{"id":53228,"date":"2025-11-21T09:00:00","date_gmt":"2025-11-21T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=53228"},"modified":"2025-11-20T13:42:52","modified_gmt":"2025-11-20T16:42:52","slug":"a-presenca-estrategica-da-russia-na-america-central","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-presenca-estrategica-da-russia-na-america-central\/","title":{"rendered":"A presen\u00e7a estrat\u00e9gica da R\u00fassia na Am\u00e9rica Central"},"content":{"rendered":"\n<p>A presen\u00e7a da R\u00fassia na Am\u00e9rica Central, assim como no resto da Am\u00e9rica Latina, baseia-se em uma rede de opera\u00e7\u00f5es de influ\u00eancia que transcendem a coopera\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Trata-se de um esfor\u00e7o sistem\u00e1tico para implantar mecanismos de comunica\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica, coopta\u00e7\u00e3o de elites e incid\u00eancia em setores sens\u00edveis. Atrav\u00e9s disso, Moscou procura ampliar sua margem de a\u00e7\u00e3o no hemisf\u00e9rio ocidental com recursos comparativamente limitados.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa estrat\u00e9gia responde a uma <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/analisis\/los-intereses-de-china-en-centroamerica\">l\u00f3gica de reciprocidade geopol\u00edtica<\/a> diante de uma regi\u00e3o que o Kremlin percebe como a expans\u00e3o da OTAN em seus antigos espa\u00e7os de influ\u00eancia. \u00c9 um gesto de contrapeso simb\u00f3lico no que a R\u00fassia considera o \u201cestrangeiro pr\u00f3ximo\u201d dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essas opera\u00e7\u00f5es seletivas encontram seu principal apoio na guerra informativa e nos meios de <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/actualidad\/entrevistas\/katerina-prochazkova-noticias-china-censuradas\">propaganda<\/a> russos, particularmente <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/analisis\/influencia-de-russia-today-latinoamerica\">Russia Today<\/a> e Sputnik. Sua presen\u00e7a se estende do Tri\u00e2ngulo Norte at\u00e9 o Panam\u00e1. A isso se soma a coopera\u00e7\u00e3o com seus aliados autocr\u00e1ticos no continente, especialmente Cuba, Venezuela e Nicar\u00e1gua. Este \u00faltimo, sob o regime Ortega-Murillo, consolidou-se como um centro log\u00edstico da proje\u00e7\u00e3o russa no istmo, articulando fun\u00e7\u00f5es de propaganda, espionagem, intelig\u00eancia e treinamento militar de baixa intensidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Nicar\u00e1gua: um enclave militar russo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A <a href=\"https:\/\/expedienteabierto.org\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/Rusia-y-Nicaragua-Espanol.pdf\">coopera\u00e7\u00e3o militar<\/a> entre R\u00fassia e Nicar\u00e1gua remonta aos anos da Guerra Fria, quando cerca de 90% do equipamento b\u00e9lico do pa\u00eds vinha da extinta Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Ap\u00f3s o colapso sovi\u00e9tico, os la\u00e7os se atenuaram. Eles recuperaram for\u00e7a com a chegada de Vladimir Putin ao poder e, sobretudo, com o retorno de <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/analisis\/sucesion-dinastica-nicaragua\">Daniel Ortega<\/a> \u00e0 presid\u00eancia em 2007. Desde ent\u00e3o, Man\u00e1gua se tornou o parceiro mais pr\u00f3ximo de Moscou no hemisf\u00e9rio ocidental, em uma rela\u00e7\u00e3o que inclui assist\u00eancia t\u00e9cnica, presen\u00e7a militar e transfer\u00eancia de intelig\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2013, o chefe do Estado-Maior russo, Valeri Guer\u00e1simov, visitou Man\u00e1gua para inaugurar o Centro de Treinamento Marechal Zhukov, destinado a formar oficiais nicaraguenses sob a doutrina da \u201cguerra h\u00edbrida\u201d. Ao seu redor, criou-se uma <a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/agenda\/analisis\/china-centroamerica-cooperacion-no-reembolsable\">rede de coopera\u00e7\u00e3o<\/a> que inclui o centro topogr\u00e1fico de Man\u00e1gua \u2014 vinculado ao sistema de sat\u00e9lites GLONASS \u2014 e programas de instru\u00e7\u00e3o em vigil\u00e2ncia e controle da oposi\u00e7\u00e3o interna. As for\u00e7as armadas russas, com acesso direto a informa\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a local, consolidaram assim um canal privilegiado de influ\u00eancia na estrutura de defesa nicaraguense.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos aspectos mais sens\u00edveis dessa rela\u00e7\u00e3o \u00e9, portanto, o centro de espionagem instalado na base de Mokor\u00f3n, ao sul de Man\u00e1gua. De acordo com <a href=\"https:\/\/confidencial.digital\/politica\/el-centro-de-espionaje-de-rusia-en-el-cerro-mokoron-de-nicaragua\/\">investiga\u00e7\u00f5es<\/a> jornal\u00edsticas, l\u00e1 operam exclusivamente oficiais russos com acesso ao software SORM-3 e a um sistema de radiolocaliza\u00e7\u00e3o que permite interceptar comunica\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, embaixadas e redes internas do pr\u00f3prio regime. A instala\u00e7\u00e3o, complementada por antenas distribu\u00eddas em nove pontos do pa\u00eds, refor\u00e7a o dispositivo satelital russo. Funciona como uma esta\u00e7\u00e3o avan\u00e7ada de coleta de sinais na Am\u00e9rica Central.<\/p>\n\n\n\n<p>A isso devemos somar um <a href=\"https:\/\/www.expedientepublico.org\/the-us-neglects-latin-america-nicaragua-opens-its-doors-to-russian-troops\/\">acordo de coopera\u00e7\u00e3o<\/a> militar firmado em 2022 pelo governo de Ortega. Este autoriza a entrada tempor\u00e1ria de tropas, navios e aeronaves russas no territ\u00f3rio nicaraguense, sob a justificativa de \u201ctrabalhos humanit\u00e1rios e combate ao narcotr\u00e1fico\u201d. A iniciativa permite a rota\u00e7\u00e3o peri\u00f3dica de contingentes militares russos, consolidando a posi\u00e7\u00e3o da Nicar\u00e1gua como o principal ponto de apoio log\u00edstico de Moscou no continente.<\/p>\n\n\n\n<p>Tal alian\u00e7a alcan\u00e7ou um novo marco. O ex\u00e9rcito nicaraguense participou dos exerc\u00edcios conjuntos <em>Z\u00e1pad-2025<\/em>, realizados em setembro passado na Bielorr\u00fassia e no enclave de Kaliningrado. Durante um encontro em Moscou, o ministro da Defesa russo, Andr\u00e9i Belousov, agradeceu pessoalmente ao general Julio C\u00e9sar Avil\u00e9s por esse gesto, reafirmando a \u201camizade e confian\u00e7a m\u00fatua\u201d entre as duas na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Os <a href=\"https:\/\/cepa.org\/article\/russia-marshals-its-strength-for-zapad-2025\/\">Z\u00e1pad-2025<\/a>, manobras russo-bielorrussas que mobilizaram mais de cem mil soldados, ocorreram em um contexto de renovada tens\u00e3o com a OTAN. E coincidiram com incurs\u00f5es a\u00e9reas russas em territ\u00f3rio polon\u00eas e estoniano. Mais do que um exerc\u00edcio de rotina, elas replicaram os padr\u00f5es t\u00e1ticos de opera\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias \u00e0 invas\u00e3o da Ucr\u00e2nia em 2022, projetando a<a href=\"https:\/\/dialogopolitico.org\/debates\/opinion\/china-rusia-poscolonialismo-narrativas\"> narrativa de um Kremlin<\/a> sitiado. Nesse marco, a presen\u00e7a nicaraguense teve um valor pol\u00edtico e simb\u00f3lico significativo. Refor\u00e7ou seu alinhamento com Moscou e legitimou, a partir do hemisf\u00e9rio ocidental, a estrat\u00e9gia militar e discursiva do regime de Putin.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Assist\u00eancia simb\u00f3lica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Como no resto da Am\u00e9rica Latina \u2014 exceto nas ditaduras revolucion\u00e1rias \u2014, os interc\u00e2mbios militares com a R\u00fassia s\u00e3o certamente limitados. Na Am\u00e9rica Central, al\u00e9m da Nicar\u00e1gua, os la\u00e7os com Moscou t\u00eam se caracterizado por uma ambiguidade estrat\u00e9gica. H\u00e1, em todo caso, uma disposi\u00e7\u00e3o para manter canais de di\u00e1logo e coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica com governos que, sem romper com Washington, buscam diversificar sua pol\u00edtica externa em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, os governos de Xiomara Castro em Honduras e Nayib Bukele em El Salvador reduziram sua coopera\u00e7\u00e3o com a R\u00fassia ao plano estritamente diplom\u00e1tico. Mas n\u00e3o sem oferecer gestos simb\u00f3licos de alinhamento. Ambos os governos, por exemplo, se abstiveram ou votaram contra resolu\u00e7\u00f5es cr\u00edticas \u00e0 invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia em organismos multilaterais, o que denota uma converg\u00eancia cautelosa com Moscou.<\/p>\n\n\n\n<p>O caso salvadorenho ilustra bem esse ponto. Em 2013, San Salvador assinou um <a href=\"https:\/\/www.infodefensa.com\/texto-diario\/mostrar\/3140748\/salvador-rusia-suscriben-acuerdo-cooperacion-luchar-contra-narcotrafico\">acordo<\/a> com o Servi\u00e7o Federal de Controle de Drogas da R\u00fassia para o fornecimento de armas leves e treinamento policial na luta contra o narcotr\u00e1fico. Em 2019, os dois pa\u00edses assinaram um novo <a href=\"https:\/\/noticiaslatam.lat\/20190524\/rusia-el-salvador-acuerdo-cooperacion-lucha-contra-crimen-1087375573.html\">acordo<\/a> intergovernamental. Desta vez, para o interc\u00e2mbio de informa\u00e7\u00f5es e coopera\u00e7\u00e3o na luta contra o crime organizado. Ele foi descrito pelo embaixador Efr\u00e9n Bernal Ch\u00e9vez como \u201cum instrumento para fortalecer as rela\u00e7\u00f5es de amizade e coopera\u00e7\u00e3o\u201d. No entanto, esses acordos nunca se traduziram em exerc\u00edcios militares conjuntos ou assist\u00eancia sustentada.<\/p>\n\n\n\n<p>Algo similar ocorreu na Guatemala. Em 2010, o ent\u00e3o presidente \u00c1lvaro Colom <a href=\"https:\/\/urgente24.com\/65849-para-luchar-contra-los-narcos-guatemala-le-compra-armas-a-rusia#google_vignette\">viajou<\/a> a Moscou para adquirir armamento russo destinado, segundo a vers\u00e3o oficial, a combater o narcotr\u00e1fico e o crime organizado. Embora o acordo tenha marcado um precedente na coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica, o v\u00ednculo se diluiu na d\u00e9cada seguinte, coincidindo com a aproxima\u00e7\u00e3o progressiva do pa\u00eds centro-americano aos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em conjunto, essas experi\u00eancias refletem a estrat\u00e9gia de Moscou de cultivar la\u00e7os de baixa intensidade com governos dispostos a receber assist\u00eancia simb\u00f3lica, sem desafiar abertamente a hegemonia dos Estados Unidos na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Espa\u00e7o de resson\u00e2ncia pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A coopera\u00e7\u00e3o militar da R\u00fassia na Am\u00e9rica Latina \u00e9, em termos materiais, insignificante. Mas, estrategicamente, \u00e9 funcional, como aponta um <a href=\"https:\/\/www.europarl.europa.eu\/RegData\/etudes\/BRIE\/2024\/762473\/EPRS_BRI(2024)762473_EN.pdf\">relat\u00f3rio<\/a> do Servi\u00e7o de Pesquisa do Parlamento Europeu. Sua presen\u00e7a n\u00e3o busca equilibrar o poder hemisf\u00e9rico, mas projetar uma imagem de alcance global e sustentar alian\u00e7as pol\u00edticas com regimes afins.<\/p>\n\n\n\n<p>Em um cen\u00e1rio dominado pela assimetria, Moscou usa a simboliza\u00e7\u00e3o militar e a ret\u00f3rica multipolar para desafiar a hegemonia dos Estados Unidos e sustentar sua influ\u00eancia com recursos m\u00ednimos. A regi\u00e3o, e especialmente a Nicar\u00e1gua, funciona mais como um espa\u00e7o de resson\u00e2ncia pol\u00edtica do que como uma frente de atua\u00e7\u00e3o efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p><sub>*Texto publicado originalmente em Di\u00e1logo Pol\u00edtico<\/sub><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com recursos limitados, mas com objetivos claros, Moscou fez de Nicar\u00e1gua seu enclave militar na Am\u00e9rica Central, buscando projetar uma influ\u00eancia simb\u00f3lica e desafiando a ordem liderada pelos EUA.<\/p>\n","protected":false},"author":647,"featured_media":53101,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16976,16762],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-53228","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-rusia-es-pt-br","8":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53228","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/647"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53228"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53228\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53228"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53228"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53228"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=53228"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}