{"id":53412,"date":"2025-11-23T08:00:00","date_gmt":"2025-11-23T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=53412"},"modified":"2025-11-21T18:35:49","modified_gmt":"2025-11-21T21:35:49","slug":"a-abstencao-do-poder-do-povo-a-servidao-voluntaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-abstencao-do-poder-do-povo-a-servidao-voluntaria\/","title":{"rendered":"A absten\u00e7\u00e3o: do poder do povo \u00e0 servid\u00e3o volunt\u00e1ria"},"content":{"rendered":"\n<p>Nas elei\u00e7\u00f5es legislativas de 26 de outubro na Argentina, onde a participa\u00e7\u00e3o era obrigat\u00f3rio, 68% do eleitorado compareceu \u00e0s urnas. 68%. Exatamente a mesma propor\u00e7\u00e3o que votou em Cuba em novembro de 2022. Ou seja, uma elei\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica como a argentina teve o mesmo poder de convoca\u00e7\u00e3o que uma elei\u00e7\u00e3o em uma ditadura como a cubana. Isso deveria levar a alguma reflex\u00e3o sobre a democracia. E leva. O problema \u00e9 que sempre induz \u00e0s mesmas reflex\u00f5es f\u00e1ceis, que al\u00e9m de n\u00e3o fomentar nenhum debate porque repetem aquilo em que todos j\u00e1 concordam.<\/p>\n\n\n\n<p>O que est\u00e1 por tr\u00e1s de uma participa\u00e7\u00e3o t\u00e3o baixa? Alguns meses antes das elei\u00e7\u00f5es, quando a Argentina j\u00e1 tinha sete convoca\u00e7\u00f5es eleitorais com muito baixa participa\u00e7\u00e3o, o jornalista <a href=\"https:\/\/www.lanacion.com.ar\/politica\/elecciones-2025-radiografia-de-la-ausencia-nid08062025\/\">Claudio Jacquelin<\/a> apresentou tr\u00eas explica\u00e7\u00f5es: a falta de atratividade das elei\u00e7\u00f5es legislativas e da oferta de candidatos; o mal-estar com a pol\u00edtica; e a dif\u00edcil situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p>O que significa \u201cfalta de atratividade das elei\u00e7\u00f5es legislativas\u201d? As elei\u00e7\u00f5es devem ser <em>atraentes<\/em>? N\u00e3o \u00e9 suficientemente atraente eleger os representantes do povo? Ou esperamos que a participa\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica seja t\u00e3o atraente quanto um show da nossa banda favorita?<\/p>\n\n\n\n<p>A afirma\u00e7\u00e3o do \u201cmal-estar com a pol\u00edtica\u201d \u00e9 ainda mais surpreendente. A democracia existe precisamente para destituir os governantes quando eles geram mal-estar. Portanto, qual \u00e9 a l\u00f3gica segundo a qual se abst\u00e9m-se de destituir os governantes porque eles geram tal mal-estar? \u00c9 como instalar um alarme contra ladr\u00f5es e, quando eles entram em nossa casa, deslig\u00e1-lo porque o barulho nos incomoda.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, se se pretende punir com o voto, n\u00e3o \u00e9 mais expressivo o voto em branco ou nulo? Enquanto a absten\u00e7\u00e3o pode ser interpretada como desinteresse ou pregui\u00e7a, o voto em branco ou nulo mostra claramente que se fez o esfor\u00e7o de ir \u00e0s urnas e n\u00e3o se encontrou um \u00fanico candidato convincente. O voto em branco, e n\u00e3o a absten\u00e7\u00e3o, foi precisamente a estrat\u00e9gia da l\u00edder progressista argelina Zoubida Assoul para protestar contra as elei\u00e7\u00f5es \u201cde fachada\u201d na Arg\u00e9lia em 2024.<\/p>\n\n\n\n<p>A absten\u00e7\u00e3o pode ser uma forma v\u00e1lida de manifestar rejei\u00e7\u00e3o ao regime pol\u00edtico, \u00e9 claro. Mas \u00e9 v\u00e1lida quando esse sistema n\u00e3o oferece uma alternativa democr\u00e1tica, como no caso de Cuba. Foi o que fez a oposi\u00e7\u00e3o ao regime nas elei\u00e7\u00f5es de 2022 mencionadas acima: \u201cEsperamos que haja um alto n\u00edvel de absten\u00e7\u00e3o para dizer n\u00e3o \u00e0 ditadura\u201d, explicou a ativista cubana <a href=\"https:\/\/www.elmundo.es\/internacional\/2022\/11\/27\/6382496bfdddff1c7d8b456e.html\">Carolina Barreiro<\/a>. Por meio da absten\u00e7\u00e3o, protesta-se contra o regime n\u00e3o democr\u00e1tico, n\u00e3o contra os candidatos de uma democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno exclusivo da Am\u00e9rica Latina. Na mencionada Arg\u00e9lia, a participa\u00e7\u00e3o caiu de 74% em 2009 para 40% em 2019. E, em n\u00edvel mundial, em 2024, <a href=\"https:\/\/www.lanacion.com.ar\/el-mundo\/mas-alla-de-la-ciudad-de-buenos-aires-que-pasa-con-la-participacion-electoral-en-america-latina-nid24052025\/\">a m\u00e9dia de participa\u00e7\u00e3o nas elei\u00e7\u00f5es era de 62%<\/a>, 10 pontos abaixo da m\u00e9dia de 2004. De fato, em junho deste ano, Giorgia Meloni convocou a absten\u00e7\u00e3o em um referendo e conseguiu o que queria: apenas 30% dos italianos habilitados foram votar, quando era necess\u00e1rio que 50% mais um do eleitorado votasse para que a elei\u00e7\u00e3o fosse v\u00e1lida. Em vez de fazer campanha pelo voto \u201cn\u00e3o\u201d, Meloni fez campanha pelo n\u00e3o voto. O secret\u00e1rio-geral de um sindicato promotor do plebiscito, Maurizio Landini, reconheceu que a alta absten\u00e7\u00e3o deixava clara a crise democr\u00e1tica que a It\u00e1lia vive.<\/p>\n\n\n\n<p>Para n\u00e3o nos contentarmos com explica\u00e7\u00f5es f\u00e1ceis, temos que assumir que a democracia n\u00e3o \u00e9 o que acredit\u00e1vamos. Ao menos n\u00e3o como a entendemos agora. Democracia \u00e9, literalmente, o poder do povo. Nada mais. Isso n\u00e3o significa que o poder do povo seja inalien\u00e1vel, irrenunci\u00e1vel. Nada na palavra \u201cdemocracia\u201d implica que esse poder do povo seja imanente. O poder, se n\u00e3o for exercido, n\u00e3o existe. Se o povo n\u00e3o exerce seu poder, ele renuncia a ele. Deixa de t\u00ea-lo. E se n\u00e3o h\u00e1 poder do povo, naturalmente n\u00e3o se pode falar em democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Haver\u00e1 ent\u00e3o um v\u00e1cuo de poder? A democracia dar\u00e1 lugar \u00e0 anarquia? Claro que n\u00e3o: algu\u00e9m ocupar\u00e1 e exercer\u00e1 o poder a que o povo renuncia. N\u00e3o sabemos exatamente quem, nem o que far\u00e1 com esse poder. O que sabemos com certeza \u00e9 que n\u00e3o ser\u00e1 democracia.<\/p>\n\n\n\n<p>Existem distintas formas de nos referirmos a regimes n\u00e3o democr\u00e1ticos: ditadura, autocracia, autoritarismo. Todos eles compartilham uma conota\u00e7\u00e3o que resulta conveniente, na medida em que isentam o povo de toda responsabilidade: um ditador, um autocrata, um tirano sequestra o poder. Mas a verdade n\u00e3o tolera tal distor\u00e7\u00e3o. Quando o povo renuncia a exercer seu poder, \u00e9 sua pr\u00f3pria responsabilidade, e o regime que se instala leva um nome muito distinto, cunhado pelo fil\u00f3sofo franc\u00eas \u00c9tienne de La Bo\u00e9tie no s\u00e9culo XVI: servid\u00e3o volunt\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A queda na participa\u00e7\u00e3o eleitoral revela uma crise preocupante: quando as pessoas param de votar, a democracia se esvazia e caminha, por decis\u00e3o pr\u00f3pria, para a &#8220;servid\u00e3o volunt\u00e1ria&#8221;.<\/p>\n","protected":false},"author":283,"featured_media":53425,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,16711],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-53412","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-elecciones-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53412","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/283"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53412"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53412\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53425"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53412"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53412"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53412"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=53412"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}