{"id":53083,"date":"2025-11-20T15:00:00","date_gmt":"2025-11-20T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=53083"},"modified":"2025-11-19T16:39:03","modified_gmt":"2025-11-19T19:39:03","slug":"retrospectiva-da-eclosao-social-chilena","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/retrospectiva-da-eclosao-social-chilena\/","title":{"rendered":"Retrospectiva da eclos\u00e3o social chilena"},"content":{"rendered":"\n<p>Em outubro de 2019, o Chile, pa\u00eds apresentado durante d\u00e9cadas como um \u201cmodelo exemplar\u201d na Am\u00e9rica Latina, entrou em uma crise social que surpreendeu o mundo e seus pr\u00f3prios cidad\u00e3os. Da noite para o dia, a ilus\u00e3o de uma na\u00e7\u00e3o est\u00e1vel foi destru\u00edda, revelando um conflito que permanecia latente sob uma aparente calma. O aumento dos pre\u00e7os do transporte ou os altos n\u00edveis de desigualdade, explica\u00e7\u00f5es mais comuns para essa ruptura, foram insuficientes para capturar a magnitude e a complexidade do fen\u00f4meno.<\/p>\n\n\n\n<p>An\u00e1lises posteriores mostraram que fraturas mais profundas e menos evidentes prepararam o terreno para a crise de 18-O.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>As crises n\u00e3o eclodem quando tudo est\u00e1 pior<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Uma das ideias mais desconcertantes sobre as revolu\u00e7\u00f5es sociais e as crises multissetoriais \u00e9 que muitas vezes n\u00e3o ocorrem nos momentos de maior mis\u00e9ria, mas quando as coisas come\u00e7am a melhorar e as expectativas crescem mais r\u00e1pido do que a realidade. Esse fen\u00f4meno, conhecido como \u201cparadoxo de Tocqueville\u201d, explica que a lacuna entre o que se espera e o que realmente se obt\u00e9m se torna intoler\u00e1vel, gerando uma frustra\u00e7\u00e3o explosiva.<\/p>\n\n\n\n<p>Em v\u00e1rios relat\u00f3rios, o BID ressalta que n\u00e3o bastam bons indicadores em n\u00edvel macro, se o sistema n\u00e3o converter o crescimento em bem-estar tang\u00edvel para a cidadania. Isso coincide com a expans\u00e3o de uma \u201cclasse m\u00e9dia vulner\u00e1vel\u201d, que n\u00e3o \u00e9 pobre, mas vive sob uma percep\u00e7\u00e3o constante de risco.<\/p>\n\n\n\n<p>Aplicado ao caso chileno, isso significa que a explos\u00e3o de 2019 n\u00e3o nasceu da desesperan\u00e7a total, mas da lacuna exasperante entre a promessa do \u201cmilagre chileno\u201d e a realidade vivida por milh\u00f5es. A crise n\u00e3o ocorreu apesar das melhorias das \u00faltimas d\u00e9cadas, mas em parte por causa delas e das aspira\u00e7\u00f5es insatisfeitas que geraram. N\u00e3o \u00e9 a mis\u00e9ria absoluta que acende o pavio, mas a frustra\u00e7\u00e3o que choca contra o muro das promessas quebradas de mobilidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O motor congelou<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Historicamente, o sistema pol\u00edtico chileno possu\u00eda um mecanismo singular de adapta\u00e7\u00e3o. Segundo a an\u00e1lise de Timothy R. Scully, ap\u00f3s as grandes crises pol\u00edticas do s\u00e9culo XX, como o conflito clerical\/anticlerical (1857-1861), o conflito de classes urbano (1920-1932) e o conflito de classes rural (1958), o sistema tendeu a \u201ccrescer para a esquerda\u201d, incorporando novos partidos e demandas progressistas para se reequilibrar e canalizar institucionalmente o descontentamento. Essa capacidade de adapta\u00e7\u00e3o mediante o deslocamento do sistema para a esquerda, junto ao papel estabilizador dos partidos de centro, funcionava como sua principal v\u00e1lvula de escape diante dos conflitos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, esse motor \u201ccongelou\u201d. O sistema eleitoral binominal, implementado em 1990, embora tenha conseguido garantir estabilidade durante os quatro governos da Concerta\u00e7\u00e3o (1990-2010), interrompeu essa tend\u00eancia hist\u00f3rica ao incentivar uma converg\u00eancia for\u00e7ada para o centro entre as duas grandes coaliz\u00f5es que conduziram o processo de transi\u00e7\u00e3o. O resultado foi uma \u201cesclerose\u201d do sistema pol\u00edtico, que perdeu sua flexibilidade e capacidade de adapta\u00e7\u00e3o. Ao quebrar esse padr\u00e3o, a press\u00e3o social acumulada por anos, evidenciada nas mobiliza\u00e7\u00f5es estudantis de 2006 e 2011, n\u00e3o encontrou canais institucionais para ser processada e acabou explodindo fora deles. Essa esclerose institucional n\u00e3o s\u00f3 acumulou press\u00e3o; tamb\u00e9m alimentou a desconfian\u00e7a e a indiferen\u00e7a que se enraizaram no tecido social.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O novo cidad\u00e3o p\u00f3s-estatal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Talvez a ideia mais provocativa para entender a crise de 2019 seja a emerg\u00eancia de uma \u201csubjetividade p\u00f3s-estatal\u201d. Esse conceito se refere a indiv\u00edduos que se sentem abandonados pelo Estado, \u201chuachos\u201d na linguagem popular chilena, \u00f3rf\u00e3os de um pacto social que nunca os incluiu. Como resultado, esses sujeitos aprenderam a operar sob uma l\u00f3gica de \u201cpensar sem Estado\u201d, onde as institui\u00e7\u00f5es formais perderam toda a credibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>No plano intelectual, uma \u201cestranha converg\u00eancia\u201d entre o pensamento ideol\u00f3gico da \u201cnova direita\u201d nas d\u00e9cadas de 1980 e 1990 e as cr\u00edticas ao Estado do marxismo anal\u00edtico ap\u00f3s a queda dos \u201csocialismos reais\u201d corroeu, por mais de trinta anos, a valoriza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico-estatal.<\/p>\n\n\n\n<p>No n\u00edvel da cultura popular, o \u201ccongelamento\u201d do motor adaptativo do sistema pol\u00edtico aprofundou a divis\u00e3o dos cidad\u00e3os com as institui\u00e7\u00f5es. A queda da pobreza por renda de 40% em 1990 para 8,9% em 2017 contribuiu para que a nova marginalidade social fosse negligenciada pela classe pol\u00edtica. Nesses espa\u00e7os de segrega\u00e7\u00e3o, as pessoas foram relegadas \u00e0 estigmatiza\u00e7\u00e3o e \u00e0 vulnerabilidade pela viol\u00eancia privada do narcotr\u00e1fico ou do crime organizado. O bem comum perdeu toda a relev\u00e2ncia e a experi\u00eancia cotidiana da marginalidade tornou-se um fator de dissolu\u00e7\u00e3o do v\u00ednculo social. Ao chegar 2019, v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es que nasceram na democracia s\u00f3 conheciam a exclus\u00e3o da democracia \u201csemissoberana\u201d da transi\u00e7\u00e3o e o gesto da classe pol\u00edtica de governar de costas para a periferia.<\/p>\n\n\n\n<p>A eclos\u00e3o chilena foi originada por uma fratura multidimensional que n\u00e3o s\u00f3 questionou um modelo de desenvolvimento, mas o pacto social em sua totalidade, com forte ades\u00e3o nos ecossistemas da marginalidade urbana. N\u00e3o se tratou de uma express\u00e3o de pura marginalidade e l\u00fampen, mas evidenciou uma grave falha na reprodu\u00e7\u00e3o da cultura democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A magnitude dos custos do 18-O ainda n\u00e3o est\u00e1 relacionada com os aprendizados pol\u00edticos. Em um relat\u00f3rio recente, a Procuradoria Nacional estabeleceu que, durante os dist\u00farbios, ocorreram mais de 35 mil crimes. As estimativas da Dire\u00e7\u00e3o de Or\u00e7amento do Minist\u00e9rio da Fazenda (DIPRES) para danos \u00e0 infraestrutura p\u00fablica ascenderam a US$ 3 bilh\u00f5es em valores de 2020 (Metr\u00f4 de Santiago, munic\u00edpios, mobili\u00e1rio urbano, hospitais, escolas). Por sua vez, o Banco Central do Chile estabeleceu que o investimento (FBCF) sofreu uma queda entre \u22123% e \u22124% no quarto trimestre de 2019.<\/p>\n\n\n\n<p>Seis anos depois, essa crise multissetorial nos obriga a olhar para o retrovisor para entender as profundas fissuras que ainda atravessam a sociedade chilena, compreender como elas se ampliaram com os dois fracassos constituintes e avaliar as consequ\u00eancias do padr\u00e3o at\u00edpico de deslocamento para a direita do sistema.<\/p>\n\n\n\n<p>Provavelmente, reconstruir o espelho quebrado da revolta n\u00e3o significa negar as rupturas, mas aprender a conviver com as fissuras e, para isso, \u00e9 necess\u00e1rio se perguntar: que tipo de pacto social pode ser constru\u00eddo sobre um terreno fraturado, com um sistema pol\u00edtico que se desloca de forma incomum para a direita e com cidad\u00e3os que aprenderam a viver sem Estado?<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A explos\u00e3o social chilena de 2019 foi o resultado de um ac\u00famulo de frustra\u00e7\u00f5es por expectativas n\u00e3o atendidas, falta de adapta\u00e7\u00e3o institucional e uma crescente desconex\u00e3o entre a cidadania e o Estado.<\/p>\n","protected":false},"author":838,"featured_media":53071,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16901,16765],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-53083","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-crisis-social-pt-br","8":"category-chile-es-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53083","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/838"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53083"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53083\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53071"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53083"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53083"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53083"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=53083"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}