{"id":52881,"date":"2025-11-12T09:00:00","date_gmt":"2025-11-12T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=52881"},"modified":"2025-11-11T15:36:44","modified_gmt":"2025-11-11T18:36:44","slug":"as-cupulas-entre-ue-e-celac-sao-absoletas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-cupulas-entre-ue-e-celac-sao-absoletas\/","title":{"rendered":"As c\u00fapulas entre UE e CELAC s\u00e3o absoletas?"},"content":{"rendered":"\n<p>A c\u00fapula UE-CELAC deixou uma impress\u00e3o agridoce. Por um lado, foi marcada por numerosas aus\u00eancias: s\u00f3 alguns chefes de governo europeus e latino-americanos viajaram para Santa Marta. Por outro lado, o mero fato da c\u00fapula ter sido realizada e da declara\u00e7\u00e3o final ter refletido um consenso b\u00e1sico em muitos temas da pol\u00edtica internacional j\u00e1 pode ser considerado um \u00eaxito. No entanto, essa declara\u00e7\u00e3o contribui pouco em termos de novidades substantivas. Nesse sentido, cabe questionar at\u00e9 que ponto essas c\u00fapulas seguem sendo \u00fateis e necess\u00e1rias para a coopera\u00e7\u00e3o entre a UE e a Am\u00e9rica Latina. O desfecho aparentemente conciliador da c\u00fapula disfar\u00e7a problemas e desafios mais profundos que persistem na rela\u00e7\u00e3o birregional.<\/p>\n\n\n\n<p>A <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-iv-cupula-ue-celac-alianca-pragmatica-ou-acordo-de-valores\/\">IV C\u00fapula UE-CELAC<\/a> foi claramente marcada por aus\u00eancias. Nem Macron, nem Merz, nem Meloni, nem a presidente da Comiss\u00e3o Europeia, Ursula von der Leyen, estiveram presentes. No caso dos l\u00edderes europeus, pode-se argumentar que sua aus\u00eancia se deveu \u00e0 dist\u00e2ncia e \u00e0s dificuldades log\u00edsticas para chegar a Santa Marta \u2014 basta mencionar que o presidente do governo espanhol, Pedro S\u00e1nchez, teve que trocar de avi\u00e3o em Barranquilla, pois a pista local n\u00e3o permitia o pouso de sua aeronave. No entanto, ainda mais reveladora \u00e9 a aus\u00eancia de v\u00e1rios mandat\u00e1rios latino-americanos. De certo modo, foi Lula quem acabou salvando a imagem de seu hom\u00f3logo colombiano com sua participa\u00e7\u00e3o na c\u00fapula. Paradoxalmente, havia mais chefes de Estado latino-americanos na cerim\u00f4nia de posse do novo presidente boliviano, realizada apenas um dia antes do encontro em Santa Marta. Esse contraste ilustra claramente o limitado poder de convoca\u00e7\u00e3o do presidente Petro na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem m\u00faltiplos fatores que explicam a limitada participa\u00e7\u00e3o de chefes de governo europeus na IV C\u00fapula UE-CELAC em Santa Marta (Col\u00f4mbia). Em primeiro lugar, a proximidade temporal com a COP-30 em Bel\u00e9m reduziu a disponibilidade de v\u00e1rios l\u00edderes europeus, que evitaram prolongar sua estadia na Am\u00e9rica Latina. No plano pol\u00edtico-diplom\u00e1tico, o anfitri\u00e3o, o presidente Gustavo Petro, gerou reservas em v\u00e1rias capitais europeias devido ao seu estilo pouco diplom\u00e1tico, sua ret\u00f3rica confrontadora e seu confronto com o governo Trump. Foi sintom\u00e1tico que o presidente franc\u00eas Macron participasse da COP-30 em Bel\u00e9m e n\u00e3o viajasse posteriormente para Santa Marta, embora tenha feito escala no M\u00e9xico antes de retornar \u00e0 Fran\u00e7a, para dar um novo impulso \u00e0s rela\u00e7\u00f5es bilaterais entre o M\u00e9xico e a Fran\u00e7a. Por sua vez, a presidente mexicana Sheinbaum tamb\u00e9m n\u00e3o compareceu \u00e0 c\u00fapula UE-CELAC.<\/p>\n\n\n\n<p>Como observou o presidente do Brasil, Lula, em seu discurso de abertura da c\u00fapula: \u201cA Am\u00e9rica Latina e o Caribe vivem uma profunda crise em seu projeto de integra\u00e7\u00e3o. Voltamos a ser uma regi\u00e3o balcanizada e dividida, mais voltada para o exterior do que para si mesma\u201d. Se observarmos a declara\u00e7\u00e3o final da c\u00fapula, percebe-se muito mais desuni\u00e3o no lado latino-americano e caribenho do que no europeu. Enquanto os 27 governos europeus assinaram a declara\u00e7\u00e3o conjunta, no lado latino-americano houve dois pa\u00edses que se recusaram a faz\u00ea-lo: Nicar\u00e1gua e Venezuela. No caso da Nicar\u00e1gua, o governo justificou sua decis\u00e3o com uma refer\u00eancia expl\u00edcita ao par\u00e1grafo que defende o fim da guerra em curso contra a Ucr\u00e2nia. Embora a recusa da Nicar\u00e1gua e da Venezuela em assinar a declara\u00e7\u00e3o ilustre o isolamento de ambos os regimes na regi\u00e3o, tamb\u00e9m houve outras vozes dissidentes que refletem a falta de consenso regional e as posi\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas divergentes entre os governos latino-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>Sete pa\u00edses \u2014 Argentina, Costa Rica, Equador, El Salvador, Panam\u00e1, Paraguai e Trinidad e Tobago \u2014 se distanciaram do par\u00e1grafo 10, que faz refer\u00eancia ao \u201crespeito m\u00fatuo e ao pleno cumprimento do direito internacional, inclusive na luta contra o crime organizado transnacional e o tr\u00e1fico il\u00edcito de drogas\u201d; cinco se afastaram do par\u00e1grafo que menciona o \u201cembargo econ\u00f4mico, comercial e financeiro imposto contra Cuba\u201d; e quatro do par\u00e1grafo que alude ao conflito em Gaza. Houve tamb\u00e9m outros desacordos, sendo a Argentina o pa\u00eds com o maior n\u00famero de observa\u00e7\u00f5es ao texto consensual, com um total de sete.<\/p>\n\n\n\n<p>Por tr\u00e1s da baixa participa\u00e7\u00e3o de chefes de Estado na c\u00fapula UE-CELAC surge uma quest\u00e3o mais fundamental: as c\u00fapulas birregionais de alto n\u00edvel s\u00e3o realmente necess\u00e1rias? Para que servem? Al\u00e9m da c\u00fapula em si, foram realizados encontros paralelos entre empres\u00e1rios e representantes da sociedade civil. No entanto, esse tipo de atividade tamb\u00e9m poderia ser realizado sem a necessidade de uma c\u00fapula de chefes de Estado e de governo. O mesmo pode ser dito das reuni\u00f5es ministeriais em \u00e1reas de interesse comum, nas quais n\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel \u2014 nem necessariamente \u00fatil \u2014 que todos os governos de ambos os lados do Atl\u00e2ntico participem.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma perspectiva europeia, a Am\u00e9rica Latina, como regi\u00e3o, \u00e9 demasiada heterog\u00eanea para que todos os seus pa\u00edses se enquadrem em um mesmo modelo. Com alguns, existem interesses econ\u00f4micos e estrat\u00e9gicos comuns, enquanto com outros, esses interesses s\u00e3o muito limitados, e as suas pol\u00edticas podem ser percebidas como contr\u00e1rias aos interesses geopol\u00edticos e geoecon\u00f4micos europeus. Neste contexto, as c\u00fapulas tornam-se frequentemente complicadas e transformam-se num pesadelo para alcan\u00e7ar declara\u00e7\u00f5es comuns, que, em \u00faltima an\u00e1lise, s\u00f3 refletem o m\u00ednimo denominador comum.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria muito mais eficaz focar o di\u00e1logo birregional em parceiros de elevado valor estrat\u00e9gico, bem como naqueles em que existe um amplo consenso sobre quest\u00f5es fundamentais da pol\u00edtica internacional. Em tempos de regresso da pol\u00edtica de poder, interven\u00e7\u00f5es e amea\u00e7as militares, e guerras comerciais, de uma perspectiva europeia, a refer\u00eancia a valores comuns e \u00e0 virtude do \u201cpoder brando\u201d deve ser complementada por uma pol\u00edtica centrada nos interesses geopol\u00edticos e na dimens\u00e3o coerciva do poder, tanto econ\u00f4mico como militar \u2013 incluindo a coopera\u00e7\u00e3o entre as ind\u00fastrias de defesa. Desta perspectiva, \u00e9 oportuno que a Europa amplie e intensifique o seu di\u00e1logo de seguran\u00e7a com a Am\u00e9rica Latina, embora este compromisso n\u00e3o se estenda necessariamente a todos os pa\u00edses da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, faz sentido priorizar parceiros com os quais existam parcerias estrat\u00e9gicas, como M\u00e9xico e Brasil, bem como aqueles com acordos de associa\u00e7\u00e3o bilaterais, como no caso de M\u00e9xico e Chile. Tamb\u00e9m seria conveniente privilegiar o di\u00e1logo com organiza\u00e7\u00f5es regionais que tenham acordos de associa\u00e7\u00e3o com a UE e uma estrutura institucional mais s\u00f3lida do que a CELAC, incluindo, num futuro pr\u00f3ximo, e segundo se espera, tamb\u00e9m o Mercosul. Isso pressup\u00f5e, como condi\u00e7\u00e3o, que a UE adote decis\u00f5es de pol\u00edtica comercial que traduzam seu discurso geopol\u00edtico e geoecon\u00f4mico em pr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crescentes aus\u00eancias e divis\u00f5es em ambos os lados do Atl\u00e2ntico levantam d\u00favidas sobre se as c\u00fapulas UE-CELAC continuam sendo um instrumento \u00fatil para a coopera\u00e7\u00e3o birregional.<\/p>\n","protected":false},"author":70,"featured_media":52860,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16832,16762],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-52881","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-union-europea-es-pt-br","8":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52881","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/70"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52881"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52881\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52860"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52881"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52881"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52881"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=52881"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}