{"id":52364,"date":"2025-10-18T09:00:00","date_gmt":"2025-10-18T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=52364"},"modified":"2025-10-17T19:02:32","modified_gmt":"2025-10-17T22:02:32","slug":"a-crise-da-universidade-na-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-crise-da-universidade-na-america-latina\/","title":{"rendered":"A crise da universidade na Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>Sob o governo de Javier Milei, as universidades argentinas sofreram um corte de quase 30% em seu or\u00e7amento e os sal\u00e1rios dos docentes ca\u00edram mais de 20%. No M\u00e9xico, os cortes nas universidades em 2025 est\u00e3o chegando a mais de 32%, os mais altos dos \u00faltimos dez anos. Paralelamente, uma deputada do Morena, o partido no governo, prop\u00f4s uma iniciativa de lei para que as universidades deste pa\u00eds n\u00e3o exijam a tese como requisito para obter o diploma. Na Col\u00f4mbia, o ex-vice-ministro da Criatividade enfrenta acusa\u00e7\u00f5es de falsifica\u00e7\u00e3o de um t\u00edtulo de mestrado para chegar ao cargo, lembrando muitos casos similares, mas impunes, como o de uma ministra da SCJN no M\u00e9xico que plagiou sua tese. O que esses casos t\u00eam em comum? Que s\u00e3o produto das crises que todas as universidades enfrentam atualmente. Em outras circunst\u00e2ncias, os cortes nas universidades seriam impens\u00e1veis e altamente question\u00e1veis, a classe pol\u00edtica e as pr\u00f3prias universidades teriam condenado a fraude para obter um diploma e ningu\u00e9m questionaria o valor de uma tese. Hoje, \u00e9 muito prov\u00e1vel que muita gente seja a favor dessas pr\u00e1ticas, que as minimizem ou que as justifiquem diretamente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os ataques externos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX, as universidades da Am\u00e9rica Latina financiadas pelo Estado foram obrigadas a cooperar com as pol\u00edticas de desenvolvimento; a l\u00f3gica era que, com mais graduados, um pa\u00eds poderia acelerar suas capacidades de desenvolvimento em todas as \u00e1reas. No in\u00edcio, foi o que ocorreu, mas as universidades foram v\u00edtimas de seu pr\u00f3prio \u00eaxito e, na segunda metade do s\u00e9culo, se massificaram. Ao se submeterem a essa din\u00e2mica, cederam parte de sua autonomia, e os Estados se viram comprometidos a aumentar a cada ano seus or\u00e7amentos para sustentar essa l\u00f3gica que, pouco a pouco, foi corroendo seus objetivos cient\u00edficos, human\u00edsticos e de divulga\u00e7\u00e3o. Mas o neoliberalismo que impera na regi\u00e3o desde os anos 80, e com maior intensidade no s\u00e9culo XXI, n\u00e3o as despojou dessa carga, mas as condicionou. Elas n\u00e3o respondem mais \u00e0s necessidades de desenvolvimento de uma sociedade guiada pelo Estado, mas <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-podemos-aprender-com-a-privatizacao-da-educacao-no-chile\/\">\u00e0s demandas do mercado<\/a>. As universidades deixaram de ser um investimento de longo prazo para se tornarem um fardo governamental, pois o que menos importa \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o de qualidade e o desenvolvimento da ci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Hoje, as universidades s\u00e3o obrigadas a justificar a pertin\u00eancia de seus cursos e diplomas n\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o do desenvolvimento do conhecimento universal, mas das demandas do mercado de trabalho. Assim, as universidades s\u00e3o tratadas como centros de capacita\u00e7\u00e3o e emiss\u00e3o de diplomas. As exig\u00eancias acad\u00eamicas diminu\u00edram, os cursos n\u00e3o devem durar muitos anos, quanto mais curtos, melhor. A tese perdeu seu valor como crit\u00e9rio de m\u00e9rito para um diploma: \u201cQuem vai ler?\u201d. A obten\u00e7\u00e3o de diplomas foi flexibilizada com exames padronizados de gradua\u00e7\u00e3o, s\u00edmbolo da mediocridade, projetados para facilitar, n\u00e3o para exigir. Ao reduzir os tempos e os requisitos de gradua\u00e7\u00e3o, os graduados est\u00e3o mais prontos para serem explorados ou, pior ainda, para n\u00e3o serem explorados, porque est\u00e1 se formando um ex\u00e9rcito de subespecialistas que ostentam um diploma que foi despojado de seu valor: o esfor\u00e7o intelectual. N\u00e3o \u00e9 raro que muitas pessoas, especialmente no \u00e2mbito pol\u00edtico, se dediquem a colecionar diplomas universit\u00e1rios sem adquirir conhecimento, da\u00ed a toler\u00e2ncia ao pl\u00e1gio ou a minimiza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas fraudulentas. Mesmo as grandes universidades privadas que inicialmente resistiram aos ataques do Estado onipotente tamb\u00e9m cederam \u00e0 l\u00f3gica do mercado e hoje competem no mercado dos diplomas mais f\u00e1ceis de obter.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A asfixia interna<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As universidades n\u00e3o s\u00e3o \u201ctorres de marfim\u201d, um mito que se repete; a realidade \u00e9 diametralmente oposta. Devido \u00e0s press\u00f5es externas e \u00e0s exig\u00eancias do mercado, o corpo docente, antes a espinha dorsal do ensino superior, foi substitu\u00eddo pelo corpo discente. Mas ambos foram reduzidos a meros agentes econ\u00f4micos do sistema: agora uns s\u00e3o \u201cfacilitadores\u201d e os outros, meros clientes a quem se deve oferecer educa\u00e7\u00e3o \u00e0 la carte e \u00e0 medida de suas possibilidades. A busca pelo m\u00e9rito foi confundida com privil\u00e9gio e substitu\u00edda pelo politicamente correto, e a exig\u00eancia pela condescend\u00eancia. Apesar disso, as diferentes e constantes gera\u00e7\u00f5es de estudantes continuam revitalizando a universidade ao propor novos desafios e introduzir agendas originais; sua natural rejei\u00e7\u00e3o ao <em>status quo<\/em> gera movimentos que impactam a esfera p\u00fablica porque s\u00e3o o reflexo das preocupa\u00e7\u00f5es das sociedades, mas, ao se submeterem \u00e0 din\u00e2mica do mercado, essa vivacidade est\u00e1 se apagando.<\/p>\n\n\n\n<p>Atualmente, o prest\u00edgio universit\u00e1rio j\u00e1 n\u00e3o se constr\u00f3i com a gera\u00e7\u00e3o de conhecimento nem com a qualidade da sua transmiss\u00e3o, mas com os indicadores para o mercado. Essa din\u00e2mica tem for\u00e7ado as universidades a explorar seus docentes, transformando-os em instrumentos desse sistema. Eles s\u00e3o obrigados a dedicar mais tempo a tarefas burocr\u00e1ticas do que \u00e0 forma\u00e7\u00e3o; cumprem suas horas de ensino, mas n\u00e3o oferecem mais <em>insights<\/em> ou palestras. A \u201cvida acad\u00eamica\u201d \u00e9 consumida pela prepara\u00e7\u00e3o para avalia\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas e pelo preenchimento de formul\u00e1rios duplicados e triplicados, porque cada ag\u00eancia que apoia o sistema exige isso de forma diferente; a pesquisa cient\u00edfica ocupa apenas um tempo marginal.<\/p>\n\n\n\n<p>A redu\u00e7\u00e3o de recursos para pesquisa, a precariedade salarial, aposentadorias escassas e o n\u00famero ex\u00edguo de vagas para absorver novas gera\u00e7\u00f5es (um problema de dimens\u00f5es colossais por si s\u00f3), somados ao fato de as pr\u00f3prias universidades serem grandes organiza\u00e7\u00f5es, geram uma din\u00e2mica pol\u00edtica interna raramente vis\u00edvel: as lutas por poder dentro delas s\u00e3o acirradas. Grupos influentes, muitas vezes com credenciais acad\u00eamicas prec\u00e1rias, monopolizam cargos e distribuem os poucos recursos entre seus associados. O nepotismo \u00e9 fomentado e a l\u00f3gica da servid\u00e3o prevalece. Esse problema se agrava quando esses grupos t\u00eam v\u00ednculos com partidos pol\u00edticos. Para muitos \u201cacad\u00eamicos\u201d, a carreira universit\u00e1ria burocr\u00e1tica \u00e9 sua \u00fanica raz\u00e3o de ser; na maioria das vezes, verdadeiros acad\u00eamicos acabam sob o jugo de uma lideran\u00e7a med\u00edocre. E, com a din\u00e2mica do mercado, as universidades tamb\u00e9m se encheram de pessoas que se passam por \u201cprofessores\u201d sem voca\u00e7\u00e3o para o ensino, que veem a academia como um passatempo prestigioso.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Qual \u00e9 o futuro da universidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Em um mundo onde v\u00e1rios bilion\u00e1rios abandonaram a faculdade para criar novas empresas de tecnologia, ou na Am\u00e9rica Latina, onde a m\u00fasica popular exalta o dinheiro f\u00e1cil oferecido por atividades il\u00edcitas, pode-se acreditar que as universidades est\u00e3o em decl\u00ednio. O objetivo das universidades n\u00e3o \u00e9 criar riqueza, mas preservar e transmitir conhecimento \u00e0 humanidade. Seu papel \u00e9 expandir as capacidades intelectuais das pessoas, n\u00e3o apenas formar quadros para o mercado de trabalho, e se os diplomas universit\u00e1rios fossem in\u00fateis, ningu\u00e9m tentaria cometer fraude para obt\u00ea-los. Somente nas universidades podemos estudar e pesquisar livremente, analisar problemas e guiar a transforma\u00e7\u00e3o do mundo. Seus valores e import\u00e2ncia s\u00e3o intang\u00edveis e, justamente por isso, devem ser preservados para que possam continuar cumprindo suas fun\u00e7\u00f5es e se transformando sem perder sua ess\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As universidades latino-americanas atravessam uma profunda crise marcada por cortes or\u00e7ament\u00e1rios, perda de autonomia, degrada\u00e7\u00e3o acad\u00eamica e submiss\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica do mercado.<\/p>\n","protected":false},"author":188,"featured_media":52348,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16791,17129],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-52364","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-educacion-pt-br","8":"category-universidades-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52364","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/188"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52364"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52364\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52348"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52364"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52364"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52364"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=52364"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}