{"id":5333,"date":"2021-05-06T15:45:00","date_gmt":"2021-05-06T18:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5333"},"modified":"2021-05-06T13:43:25","modified_gmt":"2021-05-06T16:43:25","slug":"as-pontes-do-acre-ja-existem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/as-pontes-do-acre-ja-existem\/","title":{"rendered":"As pontes do Acre j\u00e1 existem!"},"content":{"rendered":"\n<p>O Acre foi a \u00faltima grande expans\u00e3o territorial do Brasil. Comprado da Bol\u00edvia no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, faz fronteira tamb\u00e9m com o Peru. Nos \u00faltimos anos, foi comum em diferentes regi\u00f5es do Brasil, a express\u00e3o \u201co Acre n\u00e3o existe\u201d. Convertida em piadas e memes, refletia de forma pejorativa sua pequena popula\u00e7\u00e3o, economia de baixa complexidade, infraestrutura deficiente e, sobretudo, a ignor\u00e2ncia de regi\u00f5es decadentes que tem dificuldade de conhecer o pr\u00f3prio pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>As not\u00edcias do Acre para o grande p\u00fablico brasileiro nos \u00faltimos anos se resumiram \u00e0s suas constantes inunda\u00e7\u00f5es e a nova rota de migra\u00e7\u00e3o. Ambos os fen\u00f4menos t\u00eam rela\u00e7\u00e3o direta com as pontes do estado, que ter\u00e3o novo protagonismo devido \u00e0 profunda mudan\u00e7a geoecon\u00f4mica que o Brasil est\u00e1 passando.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/g1.globo.com\/ro\/rondonia\/noticia\/2021\/01\/27\/obra-da-ponte-entre-rondonia-e-acre-deve-ficar-pronta-em-marco-de-2021-diz-dnit.ghtml\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Nesta sexta-feira (dia 7) ser\u00e1 inaugurada pelo presidente Bolsonaro a ponte do Abun\u00e3 em Rond\u00f4nia<\/a>. A obra de 1,9 Km sobre o rio Madeira conectar\u00e1 pela primeira vez a capital do Acre a outras capitais do pa\u00eds sem a necessidade de balsa. A decis\u00e3o de constru\u00ed-la foi da presidenta Dilma Rousseff em 2014, durante uma cheia que deixou Rio Branco, capital do Acre, isolada das demais capitais do Brasil por 90 dias. A cr\u00edtica situa\u00e7\u00e3o para os acreanos naquele momento foi amenizada pelas pontes de Epitaciol\u00e2ndia e Assis Brasil. Inauguradas em 2004 e 2006, ligaram o Acre \u00e0 Bol\u00edvia e ao Peru, respectivamente. Essas pontes constru\u00eddas no governo Lula juntas com a pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-317 at\u00e9 Assis Brasil, realizada no governo Fernando Henrique Cardoso, garantiram o fornecimento de combust\u00edvel peruano e alimentos bolivianos para os acreanos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Do sonho \u00e0 desilus\u00e3o em uma d\u00e9cada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tamb\u00e9m foi o caminho para milhares de haitianos que migraram para o Brasil ap\u00f3s o terremoto de Porto Pr\u00edncipe em 2010. Eles chagavam depois de longas viagens. Partiam por via a\u00e9rea para o Equador, com escala no Panam\u00e1. Depois seguiam por terra pelo Peru para ingressarem no Brasil via Acre. A avan\u00e7ada pol\u00edtica migrat\u00f3ria equatoriana e o bom desempenho econ\u00f4mico do Brasil tornavam essa rota atraente. Em 14 fevereiro de 2021, os estrangeiros na ponte binacional entre Assis Brasil e I\u00f1apari foram novamente not\u00edcia.<\/p>\n\n\n\n<p>Quatrocentos deles, em sua maioria haitianos, mas tamb\u00e9m oriundos de pa\u00edses da costa oeste africana e de pa\u00edses indost\u00e2nicos, que vieram de diferentes estados brasileiros ap\u00f3s estadia de per\u00edodos variados no pa\u00eds. Devido \u00e0 restri\u00e7\u00e3o de entrada de estrangeiros no Peru, em <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/migracao-fronteiras-covid-e-mais-alem\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">decorr\u00eancia da pandemia da COVID-19<\/a>, os migrantes foram impedidos de ingressar no pa\u00eds vizinho, a fim de continuar seus projetos migrat\u00f3rios.&nbsp;Bloquearam a ponte por v\u00e1rios dias. Deixaram o Brasil sem ver inaugurada a ponte do Abun\u00e3. Talvez pela desilus\u00e3o com a crise de sa\u00fade p\u00fablica ou o aumento do desemprego.<\/p>\n\n\n\n<p>Faltava pouco. No final do governo Michel Temer, em dezembro de 2018, 85% da ponte do Abun\u00e3 j\u00e1 estava pronta e a expectativa era que a inaugura\u00e7\u00e3o fosse em agosto de 2019. Ap\u00f3s atrasos, aditivos e alguns adiamentos, e 117 anos depois do Tratado de Petr\u00f3polis que formalizou o acordo entre Brasil e Bol\u00edvia para que o Acre formasse parte do territ\u00f3rio brasileiro, este estado estar\u00e1 interconectado por estradas ao Atl\u00e2ntico. T\u00e3o importante quanto, Rond\u00f4nia, sul do Amazonas e noroeste do Mato Grosso ter\u00e3o um caminho totalmente pavimentado ao Pac\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Marcha para oeste<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil caminha para Oeste na economia, na demografia e principalmente nas exporta\u00e7\u00f5es. A atual fase dessa marcha \u00e9 consequ\u00eancia do abandono industrial interno e da transi\u00e7\u00e3o do centro din\u00e2mico da economia mundial do Atl\u00e2ntico Norte \u00e0 \u00c1sia-Pac\u00edfico.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao se isolar politicamente da Am\u00e9rica do Sul e desmontar o apoio estatal \u00e0 internacionaliza\u00e7\u00e3o de suas empresas, o Brasil aprofundou a crise de seu setor industrial cambaleado pelo baixo crescimento interno. N\u00e3o \u00e0 toa, Brasil e Argentina foram os dois pa\u00edses cujo setor industrial mais perdeu peso relativo no mundo nos \u00faltimos cinco anos. O futuro produtivo do pa\u00eds parece n\u00e3o estar mais concentrado no Atl\u00e2ntico.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre 2000 e 2010 todas as regi\u00f5es do Brasil cresceram e as exporta\u00e7\u00f5es per capita nominais se multiplicaram por mais de tr\u00eas, passando de US$ 324 para US$ 1051. Em 2020, as exporta\u00e7\u00f5es per capita do conjunto do Brasil haviam recuado para US$ 988. Mas o comportamento entre os estados \u00e9 muito discrepante. S\u00e3o Paulo, l\u00edder em exporta\u00e7\u00f5es industriais, exportava US$ 19 bilh\u00f5es em 2000, atingiu US$ 59 bilh\u00f5es em 2011 e regrediu a US$ 42 bilh\u00f5es em 2020. J\u00e1 o Mato Grosso exportou US$ 1 bilh\u00e3o em 2000 e US$ 18 bilh\u00f5es em 2020, aumentando suas vendas externas concentradas no agroneg\u00f3cio ininterruptamente ano ap\u00f3s ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos \u00faltimos 20 anos, o com\u00e9rcio mundial triplicou seu valor nominal em d\u00f3lares, as exporta\u00e7\u00f5es da China multiplicaram seu valor por dez e as vendas externas do Mato Grosso aumentaram 18 vezes. Na propor\u00e7\u00e3o per capita, um mato-grossense exportou em m\u00e9dia US$ 5170 em 2020 enquanto um chin\u00eas exportou US$ 1799.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Custos ambientais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A expans\u00e3o da fronteira agr\u00edcola em dire\u00e7\u00e3o ao norte e oeste veio acompanhada de altos custos ambientais e mudan\u00e7as log\u00edsticas. Mato Grosso s\u00f3 esteve atr\u00e1s do Par\u00e1 em desmatamento nos \u00faltimos anos e parte significativa da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola do estado se d\u00e1 em terras devastadas ilegalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>A din\u00e2mica tem sido desmatamento, aumento da explora\u00e7\u00e3o de madeira, seguida do crescimento da produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria e, depois, da expans\u00e3o das \u00e1reas de cultivo de gr\u00e3os. Esse movimento avan\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o a Rond\u00f4nia e ao Acre. Em 2000, Rond\u00f4nia exportava apenas 43 d\u00f3lares nominais per capita, sendo 90% madeira. Em 2020 foram 764 d\u00f3lares por rondoniense, 52% s\u00f3 de carnes, 30% de soja e menos de 5% de madeira.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a sa\u00edda pelos portos do Atl\u00e2ntico, cada vez mais longe da produ\u00e7\u00e3o, tira competitividade da carne brasileira. A carne fresca e refrigerada tem um valor m\u00e9dio no mercado mundial 20% superior ao da carne congelada. O Brasil responde sozinho por 19,9% das exporta\u00e7\u00f5es mundiais de carne congelada, mas apenas por 3,7% das carnes frescas e refrigeradas. As carnes de maior valor da fronteira ocidental brasileira ser\u00e3o muito mais competitivas nos mercados da \u00c1sia-Pac\u00edfico se cruzarem os Andes por terra. N\u00e3o apenas pelo custo, mas principalmente pelo tempo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Caminho mais curto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por vias pavimentadas, o distrito de Abun\u00e3 em Rond\u00f4nia est\u00e1 a 1734 Km do porto de Matarani na costa do Pac\u00edfico peruano e a 3274 km do porto de Santos ou a 2784 de Bel\u00e9m do Par\u00e1. J\u00e1 a fronteiri\u00e7a Assis Brasil no Acre est\u00e1 a 1164 Km de Matarani, 3357 Km de Bel\u00e9m e a 3864 Km de Santos. E Matarani est\u00e1 a alguns milhares de milhas n\u00e1uticas mais pr\u00f3xima do Jap\u00e3o do que Santos ou Bel\u00e9m. Os dias economizados no trajeto pelos portos do Pac\u00edfico podem garantir acesso r\u00e1pido de produtos refrigerados \u00e0 \u00c1sia, mercado que via Atl\u00e2ntico o Brasil s\u00f3 alcan\u00e7a em commodities e congelados. Para isso \u00e9 necess\u00e1rio escala e log\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00edda pelo Pac\u00edfico pode ser o caminho para agregar mais valor \u00e0s exporta\u00e7\u00f5es do Centro Oeste e, principalmente, da Amacro, acr\u00f4nimo referente \u00e0 \u00e1rea da que congrega o sul do Amazonas, o leste do Acre e o noroeste de Rond\u00f4nia, pr\u00f3ximos \u00e0 tr\u00edplice fronteira entre Brasil, Bol\u00edvia e o Peru. O Acre est\u00e1 prestes a viver uma grande transforma\u00e7\u00e3o, de magnitude similar a que ocorreu no Mato Grosso e que est\u00e1 em curso em Rond\u00f4nia. O desafio \u00e9 aprender rapidamente para evitar as externalidades negativas da expans\u00e3o agr\u00edcola do Mato Grosso e do Matopiba (parte do Maranh\u00e3o, Tocantins, Piau\u00ed e Oeste da Bahia), refor\u00e7ar o uso organizado e consciente do solo e coibir a devasta\u00e7\u00e3o ilegal.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso do Matopiba, o conceito surgiu ap\u00f3s a realidade econ\u00f4mica se impor com altos custos ambientais e aproveitamento limitado dos benef\u00edcios sociais do aumento da produ\u00e7\u00e3o. Na Amacro \u00e9 poss\u00edvel definir o modelo de desenvolvimento no in\u00edcio da nova realidade econ\u00f4mica e seu planejamento ser\u00e1 mais satisfat\u00f3rio se incluir a conex\u00e3o com o Pac\u00edfico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Acre foi a \u00faltima grande expans\u00e3o territorial do Brasil. 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