{"id":5335,"date":"2021-05-08T08:45:00","date_gmt":"2021-05-08T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5335"},"modified":"2021-05-05T08:10:05","modified_gmt":"2021-05-05T11:10:05","slug":"existe-uma-governanca-migratoria-sul-americana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/existe-uma-governanca-migratoria-sul-americana\/","title":{"rendered":"Existe uma governan\u00e7a migrat\u00f3ria sul-americana?"},"content":{"rendered":"\n<p>A emigra\u00e7\u00e3o de 5,6 milh\u00f5es de venezuelanos desde 2015 significa que a Am\u00e9rica do Sul est\u00e1 sofrendo o maior deslocamento for\u00e7ado da hist\u00f3ria da regi\u00e3o. Em 1\u00ba de mar\u00e7o de 2021, o governo colombiano, principal pa\u00eds receptor de migrantes venezuelanos, emitiu um decreto executivo que fez manchetes em todo o mundo. <a href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/internacional\/2021-02-09\/colombia-se-propoe-a-regularizar-um-milhao-de-venezuelanos-ilegais-no-pais.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O Decreto 216 de 2021 poderia regularizar mais de um milh\u00e3o de venezuelanos deslocados \u00e0 for\u00e7a que residem irregularmente na Col\u00f4mbia.<\/a><\/p>\n\n\n\n<p>Se bem-sucedido, seria um dos maiores processos de regulariza\u00e7\u00e3o de imigrantes do mundo. Por que o governo colombiano tomou uma decis\u00e3o t\u00e3o &#8220;arriscada&#8221;? O fez, sustento, porque o governo colombiano seguiu uma abordagem tipicamente sul-americana de &#8220;controle estatal + direitos humanos&#8221; na governan\u00e7a migrat\u00f3ria, que se baseia na compreens\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o como um fen\u00f4meno &#8220;inevit\u00e1vel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>A maioria dos especialistas sul-americanos em governan\u00e7a migrat\u00f3ria tem destacado a aus\u00eancia de coopera\u00e7\u00e3o e coordena\u00e7\u00e3o regional para tratar da emigra\u00e7\u00e3o venezuelana. Esta posi\u00e7\u00e3o ignora que as pol\u00edticas mais eficazes para a regulariza\u00e7\u00e3o dos migrantes venezuelanos que foram adotadas por alguns dos principais pa\u00edses receptores sul-americanos seguem, na verdade, <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/america-do-sul-um-espaco-migratorio-quase-perfeito\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">uma l\u00f3gica regional e uma abordagem da governan\u00e7a migrat\u00f3ria que \u00e9 distintamente sul-americana<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p>Chamo esta abordagem de &#8220;controle estatal + direitos humanos&#8221; porque sua l\u00f3gica subjacente \u00e9 a inevitabilidade da migra\u00e7\u00e3o, dado que os Estados n\u00e3o podem impedir a circula\u00e7\u00e3o de pessoas e que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel controlar efetivamente todas as fronteiras. Seguindo esta l\u00f3gica, a regulariza\u00e7\u00e3o dos migrantes \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para a irregularidade. A regulariza\u00e7\u00e3o dos migrantes pode beneficiar tanto os Estados, aumentando o controle estatal sobre sua popula\u00e7\u00e3o, quanto os migrantes, ampliando seu acesso aos direitos.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta l\u00f3gica contrasta com a prevalecente em muitas outras partes do mundo, onde prevenir migrantes &#8220;indesejados&#8221; significa usar a deten\u00e7\u00e3o e a expuls\u00e3o como &#8220;solu\u00e7\u00f5es&#8221; para a irregularidade. O decreto de regulariza\u00e7\u00e3o da Col\u00f4mbia \u00e9 baseado em uma abordagem distintamente sul-americana da governan\u00e7a migrat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Os pa\u00edses sul-americanos abrigam atualmente cerca de 80% dos venezuelanos que deixaram seu pa\u00eds desde 2015, fugindo da hiperinfla\u00e7\u00e3o, do desemprego, da escassez de alimentos e rem\u00e9dios, da criminalidade desenfreada e da persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Inicialmente, a maioria dos pa\u00edses sul-americanos abriu suas portas aos venezuelanos e criou mecanismos <em>ad hoc<\/em> para a regulariza\u00e7\u00e3o tempor\u00e1ria. Mas \u00e0 medida que a crise na Venezuela piorou e o n\u00famero de migrantes aumentou, juntamente com a crise sanit\u00e1ria e econ\u00f4mica causada pela pandemia da COVID, muitos governos adotaram medidas restritivas com o objetivo de evitar novas ondas de imigrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os governos sul-americanos n\u00e3o conseguiram chegar a um acordo sobre o status legal a ser dado aos migrantes venezuelanos: refugiados ou migrantes? Tamb\u00e9m n\u00e3o chegaram a um acordo sobre uma abordagem comum para a regulariza\u00e7\u00e3o dos venezuelanos deslocados. Isto levou os analistas a afirmarem que as abordagens nacionais prevaleceram sobre as regionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Entretanto, apesar da falta de coordena\u00e7\u00e3o regional formal, as respostas pol\u00edticas de alguns dos principais pa\u00edses receptores baseiam-se em uma abordagem sul-americana comum da governan\u00e7a migrat\u00f3ria. Os pa\u00edses a que me refiro s\u00e3o Argentina, Brasil, Col\u00f4mbia e Uruguai. Em um artigo recente, chamei-os de grupo &#8220;Atl\u00e2ntico + Col\u00f4mbia&#8221;. Os governos desses pa\u00edses t\u00eam buscado ativamente mecanismos alternativos de regulariza\u00e7\u00e3o e prote\u00e7\u00e3o a m\u00e9dio e longo prazo, que se baseiam em uma abordagem regional da governan\u00e7a migrat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>Argentina e Uruguai estenderam unilateralmente o Acordo de Resid\u00eancia do Mercosul (ARM) aos venezuelanos, mesmo que a Venezuela n\u00e3o o tenha ratificado. Isto proporciona uma autoriza\u00e7\u00e3o de resid\u00eancia de dois anos, que pode ser convertida em uma autoriza\u00e7\u00e3o permanente. De acordo com a plataforma R4V, Argentina e Uruguai s\u00e3o os pa\u00edses que concederam mais autoriza\u00e7\u00f5es de resid\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao total da popula\u00e7\u00e3o venezuelana residente em seus territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil adotou um decreto que estende as disposi\u00e7\u00f5es do ARM a todos os pa\u00edses vizinhos e reconheceu milhares de venezuelanos como refugiados, com base na defini\u00e7\u00e3o de refugiado regional de Cartagena.<\/p>\n\n\n\n<p>A Col\u00f4mbia merece mais aten\u00e7\u00e3o porque tem uma experi\u00eancia particular como pa\u00eds receptor. A chegada de 1,7 milh\u00f5es de venezuelanos em apenas tr\u00eas anos representa um grande desafio para o pa\u00eds. Inicialmente, o Estado colombiano havia adotado autoriza\u00e7\u00f5es de perman\u00eancia de curto prazo. Entretanto, como o texto do Decreto 216 de 2021 admite, essas autoriza\u00e7\u00f5es tiveram pouco sucesso e mais da metade da popula\u00e7\u00e3o venezuelana na Col\u00f4mbia tem um status migrat\u00f3rio irregular.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto \u00e9 parte da justificativa dada pelo governo colombiano para a ado\u00e7\u00e3o deste programa de regulariza\u00e7\u00e3o que concede aos imigrantes venezuelanos uma permiss\u00e3o de resid\u00eancia de 10 anos, que pode eventualmente se tornar permanente. A outra parte da justificativa se baseia numa perspectiva de longo prazo de integra\u00e7\u00e3o dos imigrantes no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Conforme indicado no Decreto acima mencionado, a irregularidade leva \u00e0 falta de informa\u00e7\u00f5es sobre a popula\u00e7\u00e3o residente, o que tem um impacto negativo na economia e no controle do Estado sobre seu territ\u00f3rio e popula\u00e7\u00e3o. A irregularidade tamb\u00e9m encoraja as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos que, por sua vez, impede que os migrantes \u201ccontribuam para o crescimento e desenvolvimento do Estado\u201d. Assim, a solu\u00e7\u00e3o para a irregularidade no contexto de deslocamento em grande escala \u00e9 a regulariza\u00e7\u00e3o e n\u00e3o a deporta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta l\u00f3gica de regulariza\u00e7\u00e3o se baseia na compreens\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o como um fen\u00f4meno inevit\u00e1vel. Como os funcion\u00e1rios do governo colombiano declararam recentemente, &#8220;a ideia de uma porta aberta ou fechada \u00e9 absurda&#8221; porque &#8220;\u00e9 imposs\u00edvel controlar cada cent\u00edmetro&#8221; de uma fronteira t\u00e3o longa e geograficamente complexa. De sua perspectiva, os venezuelanos continuar\u00e3o a entrar em territ\u00f3rio colombiano, &#8220;com ou sem status migrat\u00f3rio&#8221;, devido \u00e0 situa\u00e7\u00e3o extrema pela qual a Venezuela est\u00e1 passando.<\/p>\n\n\n\n<p>Isto n\u00e3o significa que a Am\u00e9rica do Sul deva ser um exemplo global de governan\u00e7a migrat\u00f3ria. Existem muitos problemas na regi\u00e3o, tais como problemas de implementa\u00e7\u00e3o, epis\u00f3dios de viol\u00eancia xenof\u00f3bica e discrimina\u00e7\u00e3o, e ret\u00f3rica anti-imigra\u00e7\u00e3o. Entretanto, iniciativas como o Estatuto de Prote\u00e7\u00e3o Tempor\u00e1ria da Col\u00f4mbia, se bem-sucedidas, podem expandir o acesso aos direitos para centenas de milhares (ou milh\u00f5es) de pessoas. Al\u00e9m disso, ela est\u00e1 sendo adotada em um contexto de capacidades limitadas do Estado.<\/p>\n\n\n\n<p>O enfoque &#8220;controle estatal + direitos humanos&#8221; da governan\u00e7a migrat\u00f3ria \u00e9 caracter\u00edstica da Am\u00e9rica do Sul e se baseia no desenvolvimento de um regime migrat\u00f3rio regional que liberaliza a resid\u00eancia e facilita a mobilidade. Este regime se desenvolveu nos anos 2000 e tem uma forte ret\u00f3rica de direitos humanos. Muitos analistas t\u00eam argumentado que, com o &#8220;giro para a direita&#8221; na Am\u00e9rica do Sul, tem havido um &#8220;giro restritivo&#8221; em dire\u00e7\u00e3o a abordagens nacionais de governan\u00e7a da migra\u00e7\u00e3o regional, mas a abordagem regional segue sendo muito evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Dois estudiosos do assunto, Riggirozzi e Ryan, argumentaram recentemente que &#8220;certos elementos do regionalismo sobrevivem de forma mais ampla, [&#8230;] como desenvolvimentos de longo prazo que se encaixam em uma narrativa dial\u00e9tica mais ampla no desenvolvimento da elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas transnacionais&#8221;. A abordagem do grupo &#8220;Atl\u00e2ntico + Col\u00f4mbia&#8221; ilustra o que se quer dizer quando se afirma que as abordagens regionais sobrevivem &#8220;de forma mais ampla&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Lorenia em Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A emigra\u00e7\u00e3o de 5,6 milh\u00f5es de venezuelanos desde 2015 significa que a Am\u00e9rica do Sul est\u00e1 sofrendo o maior deslocamento for\u00e7ado da hist\u00f3ria da regi\u00e3o. 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