{"id":52319,"date":"2025-10-15T15:00:00","date_gmt":"2025-10-15T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=52319"},"modified":"2025-10-15T12:03:41","modified_gmt":"2025-10-15T15:03:41","slug":"o-fim-do-governo-de-dina-boluarte-e-o-padrao-dos-fracassos-presidenciais-na-regiao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-fim-do-governo-de-dina-boluarte-e-o-padrao-dos-fracassos-presidenciais-na-regiao\/","title":{"rendered":"O fim do governo de Dina Boluarte e o padr\u00e3o dos fracassos presidenciais na regi\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 10 de outubro, o Congresso peruano aprovou uma <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/es\/podcast\/el-congreso-peruano-destituye-a-dina-boluarte\/\">mo\u00e7\u00e3o de destitui\u00e7\u00e3o<\/a> por \u201cincapacidade moral permanente\u201d e p\u00f4s fim ao governo de Dina Boluarte. O seu caso torna-se assim o caso de n\u00famero 25 de \u201cfracasso presidencial\u201d (ou seja, todos os presidentes obrigados a deixar o poder) na Am\u00e9rica Latina desde 1980 at\u00e9 hoje, se contarmos quem permaneceu no cargo por um per\u00edodo significativo (excluindo casos como os de Rosal\u00eda Arteaga, do Equador, Adolfo Rodr\u00edguez Sa\u00e1, da Argentina, e Manuel Merino, do Peru, que exerceram presid\u00eancias interinas por menos de duas semanas).<\/p>\n\n\n\n<p>A mo\u00e7\u00e3o de censura que deixou vago o cargo mais alto do Peru foi a nona tentativa desde que assumiu a presid\u00eancia em dezembro de 2022, ap\u00f3s a queda de Pedro Castillo, ap\u00f3s sua tentativa fracassada de autogolpe. Com isso, o Peru alcan\u00e7ou um novo recorde regional: cinco presidentes \u201cfracassados\u201d antes de concluir seu mandato, superando Bol\u00edvia e Equador, que acumulam quatro casos cada.<\/p>\n\n\n\n<p>Mais do que um epis\u00f3dio isolado, a sa\u00edda de Boluarte confirma um padr\u00e3o que documentei em meu livro <em>Why Presidents Fail<\/em> (2024): a crescente dificuldade dos mandat\u00e1rios latino-americanos em se manter no poder.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As causas imediatas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As an\u00e1lises sobre os principais desafios enfrentados pelo governo Boluarte identificam tr\u00eas fatores principais que ajudam a explicar sua queda. O primeiro \u00e9 a frequ\u00eancia e a magnitude dos protestos de rua. Em apenas dois anos, seu governo testemunhou mais de 1.700 protestos, segundo o Observat\u00f3rio para a Democracia e Governabilidade. As manifesta\u00e7\u00f5es dirigidas especificamente contra o Executivo s\u00e3o um fator-chave para explicar a instabilidade presidencial. De acordo com minha pesquisa, cada protesto em massa desse tipo aumenta em quase 30% o risco de uma presid\u00eancia fracassar.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo fator \u00e9 o peso dos esc\u00e2ndalos presidenciais. O chamado <em>caso Rolex<\/em> e as acusa\u00e7\u00f5es de enriquecimento il\u00edcito, somados \u00e0 sua pol\u00eamica aus\u00eancia para se submeter a cirurgias est\u00e9ticas, combinaram elementos de corrup\u00e7\u00e3o e moralidade p\u00fablica. Em meus estudos, esse tipo de esc\u00e2ndalo \u2014 seja por corrup\u00e7\u00e3o, esc\u00e2ndalos morais ou abuso de poder \u2014 aumenta em m\u00e9dia 13% o risco de um presidente ser for\u00e7ado a deixar o cargo.<\/p>\n\n\n\n<p>O terceiro elemento \u00e9 a inseguran\u00e7a e o crime organizado. Como apontou o analista Will Freeman, Boluarte pode ser a primeira presidente latino-americana destitu\u00edda por sua incapacidade de enfrentar o crime organizado. Este \u00e9 um aspecto novo na explica\u00e7\u00e3o das presid\u00eancias fracassadas: a eros\u00e3o do controle territorial e a inseguran\u00e7a como gatilhos de crises pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O contexto estrutural<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas as causas imediatas contam apenas uma parte da hist\u00f3ria. A instabilidade do Peru \u2013 e de Boluarte em particular \u2013 tem ra\u00edzes mais profundas na fraqueza cr\u00f4nica de seus partidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os presidentes de qualquer pa\u00eds, tanto para que seus projetos sejam aprovados quanto para que seus governos sejam est\u00e1veis, precisam de rela\u00e7\u00f5es relativamente boas com os partidos. Isso pode ser alcan\u00e7ado em pa\u00edses com partidos fracos, moderadamente institucionalizados ou fortes. No entanto, como argumento em <em>Why Presidents Fail<\/em>, somente no caso destes \u00faltimos as rela\u00e7\u00f5es entre o presidente e os partidos se sustentam em aspectos program\u00e1ticos e em vis\u00f5es compartilhadas de longo prazo. Nos partidos governistas, esses elementos geram lealdade real ao presidente; nos partidos da oposi\u00e7\u00e3o, produzem um esp\u00edrito republicano e institucional que os leva a respeitar os processos e princ\u00edpios democr\u00e1ticos. Tudo isso contribui para presid\u00eancias mais duradouras e democr\u00e1ticas.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, quando os partidos s\u00e3o parcialmente institucionalizados ou claramente fracos, a coopera\u00e7\u00e3o presidente-partidos se baseia em aspectos meramente instrumentais e superficiais e em l\u00f3gicas de <em>quid pro quo<\/em>, todas orientadas ao curto prazo. No entanto, essa estabilidade \u00e9 enganosa: n\u00e3o se baseia em convic\u00e7\u00f5es ideol\u00f3gicas nem em acordos program\u00e1ticos, mas na troca de favores, em \u201clealdades\u201d transacionais e ef\u00eameras, que podem mudar rapidamente de dono.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse tipo de sistema, o curto prazo domina. As alian\u00e7as mudam ao ritmo das conveni\u00eancias imediatas, e a \u201ccompra de vontades\u201d substitui as vis\u00f5es pol\u00edticas orientadas ao longo prazo. Nesse cen\u00e1rio, a queda de um presidente depende menos de uma convic\u00e7\u00e3o moral ou ideol\u00f3gica e mais da converg\u00eancia circunstancial de atores dispostos a coordenar sua destitui\u00e7\u00e3o sem grande considera\u00e7\u00e3o pelas implica\u00e7\u00f5es futuras de suas a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Da blindagem ao abandono<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por mais de dois anos, Boluarte se beneficiou dessa l\u00f3gica. Os partidos representados no Congresso a protegeram de oito mo\u00e7\u00f5es de destitui\u00e7\u00e3o entre janeiro de 2023 e maio de 2024. Mas sua sobreviv\u00eancia claramente n\u00e3o respondia a uma coaliz\u00e3o ideol\u00f3gica, mas a um pacto de conveni\u00eancia. Mais precisamente, a uma \u201ccoaliz\u00e3o autorit\u00e1ria\u201d, como a rotulou o acad\u00eamico peruano Omar Coronel. Essa coaliz\u00e3o <em>ad hoc<\/em>, sustentada virtualmente na garantia do poder e dos cargos pol\u00edticos at\u00e9 2026, foi fundamental para explicar a estabilidade do governo de Boluarte, apesar dos desafios significativos \u00e0 sua autoridade por parte das ondas massivas de protestos antigovernamentais. A pr\u00f3pria natureza desse tipo de coaliz\u00e3o s\u00f3 pode ser compreendida em um contexto de partidos fracos ou inexistentes, como \u00e9 o caso do Peru.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando a presidente se tornou (ainda mais) impopular, incapaz de oferecer uma resposta ao avan\u00e7o do crime organizado e debilitada pelos esc\u00e2ndalos, sua utilidade pol\u00edtica se esgotou. Os protestos das \u00faltimas semanas da \u201cGera\u00e7\u00e3o Z\u201d e as mobiliza\u00e7\u00f5es de transportadores cansados das extors\u00f5es e assassinatos por encomenda enfraqueceram significativamente Boluarte. A gota d&#8217;\u00e1gua foi o ataque armado ao popular grupo de cumbia Agua Marina, em 8 de outubro. Esse tr\u00e1gico evento n\u00e3o apenas validou as demandas sociais, mas tamb\u00e9m deixou os partidos governistas no Congresso sem margem de manobra. Estes \u00faltimos, em um esfor\u00e7o classicamente ego\u00edsta e m\u00edope para melhorar suas chances de reelei\u00e7\u00e3o, abandonaram rapidamente Dina Boluarte. As mesmas for\u00e7as que haviam fechado fileiras em sua defesa decidiram abrir a porta de sa\u00edda em uma vota\u00e7\u00e3o un\u00e2nime.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Expectativas?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio de outras crises presidenciais, o substituto de Boluarte vem do mesmo setor pol\u00edtico que foi alvo dos protestos, embora a ex-presidente concentrasse a maioria do descontentamento. Trata-se, na verdade, de uma esp\u00e9cie de <em>sucess\u00e3o gatopardista<\/em>: mudar algo para que nada mude. Nessas condi\u00e7\u00f5es, a transi\u00e7\u00e3o corre o risco de fracassar antes mesmo de concretizar sua tentativa de amenizar \u2014 ainda que temporariamente \u2014 a crise.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A destitui\u00e7\u00e3o de Dina Boluarte n\u00e3o \u00e9 um fato isolado, mas a confirma\u00e7\u00e3o do padr\u00e3o de instabilidade que marca as presid\u00eancias latino-americanas h\u00e1 mais de quatro d\u00e9cadas.<\/p>\n","protected":false},"author":162,"featured_media":52311,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16738,16708],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-52319","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-peru-pt-br","8":"category-politica-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52319","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/162"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52319"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52319\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52311"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52319"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52319"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52319"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=52319"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}