{"id":52408,"date":"2025-10-21T09:00:00","date_gmt":"2025-10-21T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=52408"},"modified":"2025-10-20T12:40:29","modified_gmt":"2025-10-20T15:40:29","slug":"sem-mulheres-nao-ha-multilateralismo-efetivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/sem-mulheres-nao-ha-multilateralismo-efetivo\/","title":{"rendered":"Sem mulheres n\u00e3o h\u00e1 multilateralismo efetivo"},"content":{"rendered":"\n<p>Em um mundo marcado por conflitos, desigualdade e desconfian\u00e7a institucional, o multilateralismo enfrenta um paradoxo: nunca foi t\u00e3o necess\u00e1rio e nunca foi t\u00e3o questionado. Enquanto os acordos internacionais s\u00e3o debatidos entre a fadiga das negocia\u00e7\u00f5es e a urg\u00eancia das solu\u00e7\u00f5es, um fato segue evidente: sem a participa\u00e7\u00e3o plena das mulheres, o multilateralismo carece de legitimidade, efic\u00e1cia e estabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Tr\u00eas d\u00e9cadas ap\u00f3s a Declara\u00e7\u00e3o e Plataforma de A\u00e7\u00e3o de Pequim, que foi um marco no reconhecimento dos direitos das mulheres, a dist\u00e2ncia entre o discurso e a realidade persiste. As mulheres n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 mais um grupo de interesse na arquitetura internacional; elas s\u00e3o metade da humanidade e, cada vez mais, metade de quem trabalham para sustentar a paz, a coopera\u00e7\u00e3o e o bem-estar coletivo. No entanto, os n\u00fameros revelam um desequil\u00edbrio not\u00f3rio. O \u00faltimo relat\u00f3rio da GWL Voices, <a href=\"https:\/\/www.gwlvoices.org\/resources\/women-in-multilateralism-2025-all-lanuages\">Mulheres no Multilateralismo<\/a>, constatou que, nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, s\u00f3 21% das representantes permanentes eram mulheres em 2024. Historicamente, apenas 7% dos mais de 2.800 representantes permanentes na ONU desde 1947 foram mulheres, e 19 das principais organiza\u00e7\u00f5es internacionais nunca tiveram uma mulher em seu cargo m\u00e1ximo de dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse panorama, na Ibero-Am\u00e9rica existe uma gera\u00e7\u00e3o de mulheres que est\u00e1 redefinindo a forma de entender e praticar o multilateralismo. O fazem a partir de minist\u00e9rios, organiza\u00e7\u00f5es internacionais, universidades, redes da sociedade civil e movimentos sociais. Elas falam diferentes idiomas e v\u00eam de diversas disciplinas, mas compartilham uma convic\u00e7\u00e3o comum: que a coopera\u00e7\u00e3o internacional deve servir para melhorar vidas concretas, n\u00e3o s\u00f3 para produzir declara\u00e7\u00f5es. Elas entendem que o sucesso do multilateralismo n\u00e3o se mede pelo n\u00famero de resolu\u00e7\u00f5es que adota, mas pela sua capacidade de traduzi-las em pol\u00edticas que promovam a paz e o desenvolvimento de forma tang\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O multilateralismo como pr\u00e1tica cotidiana<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Muitas vezes, o multilateralismo \u00e9 percebido como uma estrutura distante, um conjunto de institui\u00e7\u00f5es, c\u00fapulas e protocolos inacess\u00edveis. Mas, em seu sentido mais profundo, \u00e9 uma pr\u00e1tica: a capacidade de ouvir o outro, de encontrar pontos em comum nas diferen\u00e7as e de reconhecer que os problemas globais exigem solu\u00e7\u00f5es compartilhadas. Nessa pr\u00e1tica, as mulheres trazem uma perspectiva fundamental, ancorada na preven\u00e7\u00e3o, na coopera\u00e7\u00e3o e em uma vis\u00e3o integral da seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa vis\u00e3o transformou a diplomacia contempor\u00e2nea. As mulheres que hoje lideram agendas globais tendem a vincular os grandes objetivos \u00e0 vida real das pessoas. Nos processos de paz, a <a href=\"https:\/\/www.un.org\/fr\/desa\/we-need-more-women-leaders-sustain-peace-and-development\">evid\u00eancia<\/a> \u00e9 clara: quando as mulheres participam, os acordos t\u00eam 35% mais chances de durar ao menos quinze anos. Sem uma base s\u00f3lida de paz, qualquer esfor\u00e7o de desenvolvimento est\u00e1 fadado a ser inst\u00e1vel. O mesmo ocorre com as pol\u00edticas internacionais que integram a igualdade de g\u00eanero desde sua concep\u00e7\u00e3o e n\u00e3o como um acr\u00e9scimo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a lideran\u00e7a das mulheres ibero-americanas \u00e9 especialmente significativa. Durante as \u00faltimas d\u00e9cadas, a regi\u00e3o impulsionou sua participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ao mais alto n\u00edvel. O compromisso da maioria dos pa\u00edses latino-americanos com a ado\u00e7\u00e3o de sistemas de cotas explica, em grande medida, que a regi\u00e3o seja hoje a segunda do mundo com maior representa\u00e7\u00e3o feminina nos parlamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa regi\u00e3o tem sido historicamente um laborat\u00f3rio de coopera\u00e7\u00e3o, com mecanismos de di\u00e1logo pol\u00edtico e social que antecedem inclusive outras regi\u00f5es do mundo. Mas tamb\u00e9m tem sido um territ\u00f3rio de profundas desigualdades, onde as mulheres tiveram que abrir caminho em contextos complexos, sustentando comunidades, impulsionando redes e criando novas formas de diplomacia \u201ca partir de baixo\u201d. Desde as defensoras ambientais na Amaz\u00f4nia at\u00e9 as negociadoras de paz ou as acad\u00eamicas que contribuem com evid\u00eancias para as pol\u00edticas p\u00fablicas, as mulheres da Ibero-Am\u00e9rica est\u00e3o ampliando as fronteiras do multilateralismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, as mulheres trazem perspectivas amplas que enriquecem o debate global. As vozes das mulheres ind\u00edgenas, afrodescendentes, rurais e jovens s\u00e3o essenciais para construir uma coopera\u00e7\u00e3o mais representativa. Elas nos lembram que a coopera\u00e7\u00e3o e a solidariedade n\u00e3o podem ser apenas entre Estados, mas tamb\u00e9m entre povos; n\u00e3o apenas entre governos, mas entre comunidades que enfrentam desafios comuns em contextos diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os desafios que persistem na regi\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Apesar dos avan\u00e7os, persistem barreiras culturais e regulat\u00f3rias que dificultam a plena inclus\u00e3o das mulheres. A representa\u00e7\u00e3o em n\u00edvel local, por exemplo, continua sendo uma quest\u00e3o pendente: apenas 16% das <a href=\"https:\/\/oig.cepal.org\/es\">prefeituras<\/a> s\u00e3o ocupadas por mulheres. \u00c9 crucial concentrar os esfor\u00e7os nessa \u00e1rea, onde as decis\u00f5es t\u00eam um impacto direto na vida cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro grande obst\u00e1culo \u00e9 a viol\u00eancia pol\u00edtica, um fen\u00f4meno que a Ibero-Am\u00e9rica foi pioneira em identificar e legislar, mas que continua a dificultar a participa\u00e7\u00e3o de muitas mulheres. Os n\u00edveis de viol\u00eancia na regi\u00e3o continuam alarmantes: quase 80% das <a href=\"https:\/\/lac.unwomen.org\/es\/stories\/noticia\/2024\/10\/casi-el-80-por-ciento-de-las-mujeres-politicas-encuestadas-ha-sufrido-o-presenciado-violencia-de-genero\">mulheres pol\u00edticas<\/a> relatam ter sofrido ou testemunhado alguma forma de viol\u00eancia. Soma-se a isso a distribui\u00e7\u00e3o desigual do trabalho n\u00e3o remunerado. As tarefas de cuidado, historicamente invis\u00edveis, recaem desproporcionalmente sobre elas, que dedicam em m\u00e9dia tr\u00eas vezes mais tempo do que os homens a essas tarefas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Rumo a um futuro de plena participa\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A quest\u00e3o, ent\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 se as mulheres devem estar presentes no sistema multilateral e nas decis\u00f5es, mas sim como garantir sua participa\u00e7\u00e3o plena e sustentada. Isso requer ao menos tr\u00eas transforma\u00e7\u00f5es fundamentais:<\/p>\n\n\n\n<p>Primeiro, reconhecer a lideran\u00e7a das mulheres como parte estrutural do sistema. Isso implica promover a paridade nas organiza\u00e7\u00f5es internacionais, abrir espa\u00e7os para forma\u00e7\u00e3o e mentoria e garantir condi\u00e7\u00f5es que permitam a todos conciliar a lideran\u00e7a com a vida pessoal e familiar.<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo, fortalecer as redes de coopera\u00e7\u00e3o entre mulheres de distintas regi\u00f5es e disciplinas. A experi\u00eancia acumulada na Ibero-Am\u00e9rica, de resist\u00eancia, inova\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo, pode nutrir os processos globais. As alian\u00e7as Sul-Sul e a coopera\u00e7\u00e3o ibero-americana s\u00e3o catalisadores de uma nova diplomacia, mais horizontal e emp\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>E terceiro, traduzir a igualdade em resultados concretos. N\u00e3o basta ter mulheres na mesa de negocia\u00e7\u00f5es; deve-se reconhecer e documentar o impacto de suas decis\u00f5es sobre paz, educa\u00e7\u00e3o e economia. A igualdade deve ser um princ\u00edpio, um m\u00e9todo de trabalho, que permeie todo o ciclo de pol\u00edticas p\u00fablicas e acordos internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>O futuro do multilateralismo depender\u00e1 de sua capacidade de se reinventar. A experi\u00eancia e a lideran\u00e7a das mulheres s\u00e3o essenciais para construir uma ordem internacional mais cooperativa e eficaz. Suas vozes n\u00e3o s\u00f3 exigem um lugar; elas est\u00e3o transformando o modo como entendemos a coopera\u00e7\u00e3o. Elas nos lembram que o multilateralismo n\u00e3o se sustenta em tratados, mas na confian\u00e7a. Que a paz n\u00e3o se assina, se constr\u00f3i. E que a igualdade n\u00e3o \u00e9 um destino, mas um modo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>O multilateralismo sem mulheres n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 incompleto: \u00e9 ineficaz. E o mundo, hoje mais do que nunca, necessita de toda a sua intelig\u00eancia, de sua experi\u00eancia e de sua voz.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Este texto faz parte da colabora\u00e7\u00e3o entre a Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Ibero-americanos para a Educa\u00e7\u00e3o, a Ci\u00eancia e a Cultura (OEI) e a Latinoamerica21 para a difus\u00e3o da plataforma Vozes das Mulheres Ibero-americanas. Conhe\u00e7a e junte-se \u00e0 plataforma <\/sub><\/em><a href=\"https:\/\/vocesdemujeres.com\/sign-up-expert\"><sub><em>AQUI<\/em><\/sub><\/a><em><sub>.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um mundo que exige coopera\u00e7\u00e3o global, excluir as mulheres da tomada de decis\u00f5es internacionais n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 injusto: \u00e9 ineficiente e enfraquece as pr\u00f3prias bases do multilateralismo.<\/p>\n","protected":false},"author":819,"featured_media":52401,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16741,16762],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-52408","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-mujeres-pt-br","8":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52408","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/819"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52408"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52408\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52401"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52408"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52408"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52408"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=52408"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}