{"id":51509,"date":"2025-09-30T09:00:00","date_gmt":"2025-09-30T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=51509"},"modified":"2025-09-29T15:42:50","modified_gmt":"2025-09-29T18:42:50","slug":"as-sombras-da-soberania-na-mexico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-sombras-da-soberania-na-mexico\/","title":{"rendered":"As sombras da soberania na M\u00e9xico"},"content":{"rendered":"\n<p>No M\u00e9xico, a soberania \u00e9 defendida em coletivas de imprensa, mas tamb\u00e9m \u00e9 corro\u00edda pelo sil\u00eancio do poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, enquanto a presidente Claudia Sheinbaum fala de \u201ccoopera\u00e7\u00e3o com os Estados Unidos no respeito \u00e0 nossa soberania\u201d, Ismael <em>El Mayo<\/em> Zambada \u2014 invis\u00edvel para o Estado, ao contr\u00e1rio do que representa \u2014 deixa sua marca na Corte de Justi\u00e7a do Brooklyn. O fato \u00e9 que o chefe mais antigo do Cartel de Sinaloa at\u00e9 seu sequestro e extradi\u00e7\u00e3o reapareceu com declara\u00e7\u00f5es que, mais do que confiss\u00f5es, s\u00e3o lembran\u00e7as do poder estabelecido.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua \u00fanica palavra \u2014 dada na penumbra, nunca sob os holofotes \u2014 pesa midiaticamente e simbolicamente como a de um presidente em exerc\u00edcio. Enquanto Sheinbaum insiste que a rela\u00e7\u00e3o com Washington tem limites claros, El Mayo lan\u00e7a uma mensagem entre linhas: o que ele representa continua a marcar o rumo.<\/p>\n\n\n\n<p>A paradoxo \u00e9 brutal. A presidente fala de soberania frente aos Estados Unidos, mas, na pr\u00e1tica, o governo mexicano anda com p\u00e9s de chumbo. A DEA continua investigando, o Departamento do Tesouro congela contas e os promotores federais esperam a pe\u00e7a adequada para expor as cumplicidades. O M\u00e9xico coopera, sim, mas apenas at\u00e9 onde o equil\u00edbrio pol\u00edtico interno permite.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso de Genaro Garc\u00eda Luna, ex-secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica durante o governo de Felipe Calder\u00f3n (2006-2012) e atualmente cumprindo pena nos Estados Unidos, deixou uma li\u00e7\u00e3o: Washington pode derrubar narrativas inteiras se decidir colocar um funcion\u00e1rio mexicano no banco dos r\u00e9us.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, quando <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/mexico-extraditados-e-extraditaveis\/\">55 chef\u00f5es s\u00e3o entregues<\/a> com processos que envolvem pol\u00edticos ativos \u2014 principalmente do Morena \u2014, a ret\u00f3rica do respeito m\u00fatuo se dilui. A linha vermelha \u00e9 evidente: n\u00e3o tocar nos narcotraficantes pol\u00edticos aliados do regime, pelo menos enquanto a Casa Branca n\u00e3o exigir.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a soberania, essa palavra t\u00e3o repetida, parece cada vez mais desgastada. Nos territ\u00f3rios do norte e do sul, nas cidades fronteiri\u00e7as e nas comunidades do Pac\u00edfico, quem decide n\u00e3o \u00e9 o governo federal, mas o crime organizado.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Washington, os arquivos sobre o M\u00e9xico s\u00e3o usados como fichas de negocia\u00e7\u00e3o migrat\u00f3ria e comercial. Assim, o discurso oficial sobre soberania fica em um slogan que n\u00e3o consegue encobrir nem a inger\u00eancia nem o v\u00e1cuo de poder.<\/p>\n\n\n\n<p>As declara\u00e7\u00f5es de El Mayo e de Sheinbaum, vistas em paralelo, desenham uma verdade inc\u00f4moda: no M\u00e9xico, a soberania n\u00e3o est\u00e1 no Pal\u00e1cio Nacional, mas dividida entre tr\u00eas for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>A primeira \u00e9 o Estado mexicano, que fala com voz diplom\u00e1tica para as clientelas pol\u00edticas; a segunda \u00e9 o crime organizado, que fala da clandestinidade e age abertamente semeando o terror; e a terceira \u00e9 os Estados Unidos, que n\u00e3o precisam falar muito porque acumulam informa\u00e7\u00f5es e as utilizam como arma pol\u00edtica para pressionar dia ap\u00f3s dia, como tudo indica que aconteceu com a visita de Marco Rubio ao Pal\u00e1cio Nacional.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse tabuleiro, Sheinbaum joga com margens estreitas de opera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Ela pode repetir insistentemente que a coopera\u00e7\u00e3o com Washington tem limites, mas sabe que esses limites se movem ao ritmo das press\u00f5es da Casa Branca.<\/p>\n\n\n\n<p>El Mayo Zambada, por outro lado, n\u00e3o precisa fazer precis\u00f5es: com poucas palavras, deixa claro que esse poder paralelo continua l\u00e1, t\u00e3o presente e t\u00e3o ativo quanto as limita\u00e7\u00f5es do pr\u00f3prio Estado mexicano.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim, a soberania mexicana se tornou um campo de sombras: proclamada no discurso reiterativo do Pal\u00e1cio Nacional, disputada nos territ\u00f3rios controlados pelos cart\u00e9is que sabem onde reside sua for\u00e7a e condicionada pelas salas da Casa Branca, pelas ag\u00eancias de seguran\u00e7a, pela m\u00eddia e pelos tribunais dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>A presidente Sheinbaum n\u00e3o sai do roteiro de seus assessores e proclama, \u00e0s vezes com veem\u00eancia e outras com tribula\u00e7\u00e3o, a defesa da soberania nacional. Ela mant\u00e9m o discurso de L\u00f3pez Obrador de \u201crespeito m\u00fatuo\u201d e \u201cn\u00e3o interven\u00e7\u00e3o\u201d, mas sabe que sua margem de manobra pol\u00edtica \u00e9 estreita.<\/p>\n\n\n\n<p>Washington n\u00e3o precisa, at\u00e9 agora, impor a for\u00e7a militar; basta insinuar que h\u00e1 processos abertos contra pol\u00edticos para que Sheinbaum ceda nas quest\u00f5es de interesse dos Estados Unidos e, diante disso, o governo ajusta sua narrativa para n\u00e3o desencadear tempestades.<\/p>\n\n\n\n<p>El Mayo representa simbolicamente a outra sombra. Sabe-se que ele continua sendo um ator poderoso, e ele mesmo o diz ao declarar perante o Tribunal de Brooklyn que, para operar em sua longa carreira, deu dinheiro a \u201cpoliciais, militares e pol\u00edticos\u201d at\u00e9 seu sequestro e extradi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Lembremos apenas que ele tinha como guarda de seguran\u00e7a um agente do Minist\u00e9rio P\u00fablico de Sinaloa. Essa sombra do crime n\u00e3o s\u00f3 cobre territ\u00f3rios inteiros, mas tamb\u00e9m esferas de poder onde est\u00e3o \u00e0 espreita os narcopol\u00edticos, essas figuras h\u00edbridas que n\u00e3o respondem ao partido no poder, nem ao governo, mas ao financiamento e \u00e0 prote\u00e7\u00e3o dos cart\u00e9is.<\/p>\n\n\n\n<p>E assim, quando a presidente Sheinbaum fala de soberania, essa sombra se infiltra. Como declarou lapidariamente Rub\u00e9n Rocha, governador de Sinaloa, em uma entrevista <em>off the record<\/em> com o jornalista Salvador Garc\u00eda Soto: \u201cN\u00e3o sejamos idiotas. Aqui todo mundo sabe como est\u00e3o as coisas. Eu fui e conversei com eles&#8230; Fui pedir o apoio deles\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, como diz\u00edamos, os Estados Unidos n\u00e3o precisam de enviar for\u00e7as militares para o territ\u00f3rio mexicano para marcar limites: os seus tribunais s\u00e3o suficientes. Esta sombra funciona como uma lembran\u00e7a permanente: o governo mexicano pode falar de soberania, mas a justi\u00e7a americana reserva-se o direito de expor o que no M\u00e9xico se silencia para manter o equil\u00edbrio.<\/p>\n\n\n\n<p>As sombras sobrep\u00f5em-se e a soberania mexicana j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 uma luz clara, mas sim uma penumbra. O Estado se sustenta em um discurso desgastado, o crime no controle do territ\u00f3rio e os Estados Unidos nos processos judiciais. E ali, em meio \u00e0s sombras que dialogam, colidem e pactuam, a cidadania est\u00e1 presa.<\/p>\n\n\n\n<p>Em definitiva, por enquanto, o M\u00e9xico n\u00e3o vive sob plena soberania, mas em campos de sombras onde todos se escondem, todos se protegem e todos, em sil\u00eancio, precisam uns dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A soberania mexicana hoje n\u00e3o \u00e9 exercida a partir do Pal\u00e1cio Nacional, mas disputada em um campo de sombras entre o Estado, o crime organizado e os Estados Unidos.<\/p>\n","protected":false},"author":331,"featured_media":51483,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16706],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-51509","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mexico-pt-br","8":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51509","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/331"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=51509"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/51509\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/51483"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=51509"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=51509"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=51509"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=51509"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}