{"id":52548,"date":"2025-10-28T15:00:00","date_gmt":"2025-10-28T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=52548"},"modified":"2025-10-27T12:02:14","modified_gmt":"2025-10-27T15:02:14","slug":"da-lacuna-de-genero-ao-vies-algoritmico-chaves-para-uma-ia-inclusiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/da-lacuna-de-genero-ao-vies-algoritmico-chaves-para-uma-ia-inclusiva\/","title":{"rendered":"Da lacuna de g\u00eanero ao vi\u00e9s algor\u00edtmico: chaves para uma IA inclusiva"},"content":{"rendered":"\n<p>A intelig\u00eancia artificial \u00e9 uma tecnologia que est\u00e1 reconfigurando a vida social, econ\u00f4mica e cultural em tempo real. Na Am\u00e9rica Latina, sua ado\u00e7\u00e3o avan\u00e7a r\u00e1pido, mas em terreno irregular: com grandes lacunas de acesso, baixa alfabetiza\u00e7\u00e3o digital e debates regulat\u00f3rios estagnados. Em um contexto de diferentes desigualdades estruturais sobrepostas, a quest\u00e3o urgente n\u00e3o \u00e9 se a regi\u00e3o est\u00e1 preparada para essa onda tecnol\u00f3gica, mas quem ficar\u00e1 de fora e quem arcar\u00e1 com os maiores custos. As mulheres, especialmente as mais pobres, racializadas e rurais, correm o risco de ser as grandes perdedoras dessa revolu\u00e7\u00e3o se perspectivas feministas n\u00e3o forem incorporadas desde a concep\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas e tecnol\u00f3gicas. Nesse contexto, surge a pergunta: que tipo de IA queremos para n\u00f3s?<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa que a IA n\u00e3o traga oportunidades reais. H\u00e1 vis\u00f5es sens\u00edveis, mas ao mesmo tempo otimistas, que sustentam que a intelig\u00eancia artificial abre oportunidades de trabalho hist\u00f3ricas para as mulheres. Por exemplo, ferramentas como ChatGPT ou Gemini permitem entrar em projetos tecnol\u00f3gicos sem precisar de nove meses de capacita\u00e7\u00e3o em programa\u00e7\u00e3o. E isso pode ser uma oportunidade de democratizar o acesso das mulheres \u00e0s carreiras tecnol\u00f3gicas. Em um continente onde s\u00f3 28% dos empregos em tecnologia s\u00e3o ocupados por mulheres, segundo dados do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a IA pode funcionar como uma porta de entrada para a autonomia econ\u00f4mica e para empregos melhor remunerados, especialmente para mulheres em contextos de precariedade laboral.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas essas oportunidades n\u00e3o s\u00e3o universais. Segundo a Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para a Am\u00e9rica Latina e o Caribe (CEPAL), 32% das mulheres da regi\u00e3o n\u00e3o t\u00eam acesso regular \u00e0 internet e a diferen\u00e7a aumenta para 42% entre as mulheres rurais. Em muitos lares do continente, o celular n\u00e3o \u00e9 um dispositivo pessoal, mas compartilhado; e quando \u00e9 preciso priorizar quem o usa, a resposta costuma ser previs\u00edvel. Sabemos que, em ambientes rurais, as mulheres continuam sem ter um celular pr\u00f3prio. Portanto, vale a pena sustentar, como mencionou uma especialista em direitos digitais, que falar de intelig\u00eancia artificial dessa forma, sem discutir a desigualdade digital, \u00e9 fingir que todas partimos do mesmo lugar.<\/p>\n\n\n\n<p>A essa lacuna material se soma outra menos vis\u00edvel, mas igualmente grave: a lacuna de representatividade no desenvolvimento tecnol\u00f3gico. Como vem sendo sustentado, como a IA aprende com o mundo por meio de dados, e esses dados est\u00e3o carregados de preconceitos machistas, racistas ou classistas, ent\u00e3o a IA reproduz e amplifica as discrimina\u00e7\u00f5es. N\u00e3o \u00e9 teoria: h\u00e1 alguns anos, em 2018, foi documentado que o sistema de contrata\u00e7\u00e3o automatizado da Amazon descartava automaticamente curr\u00edculos de mulheres porque havia sido treinado com dados de funcion\u00e1rios homens. Tamb\u00e9m temos exemplos preocupantes sobre o acesso ao cr\u00e9dito que funcionam com modelos algor\u00edtmicos opacos que penalizam trajet\u00f3rias profissionais intermitentes, algo comum em mulheres devido \u00e0s tarefas de cuidados. O que poderia parecer falta de compromisso \u00e9, na verdade, uma manifesta\u00e7\u00e3o de desigualdade estrutural. \u00c9 claro que esses casos mostram que o problema vem da hist\u00f3ria de desigualdades que o algoritmo encontrou nos dados que o alimentavam.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez o campo em que a IA surgiu de forma nociva para as mulheres seja o da viol\u00eancia digital. Hoje, os chamados deep fakes s\u00e3o uma nova ferramenta para produzir agress\u00f5es baseadas em g\u00eanero: v\u00eddeos falsos que sexualizam rostos de mulheres sem seu consentimento, \u00e1udios fraudulentos, campanhas de difama\u00e7\u00e3o digital. Estima-se que 90% dos deep fakes na internet tenham conte\u00fado sexual n\u00e3o consentido e que 95% deles afetem mulheres. Essa amea\u00e7a impacta jornalistas, docentes, ativistas e adolescentes que foram v\u00edtimas de extors\u00e3o e ass\u00e9dio atrav\u00e9s de imagens fabricadas. A IA, sem regulamenta\u00e7\u00e3o ou responsabilidade, pode se tornar um amplificador tecnol\u00f3gico das viol\u00eancias que tentamos mitigar.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas, se as mulheres est\u00e3o sub-representadas no desenvolvimento tecnol\u00f3gico, elas tamb\u00e9m est\u00e3o criando alternativas cr\u00edticas. Um exemplo \u00e9 OlivIA, uma ferramenta de intelig\u00eancia artificial criada no ecossistema do ChatGPT, impulsionada pela advogada e comunicadora feminista argentina Ana Correa. OlivIA funciona como uma IA intervencionista: detecta vieses de g\u00eanero em textos, pol\u00edticas, discursos ou conte\u00fados e prop\u00f5e perguntas cr\u00edticas. Encontramos perguntas que a solu\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica nos convida a fazer: n\u00e3o est\u00e1 deixando algu\u00e9m de fora? Verificou se os sintomas da doen\u00e7a mudam entre mulheres e homens? Quem narra essa hist\u00f3ria e quem est\u00e1 ausente? Essa tecnologia se inspira em metodologias da teoria jur\u00eddica feminista, em particular a chamada \u201cpergunta pela mulher\u201d de Katharine Bartlett, e foi treinada com marcos de direitos humanos e debates sobre justi\u00e7a de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>O relevante da OlivIA \u00e9 que \u00e9 uma aposta em questionar a abordagem da neutralidade tecnol\u00f3gica, ou seja, aquela que pretende evitar preconceitos. Porque, na realidade, quando partimos da experi\u00eancia das a\u00e7\u00f5es afirmativas, sabemos que precisamos expor os preconceitos existentes, em vez de ocult\u00e1-los.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, os Estados n\u00e3o est\u00e3o respondendo com a velocidade necess\u00e1ria. A Am\u00e9rica Latina continua atrasada em mat\u00e9ria de regulamenta\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial. A Uni\u00e3o Europeia aprovou a Lei de IA para estabelecer limites \u00e9ticos ao uso da IA, mas ainda n\u00e3o h\u00e1 um marco comum na regi\u00e3o nem pol\u00edticas integrais de prote\u00e7\u00e3o. E h\u00e1 preocupa\u00e7\u00f5es sobre a transpar\u00eancia no uso dessas tecnologias e sobre por quanto tempo vamos confiar na autorregula\u00e7\u00e3o empresarial.<\/p>\n\n\n\n<p>Organismos como as Na\u00e7\u00f5es Unidas t\u00eam apelado especificamente para a incorpora\u00e7\u00e3o de uma abordagem de g\u00eanero na governan\u00e7a da IA, a fim de prevenir a reprodu\u00e7\u00e3o da viol\u00eancia digital e das desigualdades. Ent\u00e3o, que tipo de intelig\u00eancia artificial queremos para a Am\u00e9rica Latina? \u00c9 urgente colocar a IA na agenda p\u00fablica e n\u00e3o sermos usu\u00e1rios e usu\u00e1rias passivos. Se n\u00e3o discutirmos isso, algu\u00e9m o far\u00e1 por n\u00f3s. E se esse futuro for projetado sem n\u00f3s, ele tamb\u00e9m decidir\u00e1 por n\u00f3s.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A revolu\u00e7\u00e3o da intelig\u00eancia artificial enfrenta seu pr\u00f3prio espelho: os algoritmos tamb\u00e9m herdam os vieses e as desigualdades da sociedade que os cria, e compreender isso \u00e9 fundamental para construir uma IA verdadeiramente inclusiva.<\/p>\n","protected":false},"author":822,"featured_media":52532,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17078,16782],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-52548","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-inteligencia-artificial-pt-br","8":"category-genero-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52548","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/822"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52548"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52548\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52532"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52548"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52548"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52548"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=52548"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}