{"id":53587,"date":"2025-12-01T09:00:00","date_gmt":"2025-12-01T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=53587"},"modified":"2025-12-01T08:53:16","modified_gmt":"2025-12-01T11:53:16","slug":"para-ler-o-tio-donald","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/para-ler-o-tio-donald\/","title":{"rendered":"Para ler o Tio Donald"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O sonhador Walt Disney jamais havia imaginado que suas criaturas e reinos de fantasia acabariam encarnando em personagens e hist\u00f3rias t\u00e3o reais.<\/em><br><em>\u201cPara ler o Pato Donald: Comunica\u00e7\u00e3o de massa e colonialismo\u201d<\/em> \u00e9 um livro dos anos 1970 escrito pelo argentino-chileno <strong>Ariel Dorfman<\/strong> e <strong>Armand Mattelart<\/strong>, soci\u00f3logo belga e refer\u00eancia em estudos de comunica\u00e7\u00e3o, falecido no \u00faltimo dia 31 de outubro aos 89 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>Publicado pela primeira vez no Chile durante o governo de Salvador Allende, com pref\u00e1cio do soci\u00f3logo argentino H\u00e9ctor Schmucler, Mattelart e Dorfman analisavam criticamente os quadrinhos da Walt Disney, argumentando que eles funcionavam como <strong>propaganda capitalista e imperialista dos EUA<\/strong>. Sustentavam que o poder dos quadrinhos da Disney residia em sua aparente neutralidade e inoc\u00eancia, que o humor e a divers\u00e3o serviam como ve\u00edculos para exportar uma vis\u00e3o de mundo em que os pa\u00edses perif\u00e9ricos ou subdesenvolvidos cumpriam a fun\u00e7\u00e3o de fornecer mat\u00e9rias-primas e tesouros que os personagens \u2014 como <strong>Tio Patinhas<\/strong> \u2014 exploravam e levavam para os EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Atrav\u00e9s das hist\u00f3rias e contos infantis, transmitia-se uma maneira de ver o mundo e travava-se uma \u201cbatalha pelos cora\u00e7\u00f5es e mentes\u201d de crian\u00e7as e adultos. Nos desenhos animados, os patos viajavam para outros pa\u00edses e territ\u00f3rios, chamados<em> \u201cBananal\u00e2ndia\u201d, \u201cPatag\u00f4nia do Sul\u201d, \u201cTropicol\u00e2ndia\u201d, \u201cAztecl\u00e2ndia\u201d, \u201cAltiplano do abandono\u201d, \u201cInca-Blinca\u201d ou \u201cInestablest\u00e3o\u201d, <\/em><strong>vers\u00f5es caricaturais do Terceiro Mundo<\/strong>, onde os habitantes aparecem como ing\u00eanuos, infantis e supersticiosos. Donald e seus sobrinhos chegam do \u201ccentro\u201d civilizado para ensin\u00e1-los, comercializar ou extrair tesouros. Nessa leitura, os quadrinhos reproduziam simbolicamente as rela\u00e7\u00f5es de subordina\u00e7\u00e3o e depend\u00eancia entre os Estados Unidos e a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim o analisavam:<em> \u201cNos enormes cofrinhos do Tio Patinhas (para n\u00e3o aludir ao Mickey, que nunca guarda nada, e Donald, nem falar) nunca h\u00e1 a menor presen\u00e7a de um objeto manufaturado, apesar de termos visto que, em meio a uma aventura, ele leva alguma obra de ourivesaria para sua casa. Apenas notas e moedas. Assim que o tesouro sai do pa\u00eds de origem e toca o dinheiro do Tio Patinhas, sua forma desaparece, \u00e9 engolida pelos d\u00f3lares. Perde o \u00faltimo vest\u00edgio que poderia lig\u00e1-lo a pessoas, ao tempo, a lugares. Acaba sendo ouro inodoro, sem p\u00e1tria e sem hist\u00f3ria. Tio Patinhas pode tomar banho sem que as arestas dos \u00eddolos o belisquem. Tudo \u00e9 alquimizado mecanicamente (sem m\u00e1quinas) em um padr\u00e3o monet\u00e1rio \u00fanico que conclui todo sopro humano. E, para completar, a aventura que levou a essa rel\u00edquia se esvai junto com a pr\u00f3pria rel\u00edquia (de forma por si s\u00f3 fraca). Como tesouro na terra, indicava o passado, por mais remoto que fosse, e como tesouro na Patol\u00e2ndia, indicava a aventura vivida, por mais remota que fosse; a mem\u00f3ria pessoal de Tio Patinhas se apaga \u00e0 medida que a mem\u00f3ria hist\u00f3rica da ra\u00e7a origin\u00e1ria se obscurece. \u00c9 a hist\u00f3ria que se funde no cadinho do d\u00f3lar. \u00c9 falso, ent\u00e3o, o valor educativo e est\u00e9tico dessas hist\u00f3rias em quadrinhos, que se apresentam como uma viagem pelo tempo e pela geografia, ajudando o pequeno leitor em seu conhecimento da hist\u00f3ria humana (templos, ru\u00ednas, etc.). Essa hist\u00f3ria existe para ser derrubada, para ser devolvida ao d\u00f3lar, que \u00e9 seu \u00fanico progenitor e t\u00famulo. A Disney mata at\u00e9 mesmo a arqueologia, essa ci\u00eancia das manufaturas mortas.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p>Os autores tamb\u00e9m mencionavam os <strong>estere\u00f3tipos de g\u00eanero e poder<\/strong> presentes nas personagens femininas, frequentemente decorativas, e as rela\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias e hier\u00e1rquicas em que os tios mandam e os sobrinhos obedecem. Em resumo, o livro interpretava os quadrinhos da Disney como um \u201cmanual de instru\u00e7\u00f5es\u201d para os povos dependentes sobre como deveriam ser suas rela\u00e7\u00f5es com o grande vizinho do Norte.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse livro despertou pol\u00eamicas e se tornou um best-seller internacional e um texto emblem\u00e1tico nos estudos de comunica\u00e7\u00e3o e cultura, gerando um grande debate sobre o papel da m\u00eddia de massa. Sobreviveu \u00e0 censura e \u00e0 queima de livros nos tempos das ditaduras dos anos 70 e foi reeditado v\u00e1rias vezes. N\u00e3o \u00e9 preciso dizer que a ideia de um projeto alternativo de sociedade que ent\u00e3o subjazia foi varrida do mapa, derrotada, desfigurada ou superada pelos ventos e tempestades que ajudou a desencadear. A esquerda e a direita latino-americanas processaram de maneira diferente a dura aprendizagem dessas lutas ideol\u00f3gicas que custaram tanto sangue e tantos fracassos.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, imagens <strong>do Tio Sam encarnado na figura de Donald Trump<\/strong> e de l\u00edderes latino-americanos cativados pela <strong>avers\u00e3o ou fasc\u00ednio pelo \u201cimp\u00e9rio americano\u201d<\/strong> levam a relembrar aquela leitura de Dorfman e Mattelart. Em um contexto pol\u00edtico mais polarizado e um ecossistema midi\u00e1tico muito mais fragmentado e agressivo, mas tamb\u00e9m de resili\u00eancias democr\u00e1ticas que permitem a coexist\u00eancia em liberdade e o processamento pac\u00edfico dos conflitos, talvez o enfoque j\u00e1 n\u00e3o passe tanto por decifrar mensagens ocultas, mas por analisar uma performance p\u00fablica em que a l\u00f3gica parece se inverter: de uma fic\u00e7\u00e3o que se inspira na realidade para criar hist\u00f3rias, personagens e narrativas, <strong>a uma realidade h\u00edbrida (virtual\/real) que, por vezes, nos parece uma caricatura de si mesma<\/strong>. O vision\u00e1rio Walt Disney jamais poderia ter imaginado que suas criaturas e reinos fant\u00e1sticos acabariam por se materializar em personagens e hist\u00f3rias t\u00e3o reais.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Tio Donald, al\u00e9m dos quadrinhos da Disney, continua mostrando como a fantasia reflete e questiona as rela\u00e7\u00f5es de poder e a pol\u00edtica na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n","protected":false},"author":72,"featured_media":53578,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16757],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-53587","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-eeuu-pt-br","8":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53587","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/72"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53587"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53587\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53578"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53587"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53587"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53587"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=53587"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}