{"id":5347,"date":"2021-05-06T08:45:00","date_gmt":"2021-05-06T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5347"},"modified":"2021-05-06T05:03:55","modified_gmt":"2021-05-06T08:03:55","slug":"a-obesidade-um-problema-social-nao-individual","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-obesidade-um-problema-social-nao-individual\/","title":{"rendered":"A obesidade: um problema social, n\u00e3o individual"},"content":{"rendered":"\n<p><strong><em>Co-autor Jimmy E. Ramos Valencia <\/em><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Os metadiscursos \u2013 a forma na qual os discursos s\u00e3o projetados para interagir com os destinat\u00e1rios \u2013 divulgados pela m\u00eddia e pelas &#8220;redes sociais&#8221; representam o peso corporal como uma consequ\u00eancia do estilo de vida. Eles equiparam &#8220;gordura&#8221; com &#8220;doen\u00e7a&#8221; e &#8220;magreza&#8221; com &#8220;sa\u00fade&#8221; e, consequentemente, os &#8220;gordos&#8221; seriam pessoas pregui\u00e7osas que n\u00e3o seguem um estilo de vida &#8220;saud\u00e1vel&#8221;. A obesidade, associada \u00e0 gordura, \u00e9, portanto, entendida como uma doen\u00e7a que as pessoas devem controlar e evitar. Nas sociedades neoliberais, nas quais o &#8220;indiv\u00edduo aut\u00f4nomo e auto-regulado&#8221; \u00e9 altamente valorizado, a constru\u00e7\u00e3o social relativa \u00e0s &#8220;pessoas gordas&#8221; \u00e9 especialmente condenat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"https:\/\/abeso.org.br\/obesidade-e-sobrepeso-quantos-somos\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Em 2015, segundo a Healthdata, existiam 107,7 milh\u00f5es de crian\u00e7as e 603,7 milh\u00f5es de adultos obesos no mundo<\/a>. E desde 1980, a obesidade dobrou em mais de 70 pa\u00edses e tem aumentado de forma constante na maioria dos outros pa\u00edses. A obesidade, entretanto, permanece sendo um problema est\u00e9tico e comportamental para as sociedades, de acordo com a m\u00eddia especializada Medwave.<\/p>\n\n\n\n<p>Esta \u00e9 uma luz de alerta para os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina que, no in\u00edcio da terceira d\u00e9cada do s\u00e9culo XXI, mostram estat\u00edsticas que refletem um aumento significativo do problema. Os dois pa\u00edses que melhor representam a rela\u00e7\u00e3o entre a pol\u00edtica neoliberal e <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/br\/a-pandemia-poderia-trazer-uma-crise-alimentar-para-a-america-latina\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o crescimento populacional na Am\u00e9rica Latina<\/a> s\u00e3o o Chile e o M\u00e9xico. Por exemplo, no caso do M\u00e9xico, um dos pa\u00edses mais afetados, em 1993 a S\u00edndrome Metab\u00f3lica, \u2013 fatores de risco para doen\u00e7as card\u00edacas, diabetes e outros problemas de sa\u00fade ligados \u00e0 obesidade \u2013 afetou 30% das pessoas com mais de 20 anos de idade, de acordo com a Pesquisa Nacional de Sa\u00fade e Nutri\u00e7\u00e3o (ENSANUT), enquanto em 2012 sete em cada dez adultos apresentavam sobrepeso e obesidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Duas d\u00e9cadas ap\u00f3s a declara\u00e7\u00e3o do estado de alerta para a <em>globesidade<\/em> \u2013 um termo cunhado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade para se referir \u00e0 crescente pandemia de excesso de peso \u2013 o aumento da obesidade n\u00e3o parou de aumentar e sua propaga\u00e7\u00e3o \u00e9 muito mais complexa. Isto reflete o fracasso das estrat\u00e9gias implementadas em pa\u00edses como os Estados Unidos e o Reino Unido, que sempre abordaram o problema a partir de uma esfera individual associada ao comportamento, em vez de abord\u00e1-lo de forma abrangente, propondo mudan\u00e7as nos subsistemas econ\u00f4mico, alimentar e pol\u00edtico. O grande exemplo dos anos 1990 do aumento deste problema de sa\u00fade, associado \u00e0s mudan\u00e7as nas pol\u00edticas econ\u00f4micas e sociais, foi a Irlanda.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Obesidade versus estilo de vida<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A complexidade dos estudos sociais sobre obesidade pode ser resumida nos resultados encontrados pelo renomado especialista em obesidade Arnaiz em 2014. Seus resultados mostram que os obesos, apesar de estarem acima do peso e serem obesos, consideram seu estado de sa\u00fade &#8220;saud\u00e1vel&#8221;. Apesar disso, as pessoas tamb\u00e9m internalizam concep\u00e7\u00f5es predominantes sobre a &#8220;gordura&#8221; como uma condi\u00e7\u00e3o ruim e insalubre, o que, por sua vez, estabelece concep\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias sobre seu pr\u00f3prio corpo e seu estado de sa\u00fade.<\/p>\n\n\n\n<p>Diferen\u00e7as \u00e0 parte, a atual abordagem reducionista da sa\u00fade e a &#8220;guerra \u00e0 obesidade&#8221; global s\u00e3o problem\u00e1ticas e potencialmente prejudiciais. Enquanto os riscos ambientais, como argumentam os estudiosos Costa-Font e Mas, s\u00e3o medidos empiricamente no sistema globalizado de produ\u00e7\u00e3o e distribui\u00e7\u00e3o, os &#8220;riscos de estilo de vida&#8221; s\u00e3o baseados no uso volunt\u00e1rio a longo prazo &#8211; ou mau uso &#8211; de bens de risco que s\u00e3o legalmente distribu\u00eddos no mercado.<\/p>\n\n\n\n<p>Nos Estados Unidos e no Reino Unido, a abordagem do problema n\u00e3o levou em conta que se trata de uma condi\u00e7\u00e3o sist\u00eamica que transcende as esferas psicol\u00f3gicas (individuais), econ\u00f4micas (sociais) e pol\u00edticas (sociais). Isto cimentou o debate e limitou a implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas eficientes para combater o aumento da doen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Quem \u00e9 o culpado?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A defini\u00e7\u00e3o, a import\u00e2ncia e as consequ\u00eancias da obesidade como doen\u00e7a mudaram drasticamente nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Uma vez considerada uma comorbidade comum de outras doen\u00e7as cr\u00f4nicas, a obesidade \u00e9 agora definida como uma condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica espec\u00edfica que merece aten\u00e7\u00e3o e recursos p\u00fablicos.<\/p>\n\n\n\n<p>A etiologia \u2013 a ci\u00eancia focada no estudo da causa da doen\u00e7a \u2013 da obesidade \u00e9 consistentemente atribu\u00edda ao triunvirato da superalimenta\u00e7\u00e3o, \u00e0 diminui\u00e7\u00e3o da atividade f\u00edsica e aos fatores do estilo de vida. Pesquisas recentes colocam cerca de 22 milh\u00f5es de crian\u00e7as com menos de cinco anos acima do peso devido a estilos de vida sedent\u00e1rios e h\u00e1bitos alimentares ocidentais. Os pa\u00edses desenvolvidos est\u00e3o experimentando taxas sem precedentes de doen\u00e7as cr\u00f4nicas com\u00f3rbidas e o in\u00edcio mais precoce da diabete tipo 2 entre crian\u00e7as e adultos jovens.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora as taxas de obesidade tenham estabilizado seu aumento, a preval\u00eancia da obesidade continua sendo um problema de sa\u00fade p\u00fablica para as gera\u00e7\u00f5es atuais e futuras. Em termos de custo econ\u00f4mico e conscientiza\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, a obesidade ganhou uma posi\u00e7\u00e3o de destaque no \u00e2mbito dos problemas sociais ao levantar preocupa\u00e7\u00f5es e controv\u00e9rsias e estimular a a\u00e7\u00e3o p\u00fablica em nome dos cidad\u00e3os afetados. Socialmente, a medicaliza\u00e7\u00e3o da obesidade definiu as pessoas obesas como &#8220;doentes&#8221; devido ao risco para sua sa\u00fade pessoal, o custo para a sociedade e a marginaliza\u00e7\u00e3o social. A obesidade continua sendo um assunto privado sem uma solu\u00e7\u00e3o socialmente constru\u00edda ou informada.<\/p>\n\n\n\n<p>A institucionaliza\u00e7\u00e3o da obesidade como um problema de sa\u00fade p\u00fablica no final dos anos 1990 refor\u00e7ou a especializa\u00e7\u00e3o m\u00e9dica nos esfor\u00e7os de tratamento e preven\u00e7\u00e3o. A biomedicaliza\u00e7\u00e3o promoveu uma despersonaliza\u00e7\u00e3o e desestigmatiza\u00e7\u00e3o da condi\u00e7\u00e3o de obesidade como resultado unicamente atribu\u00edvel a h\u00e1bitos pessoais e responsabilidade individual.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, as propostas para conter a propaga\u00e7\u00e3o da obesidade na Am\u00e9rica Latina devem levar em conta que a representa\u00e7\u00e3o social da obesidade pelos especialistas passou de um problema moral a uma doen\u00e7a que deve ser explicada e medida cientificamente. E, acima de tudo, deve ser abordada de forma abrangente.<\/p>\n\n\n\n<p>Martha C. Jaramillo Cardona \u00e9 professora e pesquisadora da Universidade Aut\u00f4noma da Baixa Calif\u00f4rnia (UABC). Membro do Sistema Nacional de Pesquisadores (SNI). Especializada em sa\u00fade e pol\u00edticas p\u00fablicas. Doutora em Ci\u00eancias Sociais pelo Colegio da Fronteira Norte (M\u00e9xico).<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><sub>Jimmy E. Ramos Valencia \u00e9 professor da Universidade Aut\u00f3noma de Baixa Calif\u00f4rnia (UABC). Doutor em Estudos de Desenvolvimento Global da UABC. <\/sub><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Foto de Tobyotter em Foter.com<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O co-autor Jimmy E. Ramos Valencia<br \/>\nOs metadiscursos representam o peso corporal como conseq\u00fc\u00eancia do estilo de vida. 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