{"id":52361,"date":"2025-10-17T15:00:00","date_gmt":"2025-10-17T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=52361"},"modified":"2025-10-17T16:16:00","modified_gmt":"2025-10-17T19:16:00","slug":"da-vulnerabilidade-a-resiliencia-uma-mudanca-de-paradigma-para-por-fim-a-pobreza-na-america-latina-e-no-caribe","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/da-vulnerabilidade-a-resiliencia-uma-mudanca-de-paradigma-para-por-fim-a-pobreza-na-america-latina-e-no-caribe\/","title":{"rendered":"Da vulnerabilidade \u00e0 resili\u00eancia: uma mudan\u00e7a de paradigma para por fim \u00e0 pobreza na Am\u00e9rica Latina e no Caribe"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 2024, a Am\u00e9rica Latina e o Caribe alcan\u00e7aram seus n\u00edveis mais baixos de pobreza em sua hist\u00f3ria, mas ainda assim uma em cada quatro pessoas vive em condi\u00e7\u00f5es de pobreza. No entanto, o desafio vai muito al\u00e9m: 31% da popula\u00e7\u00e3o adicional encontra-se em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, pouco acima da linha da pobreza, e em risco de cair nela diante de qualquer choque, seja econ\u00f4mico, clim\u00e1tico, social ou pol\u00edtico. Em outras palavras, mais da metade da popula\u00e7\u00e3o total da regi\u00e3o carece de mecanismos para enfrentar crises ou adversidades em suas vidas sem sofrer retrocessos significativos \u2014 e muitas vezes permanentes \u2014 em seu bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa realidade desafia o pensamento tradicional em mat\u00e9ria de desenvolvimento, que assume a mobilidade social como algo linear: que, uma vez que as pessoas saem da pobreza, continuariam em uma tend\u00eancia ascendente de expans\u00e3o de capacidades e oportunidades. Em outras palavras, o not\u00e1vel progresso das \u00faltimas d\u00e9cadas na Am\u00e9rica Latina e no Caribe n\u00e3o foi suficiente para consolidar classes m\u00e9dias est\u00e1veis, o que n\u00e3o apenas compromete sua trajet\u00f3ria, mas tamb\u00e9m a coloca em risco de sofrer retrocessos.<\/p>\n\n\n\n<p>A isso se soma outro desafio de particular import\u00e2ncia para a regi\u00e3o: o aumento da pobreza urbana. Embora suas taxas continuem sendo inferiores \u00e0s da pobreza rural, o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza nas cidades cresce mais rapidamente. Isso em uma regi\u00e3o onde 82% da popula\u00e7\u00e3o vive em \u00e1reas urbanas, muito acima da m\u00e9dia mundial de 58%.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um contexto de crescente incerteza, no qual os riscos tradicionais s\u00e3o cada vez mais frequentes e intensos, e s\u00e3o agravados pela r\u00e1pida evolu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, pela fragmenta\u00e7\u00e3o social e por um clima cada vez mais inst\u00e1vel, as pol\u00edticas p\u00fablicas para a redu\u00e7\u00e3o da pobreza exigem uma mudan\u00e7a de paradigma. Uma mudan\u00e7a que lhes permita abordar a fragilidade de sua trajet\u00f3ria de desenvolvimento e, ao mesmo tempo, produzir resultados em meio a essa nova complexidade. Uma coisa \u00e9 clara: o que funcionou no passado j\u00e1 n\u00e3o ser\u00e1 suficiente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Resili\u00eancia como roteiro<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O <a href=\"https:\/\/www.undp.org\/es\/latin-america\/informe-regional-sobre-desarrollo-humano-2025\">Relat\u00f3rio Regional de Desenvolvimento Humano do PNUD 2025<\/a> prop\u00f5e uma sa\u00edda para este desafio: colocar a resili\u00eancia no centro da agenda de desenvolvimento da regi\u00e3o, como um facilitador da ag\u00eancia e protetor das liberdades efetivas, mas tamb\u00e9m como um roteiro. Trata-se de dotar as pessoas, os lares e as comunidades de bens e mecanismos que lhes permitam progredir e, ao mesmo tempo, prevenir, mitigar e recuperar-se do impacto de choques, podendo reconstruir suas vidas. Somente atrav\u00e9s de um desenvolvimento humano resiliente as pessoas poder\u00e3o viver vidas valiosas, com confian\u00e7a em seu futuro, sabendo que est\u00e3o protegidas de impactos adversos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos concretos, isso exige inovar nas estrat\u00e9gias de redu\u00e7\u00e3o da pobreza: incorporar a constru\u00e7\u00e3o da resili\u00eancia como parte integrante de seus objetivos. Isso implica continuar avan\u00e7ando em dire\u00e7\u00e3o ao conceito de universalidade na presta\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os e na prote\u00e7\u00e3o social, expandindo sua cobertura e alcance para incluir tamb\u00e9m a popula\u00e7\u00e3o em condi\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade que, por n\u00e3o ser considerada pobre nem estar formalmente empregada, tem sido tradicionalmente exclu\u00edda dos sistemas de prote\u00e7\u00e3o social. Por fim, essas estrat\u00e9gias devem promover a acumula\u00e7\u00e3o de ativos e capacidades que permitam \u00e0s fam\u00edlias antecipar, resistir e se recuperar diante de eventos adversos, contribuindo assim para um desenvolvimento humano mais resiliente e inclusivo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Cidades, inova\u00e7\u00e3o e democracia<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista da focaliza\u00e7\u00e3o territorial, \u00e9 fundamental considerar que, embora as cidades possam oferecer oportunidades para melhorar o bem-estar, elas tamb\u00e9m apresentam desafios para aqueles que migram para elas: dificuldades de acesso a empregos dignos, alto custo de vida ou segrega\u00e7\u00e3o espacial, quando n\u00e3o exclus\u00e3o social. Por outro lado, esse fen\u00f4meno de urbaniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m imp\u00f5e grandes press\u00f5es sobre os governos subnacionais, com maiores demandas por solo urbano e investimento p\u00fablico, dificuldades t\u00e9cnicas para elaborar pol\u00edticas sociais eficazes diante dessa realidade crescente, como aproveitar as oportunidades de economia de escala, tecnologia e implantar a geolocaliza\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os ou atender \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua. Al\u00e9m disso, o meio urbano pode amplificar as priva\u00e7\u00f5es, a vulnerabilidade e o risco de (re)cair em situa\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es de pobreza, seja por desemprego em tempos de crise, pela impossibilidade de produzir alimentos ou pelo impacto de epis\u00f3dios clim\u00e1ticos adversos em infraestruturas cr\u00edticas ou assentamentos localizados em zonas de risco.<\/p>\n\n\n\n<p>Acabar com a pobreza por meio de um desenvolvimento humano resiliente n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o exclusiva da pol\u00edtica social; \u00e9 um imperativo para a consolida\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. A confian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es e a legitimidade democr\u00e1tica s\u00e3o corro\u00eddas quando os sistemas n\u00e3o respondem \u00e0s expectativas, quando n\u00e3o reduzem as desigualdades sociais nem garantem o acesso efetivo aos direitos, \u00e0s oportunidades e \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a e prosperidade compartilhadas, sem qualquer restri\u00e7\u00e3o \u00e0 a\u00e7\u00e3o e \u00e0s liberdades humanas.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um contexto de incerteza e polariza\u00e7\u00e3o crescente, a inova\u00e7\u00e3o para gerar solu\u00e7\u00f5es que respondam \u00e0s necessidades concretas das pessoas \u00e9 fundamental para construir resili\u00eancia, fechar lacunas e acelerar a elimina\u00e7\u00e3o da pobreza. A regi\u00e3o j\u00e1 demonstrou sua capacidade de inovar: foi pioneira na incorpora\u00e7\u00e3o de medidas multidimensionais da pobreza e no desenvolvimento de transfer\u00eancias monet\u00e1rias condicionadas, posteriormente replicadas em todo o mundo, e conta com inova\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e sociais que podemos e devemos ampliar em escala. A resili\u00eancia e a luta contra a pobreza n\u00e3o ocorrem apenas de cima para baixo, mas tamb\u00e9m a partir dos lares, das comunidades e dos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, para tudo isso, a pobreza deve recuperar a centralidade que outrora teve no debate p\u00fablico, incorporando agora tamb\u00e9m a vulnerabilidade. \u00c9 necess\u00e1rio adotar como prioridade pol\u00edtica a focaliza\u00e7\u00e3o e o alinhamento de esfor\u00e7os, a ordena\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas e a implanta\u00e7\u00e3o de novos instrumentos t\u00e9cnicos e de financiamento que melhorem a efic\u00e1cia e a efici\u00eancia do investimento social, especialmente em contextos de restri\u00e7\u00e3o fiscal e dificuldades de acesso ao financiamento para o desenvolvimento.<\/p>\n\n\n\n<p>Enfrentar esses desafios exige uma vis\u00e3o renovada do desenvolvimento na regi\u00e3o, que reconhe\u00e7a a pobreza como a priva\u00e7\u00e3o de capacidades para levar uma vida plena e coloque a resili\u00eancia no centro das estrat\u00e9gias de desenvolvimento. Somente a partir da colabora\u00e7\u00e3o e da constru\u00e7\u00e3o coletiva poderemos garantir que as respostas cheguem onde devem chegar, na escala e na forma adequadas.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas o futuro do desenvolvimento na regi\u00e3o, mas tamb\u00e9m o futuro de nossas democracias. Avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a trajet\u00f3rias de vida mais dignas e seguras, menos vulner\u00e1veis, e eliminar definitivamente a pobreza. \u00c9 poss\u00edvel, \u00e9 justo e \u00e9 inadi\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Embora a Am\u00e9rica Latina e o Caribe registrem o seu n\u00edvel mais baixo de pobreza na hist\u00f3ria, mais da metade da sua popula\u00e7\u00e3o continua vulner\u00e1vel, evidenciando a urg\u00eancia de um novo paradigma de desenvolvimento baseado na resili\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"author":759,"featured_media":52357,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17145,16766],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-52361","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-onu-pt-br","8":"category-pobreza-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52361","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/759"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52361"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52361\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52357"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52361"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52361"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52361"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=52361"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}