{"id":5311,"date":"2021-05-04T08:45:00","date_gmt":"2021-05-04T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5311"},"modified":"2021-05-05T06:27:03","modified_gmt":"2021-05-05T09:27:03","slug":"petro-e-castillo-anomalias-andinas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/petro-e-castillo-anomalias-andinas\/","title":{"rendered":"Petro e Castillo: anomalias andinas"},"content":{"rendered":"\n<p>Durante a primeira d\u00e9cada deste s\u00e9culo, dois pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul permaneceram \u00e0 margem das transforma\u00e7\u00f5es progressivas que foram acompanhadas pelo ciclo expansionista da economia, o auge das <em>commodities<\/em>, a conflu\u00eancia de v\u00e1rias lideran\u00e7as regionais de esquerda e o surgimento de um regionalismo p\u00f3s-liberal que se beneficiou da aus\u00eancia de uma agenda espec\u00edfica por parte dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esses dois pa\u00edses eram a Col\u00f4mbia e o Peru. Dois pa\u00edses com semelhan\u00e7as importantes nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Assim, ap\u00f3s o fim da Guerra Fria, eles mantiveram seus conflitos armados em vigor enquanto vivenciavam algumas das pol\u00edticas mais radicais do continente de liberaliza\u00e7\u00e3o e abertura. Da mesma forma, eles experimentaram um centralismo marcado que, durante d\u00e9cadas, levou as elites econ\u00f4micas e pol\u00edticas das grandes cidades a viverem de costas voltadas para as necessidades estruturais e institucionais de uma grande parte da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Da mesma forma, uma d\u00e9cada antes da Col\u00f4mbia, o Peru experimentou um enfraquecimento significativo de seus principais atores violentos, em grande parte gra\u00e7as \u00e0s pol\u00edticas de seguran\u00e7a de lideran\u00e7as autorit\u00e1rias que emba\u00e7avam o significado da democracia e do Estado de direito.<\/p>\n\n\n\n<p>No Peru, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/peru-o-fim-da-dispensacao-fujimori\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Alberto Fujimori, com um DNA completamente ditatorial,<\/a> p\u00f4s um fim ao fr\u00e1gil acordo democr\u00e1tico do pa\u00eds atrav\u00e9s de uma d\u00e9cada ominosa de governo. Na Col\u00f4mbia, \u00c1lvaro Uribe foi o campe\u00e3o da Pol\u00edtica Democr\u00e1tica de Seguran\u00e7a, sobre a qual repousa uma alian\u00e7a execr\u00e1vel com o paramilitarismo, pelo menos at\u00e9 2005, e a responsabilidade por mais de <a href=\"https:\/\/www.dw.com\/pt-br\/ex%C3%A9rcito-colombiano-matou-6400-civis-extrajudicialmente-diz-tribunal\/a-56621098\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">6.000 pessoas inocentes que foram assassinadas por agentes do Estado<\/a>, enquanto &#8220;vendidas&#8221; \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica como narco-guerrilheiros &#8220;justamente dispensados&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, ambos est\u00e3o entre os pa\u00edses mais desiguais da regi\u00e3o, com a maior inelasticidade vertical de renda, acompanhados por uma dimens\u00e3o social do Estado t\u00e3o prec\u00e1ria e mercantilizada quanto corrupta e ineficiente. Entretanto, apesar de tudo, eles permaneceram como sistemas marcadamente conservadores, patrimonializados por elites que tendem a considerar o setor p\u00fablico como nada mais que um bolo suculento a servi\u00e7o de seus interesses privados, contribuindo para a elimina\u00e7\u00e3o de quaisquer possibilidades de progressivismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Como resultado de uma manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia que associa viol\u00eancia armada com conflito social e, portanto, com a esquerda, h\u00e1 muito tempo \u00e9 comum encontrar um profundo estigma ligado a qualquer ind\u00edcio de protesto social. No Peru \u00e9 o que se conhece comumente como &#8220;terruco&#8221;. Na Col\u00f4mbia, o mesmo \u00e9 chamado de &#8220;mamerto&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>De qualquer forma, dadas estas circunst\u00e2ncias, \u00e9 surpreendente que, at\u00e9 o segundo turno das elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Peru, o candidato com a maior porcentagem de votos estimada neste momento seja Jos\u00e9 Pedro Castillo. Algo semelhante est\u00e1 acontecendo na vizinha Col\u00f4mbia, onde o candidato mais popular para as elei\u00e7\u00f5es do pr\u00f3ximo ano \u00e9 o l\u00edder da esquerda, Gustavo Petro.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 verdade que uma e outra, na realidade, representam duas esquerdas muito diferentes (prefiro claramente a colombiana), com \u00e2ncoras sociais, culturais e territoriais que n\u00e3o s\u00e3o muito compar\u00e1veis. Entretanto, ambos os fen\u00f4menos bebem de uma hist\u00f3ria recente muito semelhante, que tem sido modulada nos \u00faltimos anos. Para tanto, n\u00e3o se deve esquecer que antes da pandemia, em ambos os pa\u00edses, e tamb\u00e9m em outros, como Equador ou Chile, o ano de 2019 fechou marcado por protestos de rua e insatisfa\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, a pandemia revelou agendas sociais prec\u00e1rias e insuficientes que acumularam d\u00e9cadas de centralismo e privatiza\u00e7\u00e3o. Em um ciclo mais longo, a esquerda tem se libertado, no caso da Col\u00f4mbia mais do que no Peru, do pesado fardo do sin\u00f4nimo de viol\u00eancia, e isto liberou novos espa\u00e7os pol\u00edtico-ideol\u00f3gicos. Em outras palavras, a agenda eleitoral n\u00e3o gira em torno dos principais centros de decis\u00e3o do pa\u00eds nem em torno da necessidade exclusiva de Estados fortes em termos de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Desta forma, a descentraliza\u00e7\u00e3o territorial, a autonomia regional, a sa\u00fade, o emprego e a educa\u00e7\u00e3o retomam um espa\u00e7o nuclear que favorece as disputas no eixo esquerda\/direita em termos dificilmente compar\u00e1veis com o passado recente de ambos os pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p>Seja como for, \u00e9 poss\u00edvel que em nenhum dos casos a esquerda venha a governar. No Peru, resta saber como o Fujimorismo conseguir\u00e1 promover uma maior mobiliza\u00e7\u00e3o eleitoral e que papel Lima desempenhar\u00e1 neste sentido, cujo candidato, Hernando de Soto, foi amplamente superado por Fujimori e Castillo. Por outro lado, o apoio eleitoral ao projeto &#8220;Col\u00f4mbia Humana&#8221; \u00e9 t\u00e3o cativo com a rejei\u00e7\u00e3o gerada por Gustavo Petro em boa parte do imagin\u00e1rio colombiano, portanto ser\u00e1 necess\u00e1rio ver como os espa\u00e7os mais centristas, como a Alianza Verde, se posicionam \u00e0 direita do ex-prefeito de Bogot\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conclus\u00e3o, estes eventos justificam a busca de novas an\u00e1lises da Ci\u00eancia Pol\u00edtica para investigar estes fatores mais imediatos e aquelas vari\u00e1veis de longo prazo mencionadas nestas linhas. At\u00e9 agora, eles t\u00eam servido para explicar parcialmente por que ambos os pa\u00edses tiveram uma aus\u00eancia de figuras progressistas durante as \u00faltimas d\u00e9cadas. Hoje, novas abordagens devem lan\u00e7ar luz sobre uma situa\u00e7\u00e3o sociopol\u00edtica e territorial imersa em um processo de mudan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto: jimmy_jazz_ataca on Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Col\u00f4mbia e o Peru compartilham semelhan\u00e7as. 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