{"id":5304,"date":"2021-05-09T05:45:00","date_gmt":"2021-05-09T08:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5304"},"modified":"2021-05-06T04:33:11","modified_gmt":"2021-05-06T07:33:11","slug":"a-humanizacao-dos-processos-migratorios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-humanizacao-dos-processos-migratorios\/","title":{"rendered":"A humaniza\u00e7\u00e3o dos processos migrat\u00f3rios"},"content":{"rendered":"\n<p>O deslocamento de pessoas pelo espa\u00e7o geogr\u00e1fico, de forma tempor\u00e1ria ou permanente, \u00e9 parte intr\u00ednseca da hist\u00f3ria da humanidade. N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno, uma a\u00e7\u00e3o espor\u00e1dica, algo externo. \u00c9 um processo constitutivo. A vis\u00e3o desse vai-e-vem \u00e9 estrat\u00e9gica para compreendermos as mais variadas realidades e transforma\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Dados da Organiza\u00e7\u00e3o Internacional para as Migra\u00e7\u00f5es (<a href=\"https:\/\/news.un.org\/pt\/story\/2019\/11\/1696031\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">OIM) mostram que, entre 1970 e 2019, o n\u00famero estimado de imigrantes pelo mundo passou de 85 milh\u00f5es para 272 milh\u00f5es de pessoas<\/a>, aproximadamente. Tal quantidade j\u00e1 superou as proje\u00e7\u00f5es feitas para o ano de 2050, que estimavam algo em torno de 230 milh\u00f5es de pessoas vivendo fora de seus locais de origem. Na regi\u00e3o da Am\u00e9rica Latina e Caribe, dados de 2017 mostram que 37 milh\u00f5es de pessoas viviam fora de seus pa\u00edses, enquanto que, na virada do s\u00e9culo, o continente registrava 5,9 milh\u00f5es de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre tantos n\u00fameros, \u00e9 curioso perceber dois aspectos bem pontuais. O primeiro \u00e9 que os atuais 272 milh\u00f5es de deslocados correspondem a apenas 3,5% da popula\u00e7\u00e3o do planeta. No caso da Am\u00e9rica Latina e Caribe,&nbsp;o n\u00famero de emigrantes corresponde a 6,21% da popula\u00e7\u00e3o, se levarmos em conta a quantidade de habitantes do continente em 2010 que era de 596,2 milh\u00f5es, segundo a Comiss\u00e3o Econ\u00f4mica para Am\u00e9rica Latina e Caribe da ONU (Cepal). J\u00e1 o de imigrantes atinge 1% da popula\u00e7\u00e3o, arredondando para cima.<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo \u00e9 que, mesmo com dados estat\u00edsticos considerados baixos frente a tantos problemas que assolam o mundo, o impacto dos deslocamentos humanos \u00e9 ineg\u00e1vel no imagin\u00e1rio social e na pr\u00f3pria cobertura midi\u00e1tica. H\u00e1 sempre uma opini\u00e3o formada e, via de regra, pol\u00eamica e intransigente, sobre o fluxo de imigrantes venezuelanos para a Col\u00f4mbia, ou mesmo para o Brasil (via Pacaraima), intensificado desde 2015; sobre a separa\u00e7\u00e3o de pais e filhos de imigrantes latinos no auge do governo Donald Trump e, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/en\/migrant-caravans-crisis-without-end\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">as caravanas de pessoas oriundas de El Salvador, Nicar\u00e1gua Guatemala rumo \u00e0 fronteira do M\u00e9xico com os Estados Unidos<\/a>, em 2019. Apenas para citar casos recentes de grande repercuss\u00e3o envolvendo nosso continente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os impactos multidimensionais das migra\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O fato \u00e9 que a import\u00e2ncia das migra\u00e7\u00f5es internacionais n\u00e3o est\u00e1 nos n\u00fameros, mas reside, principalmente, nas consequ\u00eancias pol\u00edticas, econ\u00f4micas, sociais e culturais que geram, seja nos pa\u00edses de origem, seja nos de destino ou ainda em pa\u00edses de tr\u00e2nsito. E isso pode estar relacionado \u00e0 maneira como enxergamos os processos migrat\u00f3rios, pelo menos no mundo ocidental, desde o per\u00edodo p\u00f3s-revolu\u00e7\u00e3o industrial: a partir do vi\u00e9s econ\u00f4mico e demogr\u00e1fico. N\u00e3o \u00e9 coincid\u00eancia que o registro do primeiro estudo sistem\u00e1tico migrat\u00f3rio reconhecido seja, justamente, uma an\u00e1lise feita por Ernst Georg Ravenstein, em 1885, sobre a supremacia econ\u00f4mica determinante na migra\u00e7\u00e3o no Reino Unido baseada em resultados do censo da \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim, a rela\u00e7\u00e3o do imigrante com a economia e suas teorias neocl\u00e1ssicas, combinada com as&nbsp; estat\u00edsticas demogr\u00e1ficas e com o pr\u00f3prio fortalecimento da ideia de Estado-na\u00e7\u00e3o como um modo de \u201corganiza\u00e7\u00e3o natural\u201d do planeta passou a enquadrar o imigrante no universo do trabalho e da m\u00e3o de obra. Por isso, o soci\u00f3logo argelino Abdelmalek Sayad, um dos maiores estudiosos sobre a tem\u00e1tica migrat\u00f3ria, considera uma redund\u00e2ncia falar de \u201cmigrante trabalhador\u201d. Segundo diz em sua obra \u201cA imigra\u00e7\u00e3o ou os paradoxos da alteridade\u201d, \u201co migrante \u00e9, essencialmente, uma for\u00e7a de trabalho\u201d. Importante destacar que sempre houve uma preocupa\u00e7\u00e3o com justi\u00e7a, na perspectiva do Direito Internacional, ou mesmo dos Direitos Humanos, despertando olhares para essas quest\u00f5es, mas, especialmente nesta \u00faltima \u00e1rea, tudo, muito embrion\u00e1rio, ainda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Avan\u00e7os e tarefas pendentes respeito ao tratamento das migra\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A verdade \u00e9 que a pr\u00f3pria realidade vem escancarando a complexidade dos deslocamentos humanos, impondo a necessidade e a urg\u00eancia de se entender os fluxos migrat\u00f3rios para, muito al\u00e9m das quest\u00f5es econ\u00f4micas ou dados estat\u00edsticos. Nesse sentido, \u00e9 c\u00e9lebre a frase do soci\u00f3logo su\u00ed\u00e7o Max Frisch: \u201cN\u00f3s quer\u00edamos trabalhadores e recebemos pessoas\u201d. Assim, o olhar para a quest\u00e3o precisa ganhar outros vieses, evidenciando a multiplicidade de intera\u00e7\u00f5es sociais, simb\u00f3licas e culturais dos processos.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 avan\u00e7os significativos nesses aspectos. Das pr\u00f3prias vis\u00f5es que previam a assimila\u00e7\u00e3o e a acultura\u00e7\u00e3o do estrangeiro no novo territ\u00f3rio, hoje muito j\u00e1 se observa e se fala sobre intera\u00e7\u00e3o, integra\u00e7\u00e3o, acolhida, interseccionalidades. H\u00e1 estudos avan\u00e7ados sobre redes migrat\u00f3rias, fronteiras, desterritorializa\u00e7\u00e3o, transnacionalismo, interculturalidade, entre outras quest\u00f5es que se imp\u00f5em como processos de di\u00e1logo constantes, em que a diversidade de perspectivas \u00e9 garantida na compreens\u00e3o da mobilidade humana.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 transforma\u00e7\u00f5es ainda nos olhares sobre as personagens constitutivas dos fluxos migrat\u00f3rios, como o papel da mulher e da fam\u00edlia, dos descendentes e das gera\u00e7\u00f5es seguintes. Chama a aten\u00e7\u00e3o, tamb\u00e9m, a preocupa\u00e7\u00e3o para tem\u00e1ticas como retorno, tr\u00e1fico e contrabando de pessoas, dupla ou tripla perten\u00e7a jur\u00eddica, al\u00e9m de pontos que requerem maior sensibilidade, como transforma\u00e7\u00f5es identit\u00e1rias, pertencimentos religiosos e culturais, dist\u00farbios e traumas psicol\u00f3gicos etc.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o se trata de n\u00fameros e, sim, de pessoas, logo, a migra\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ficar limitada a conte\u00fados econ\u00f4micos ou estat\u00edsticos que se prestam a conclus\u00f5es definitivas. Humanizar os processos migrat\u00f3rios \u00e9 urgente. Afinal, migrar n\u00e3o \u00e9 chegar. \u00c9 caminhar.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de rawEarth em Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A circula\u00e7\u00e3o de pessoas atrav\u00e9s do espa\u00e7o geogr\u00e1fico, tempor\u00e1ria ou permanentemente, \u00e9 uma parte intr\u00ednseca da hist\u00f3ria humana. N\u00e3o se trata de um fen\u00f4meno, de uma a\u00e7\u00e3o espor\u00e1dica ou de algo externo. \u00c9 um processo constitutivo. <\/p>\n","protected":false},"author":215,"featured_media":5263,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16708,16760,16764,16719,14465,546],"tags":[],"gps":[],"class_list":{"0":"post-5304","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-pt-br","8":"category-derechos-humanos-pt-br","9":"category-migracion-pt-br","10":"category-debates-pt-br","11":"category-migracao","12":"category-sociedad-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5304","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/215"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=5304"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/5304\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/5263"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=5304"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=5304"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=5304"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=5304"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}