u00e9rebros quando come\u00e7aram a gerar ambientes competitivos, infraestrutura de qualidade e apoio ao empreendedorismo. A Am\u00e9rica Latina deveria aprender com essas experi\u00eancias. O caminho n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas \u00e9 inevit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Investir em educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e tecnologia n\u00e3o \u00e9 um luxo, \u00e9 uma urg\u00eancia. E embora os resultados quantitativos n\u00e3o sejam imediatos, um compromisso sustentado durante uma gera\u00e7\u00e3o poderia mudar o destino da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Latina n\u00e3o carece de talentos nem de recursos, mas sim de vis\u00e3o. Enquanto n\u00e3o entendermos que o petr\u00f3leo e o <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/teleacoplamentos-uma-historia-sobre-litio-e-transformacoes-globais-assimetricas\/\">l\u00edtio<\/a> valem menos do que uma patente, que uma tonelada de cobre gera menos riqueza do que um software e que um campo de soja nunca substituir\u00e1 um centro de inova\u00e7\u00e3o, continuaremos condenados a viver do passado. A hist\u00f3ria n\u00e3o muda sozinha, ela muda com decis\u00e3o pol\u00edtica. S\u00f3 assim deixaremos de ser exportadores de mat\u00e9rias-primas e c\u00e9rebros para finalmente nos tornarmos exportadores de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Am\u00e9rica Latina continua presa a um modelo prim\u00e1rio-exportador que a condena \u00e0 depend\u00eancia, \u00e0 fuga de c\u00e9rebros e \u00e0 perda de oportunidades na economia do conhecimento.<\/p>\n","protected":false},"author":770,"featured_media":51437,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16754,16750],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-51462","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desarrollo-pt-br","8":"category-economia-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51462","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/770"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51462"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51462\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51437"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51462"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51462"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51462"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=51462"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}