{"id":52837,"date":"2025-11-10T15:00:00","date_gmt":"2025-11-10T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=52837"},"modified":"2025-11-10T10:43:17","modified_gmt":"2025-11-10T13:43:17","slug":"o-retorno-dos-vinculos-minimos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-retorno-dos-vinculos-minimos\/","title":{"rendered":"O retorno dos v\u00ednculos m\u00ednimos"},"content":{"rendered":"\n<p>A internet nasceu como uma promessa de conex\u00e3o. Duas d\u00e9cadas depois, parece mais um campo de batalha: um espa\u00e7o de discursos em conflito, de identidades opostas, de polariza\u00e7\u00e3o permanente. No entanto, entre o ru\u00eddo e o algoritmo, come\u00e7am a surgir pequenas comunidades que devolvem algo que acredit\u00e1vamos perdido: a capacidade de estarmos juntos, mesmo que de forma m\u00ednima, ir\u00f4nica ou ritual\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio ao cansa\u00e7o da exposi\u00e7\u00e3o e da fragmenta\u00e7\u00e3o, certos espa\u00e7os digitais funcionam como ref\u00fagios simb\u00f3licos. N\u00e3o s\u00e3o grupos ideol\u00f3gicos ou militantes e, sem querer, se tornaram nichos de afeto, humor e reconhecimento m\u00fatuo. Lugares onde a presen\u00e7a \u2014 esse simples ato de aparecer, comentar, participar \u2014 se transforma em uma forma de <strong>micropol\u00edtica do afeto<\/strong>, uma pr\u00e1tica de <strong>resist\u00eancia m\u00ednima<\/strong> contra a solid\u00e3o digital e a polariza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O retorno do ritual na era digital<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Byung-Chul Han sustenta que a modernidade tardia eliminou os rituais: os gestos repetitivos essenciais para dar estabilidade \u00e0 vida, coesionar as comunidades e transmitir valores compartilhados. \u201cApesar das redes sociais, estamos mais sozinhos do que nunca\u201d. O auge da comunica\u00e7\u00e3o digital sem pausa permitiu conectar muitas pessoas, mas sem criar rela\u00e7\u00f5es duradouras; o indiv\u00edduo se sente desorientado e inibido, sempre com a possibilidade latente de ser repreendido ou cancelado nas plataformas online.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas talvez os rituais n\u00e3o tenham desaparecido completamente, mas estejam se reinventando nos lugares menos esperados. Os algoritmos, com sua insist\u00eancia na repeti\u00e7\u00e3o, no ciclo e na espera, parecem ter gerado novas liturgias digitais. Cada reel, cada coment\u00e1rio, cada presen\u00e7a reiterada funciona como um pequeno ritual contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Laborat\u00f3rios do algoritmo: dois casos argentinos<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>De Ros\u00e1rio, uma jovem mostra modelos de roupas em sua conta no Instagram, <strong>@cofco.shoes<\/strong>. \u00c0 primeira vista, \u00e9 mais uma vitrine comercial. Mas, por baixo de cada v\u00eddeo, ocorre algo incomum. Uma comunidade de homens comenta com um c\u00f3digo pr\u00f3prio \u2014 absurdo, cativante, po\u00e9tico: \u201cDeixo aqui o cronograma da F\u00f3rmula 1.\u201d \u201cOl\u00e1, pessoal, amanh\u00e3 tem truco no Jorgito.\u201d \u201cVou ser pai de novo.\u201d N\u00e3o h\u00e1 ass\u00e9dio nem sarcasmo, mas sim um jogo compartilhado. Um humor terno que funciona como uma senha afetiva. Ningu\u00e9m fala sobre os produtos oferecidos, mas todos entendem por que est\u00e3o l\u00e1: esperam para dar seu presente em uma solidariedade t\u00e1cita e ir\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>De Buenos Aires, <strong>@bacaraok<\/strong>, uma pequena empresa familiar de alfajores, protagoniza um fen\u00f4meno espelho. L\u00e1, dois irm\u00e3os apresentam seus produtos com uma simpatia simples. Desta vez, por\u00e9m, s\u00e3o mulheres que comentam, com descaramento e cumplicidade. \u201cN\u00e3o consegui ouvir direito, meus olhos ficaram confusos\u201d. \u201cPreciso provar o produto para ver se gosto do alfajor\u201d. O tom \u00e9 humor\u00edstico, brincalh\u00e3o, coral: uma ironia que, se viesse de uma comunidade masculina, provavelmente seria censurada. N\u00e3o h\u00e1 competi\u00e7\u00e3o entre elas; elas se celebram mutuamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Na <strong>Cofco<\/strong>, os homens suavizam o desejo; na <strong>Bacar\u00e1<\/strong>, as mulheres o celebram. Em ambos os casos, constr\u00f3i-se uma comunidade afetiva que subverte as l\u00f3gicas habituais do consumo e do g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Linguagem, desejo e performance<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As plataformas digitais se tornaram <strong>palcos de comunidades perform\u00e1ticas<\/strong>. N\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 espa\u00e7os de interc\u00e2mbio simb\u00f3lico, mas laborat\u00f3rios onde se ensaiam modos poss\u00edveis de v\u00ednculo. Se, como advertia Erving Goffman, toda vida social requer uma encena\u00e7\u00e3o, as redes amplificam essa dramaturgia at\u00e9 torn\u00e1-la muitas vezes uma forma primordial de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Goffman aponta que cada intera\u00e7\u00e3o social \u00e9 uma encena\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se comunica s\u00f3 uma informa\u00e7\u00e3o: interpreta-se um papel, sustenta-se uma imagem. No ecossistema digital, essa dramaturgia cotidiana adquire outra forma: cada coment\u00e1rio, cada emoji \u00e9 uma pequena performance. Repeti\u00e7\u00f5es, ironias, interven\u00e7\u00f5es breves implicam uma presen\u00e7a na cena www, mas n\u00e3o cara a cara.<\/p>\n\n\n\n<p>Roland Barthes observava que a linguagem do amor n\u00e3o \u00e9 transparente, mas el\u00edptica: \u00e9 feita de sil\u00eancios, de rodeios, de signos flutuantes. A presen\u00e7a repetida \u2014 aquele \u201cestou aqui, como&nbsp; segunda\u201d \u2014 funciona como uma declara\u00e7\u00e3o dissimulada, uma forma de perman\u00eancia emocional na era da fugacidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O afeto como infraestrutura<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Lauren Berlant fala de espa\u00e7os de apego e identifica\u00e7\u00e3o, onde o pertencimento \u00e9 constru\u00eddo atrav\u00e9s do afeto mais do que da ideologia. As comunidades digitais muitas vezes funcionam assim: n\u00e3o s\u00e3o organiza\u00e7\u00f5es nem coletivos, mas permitem um sentimento de pertencimento e um tipo de cuidado difuso, afetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesses casos, o afeto se manifesta na espera. Na <strong>Cofco<\/strong>, os homens aguardam cada v\u00eddeo como quem espera uma visita querida. Na <strong>Bacar\u00e1<\/strong>, as mulheres se re\u00fanem entre risadas. S\u00e3o presen\u00e7as ef\u00eameras, mas reiteradas no tempo. \u00c9 justamente na repeti\u00e7\u00e3o que se produz o v\u00ednculo: o algoritmo, sem querer, encontra padr\u00f5es que ningu\u00e9m consegue explicar e une pessoas por meio de uma sensibilidade compartilhada.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Micropol\u00edtica do afeto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto a conversa digital global se polariza, surgem zonas cinzentas de conviv\u00eancia afetiva. Em vez de debate ou confronto, h\u00e1 jogo. Em vez de solenidade, h\u00e1 cumplicidade. Nesses espa\u00e7os, o humor funciona como micropol\u00edtica de fuga para um lugar de cumplicidade compartilhada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nancy Fraser lembrava que as lutas por reconhecimento s\u00e3o t\u00e3o pol\u00edticas quanto as lutas por redistribui\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, o que ocorre na <strong>Cofco<\/strong> ou na <strong>Bacar\u00e1<\/strong> n\u00e3o \u00e9 banal: s\u00e3o cenas de reconhecimento m\u00fatuo em tempos de desencanto coletivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um ambiente saturado de \u201ccurtidas\u201d vazias e discursos hostis e polarizadores, esses pequenos rituais de coment\u00e1rios e presen\u00e7a s\u00e3o gestos de resist\u00eancia suave. N\u00e3o buscam consenso nem \u00e9pica: apenas sustentar uma comunidade m\u00ednima. Mas \u00e9 a\u00ed que reside seu poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez, no fluxo cont\u00ednuo do digital, a Internet esteja produzindo, sem saber, espa\u00e7os para uma nova sociabilidade: uma que n\u00e3o depende do acordo ideol\u00f3gico nem busca possuir ou convencer, mas simplesmente estar; uma sociabilidade que n\u00e3o se baseia na raz\u00e3o, mas no afeto. Nas margens do consumo, em cantos escondidos das redes, persistem os impulsos de encontro, empatia e comunidade que sustentam os la\u00e7os sociais.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em meio \u00e0 polariza\u00e7\u00e3o digital, pequenas comunidades nas redes sociais reinventam rituais e criam v\u00ednculos afetivos m\u00ednimos que desafiam a solid\u00e3o contempor\u00e2nea.<\/p>\n","protected":false},"author":487,"featured_media":52832,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16795],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-52837","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-redes-sociales-es-pt-br","8":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52837","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/487"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52837"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52837\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52832"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52837"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52837"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52837"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=52837"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}