{"id":54111,"date":"2025-12-18T09:00:00","date_gmt":"2025-12-18T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54111"},"modified":"2025-12-18T08:52:49","modified_gmt":"2025-12-18T11:52:49","slug":"cop30-quem-tem-acesso-as-informacoes-necessarias-para-enfrentar-a-crise-climatica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/cop30-quem-tem-acesso-as-informacoes-necessarias-para-enfrentar-a-crise-climatica\/","title":{"rendered":"COP30: quem tem acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para enfrentar a crise clim\u00e1tica?"},"content":{"rendered":"\n<p>A 30\u00aa Confer\u00eancia do Clima da ONU (COP30), realizada na cidade de Bel\u00e9m que est\u00e1 no cora\u00e7\u00e3o da Floresta Amaz\u00f4nica, pode entrar para a hist\u00f3ria por algo que vai muito al\u00e9m das negocia\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas sobre emiss\u00f5es e metas internacionais. A confer\u00eancia finalmente colocou \u00e0 mesa a discuss\u00e3o sobre acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, alfabetiza\u00e7\u00e3o digital e direitos informacionais de comunidades subalternizadas.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o \u00e9 pouca coisa. Por d\u00e9cadas, as confer\u00eancias clim\u00e1ticas trataram de ci\u00eancia, economia, geopol\u00edtica e transi\u00e7\u00f5es energ\u00e9ticas, mas raramente olharam para a pergunta que define a vida de milh\u00f5es de pessoas: quem realmente tem acesso \u00e0s informa\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para enfrentar a crise clim\u00e1tica?<\/p>\n\n\n\n<p>Nos documentos aprovados &#8211; especialmente a<a href=\"https:\/\/cop30.br\/pt-br\/noticias-da-cop30\/documentos-cop30\/12-11-2025_cop30_declaracao-sobre-a-integridade-da-informacao-sobre-mudanca-do-clima_port-1.pdf\/@@download\/file\"> Declara\u00e7\u00e3o sobre a Integridade da Informa\u00e7\u00e3o sobre Mudan\u00e7a do Clima<\/a> e o texto final conhecido como<a href=\"https:\/\/static.poder360.com.br\/2025\/11\/COP30-texto-final.pdf\"> Mutir\u00e3o Global<\/a> &#8211; a ONU reconhece que desinforma\u00e7\u00e3o, negacionismo, ataques \u00e0 ci\u00eancia e desigualdade no acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o quest\u00f5es centrais da agenda clim\u00e1tica contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse movimento \u00e9 importante porque legitima, em escala internacional, algo que pesquisadores e comunicadores comunit\u00e1rios sabem h\u00e1 muito tempo: as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas impactam mais onde a informa\u00e7\u00e3o chega menos. Ao admitir isso, a COP30 d\u00e1 um passo simb\u00f3lico importante, reconhecendo que a informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 uma ferramenta de sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Solu\u00e7\u00e3o entregue ao voluntarismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas o entusiasmo inicial logo esbarra na dura realidade da pol\u00edtica: apesar de citar temas cruciais, a COP30 faz isso por meio de verbos t\u00edmidos e sem for\u00e7a regulat\u00f3ria, como: incentivar, apoiar, convidar e promover. N\u00e3o h\u00e1 obriga\u00e7\u00f5es, prazos, monitoramento, financiamento ou metas vinculantes. A ONU descreve o problema com precis\u00e3o, mas entrega a solu\u00e7\u00e3o ao voluntarismo dos governos.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa lacuna n\u00e3o \u00e9 um detalhe, ela produz consequ\u00eancias concretas e profundamente desiguais. Quando um documento global n\u00e3o determina a\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas, o impacto dessa aus\u00eancia n\u00e3o se distribui de forma igualit\u00e1ria. Pelo contr\u00e1rio, o peso recai justamente sobre quem j\u00e1 vive na linha de frente da crise clim\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p>A Confer\u00eancia do Clima cita povos ind\u00edgenas, popula\u00e7\u00f5es negras, mulheres, crian\u00e7as, migrantes e comunidades locais. Mas nomear n\u00e3o \u00e9 o mesmo que priorizar &#8211; e muito menos garantir a\u00e7\u00e3o. Ao n\u00e3o transformar esse reconhecimento em pol\u00edticas operacionais, essas popula\u00e7\u00f5es continuam sub-representadas, agora n\u00e3o pela omiss\u00e3o total, mas pela inclus\u00e3o superficial. A ONU fala sobre elas, mas n\u00e3o a partir delas.<\/p>\n\n\n\n<p>As favelas latino-americanas, especialmente as brasileiras, s\u00e3o um retrato contundente dessa dist\u00e2ncia entre discurso e realidade. Esses territ\u00f3rios, marcados pela aus\u00eancia do Estado e por desigualdades persistentes, concentram alguns dos grupos mais afetados pela crise clim\u00e1tica: mulheres, crian\u00e7as, popula\u00e7\u00e3o negra, migrantes e idosos.&nbsp; S\u00e3o nesses espa\u00e7os que a desigualdade de informa\u00e7\u00e3o se torna ainda mais evidente.<\/p>\n\n\n\n<p>Falar sobre \u201cacesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o\u201d em regi\u00f5es que convivem com internet inst\u00e1vel, celulares limitados, aus\u00eancia de computadores e plataformas p\u00fablicas inacess\u00edveis n\u00e3o \u00e9 um desafio meramente t\u00e9cnico &#8211; \u00e9 um desafio pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p>S\u00e3o o que identifico como desertos informacionais: lugares onde os fluxos de informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o escassos, interrompidos ou distorcidos; territ\u00f3rios onde o conhecimento cient\u00edfico sobre o clima chega tarde demais, ou simplesmente n\u00e3o chega. Onde o alerta de chuva forte se perde entre o sinal fraco da operadora, o aplicativo que n\u00e3o abre e os dados clim\u00e1ticos escritos numa linguagem que n\u00e3o dialoga com o cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Manuten\u00e7\u00e3o de privil\u00e9gios<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A aus\u00eancia de medidas pr\u00e1ticas escancara a l\u00f3gica que Bruno Latour (2020) j\u00e1 havia identificado: a desinforma\u00e7\u00e3o e a falta de pol\u00edticas p\u00fablicas n\u00e3o s\u00e3o acidentais, elas funcionam para manter privil\u00e9gios. Quando a ONU evita se comprometer com mecanismos vinculantes, refor\u00e7a a simetria perversa da crise clim\u00e1tica, em que aqueles que menos poluem continuam sendo os mais impactados, e aqueles que mais poluem continuam decidindo o ritmo das respostas globais.<\/p>\n\n\n\n<p>No fim das contas, a COP30 repete um padr\u00e3o cl\u00e1ssico das negocia\u00e7\u00f5es multilaterais: avan\u00e7a no discurso, mas deixa a pr\u00e1tica para depois. Um \u201cdepois\u201d que nunca chega para quem vive no limite da sobreviv\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa dist\u00e2ncia entre o que se declara e o que se faz mant\u00e9m um abismo entre os grandes negociadores internacionais e as popula\u00e7\u00f5es nos territ\u00f3rios. A norma avan\u00e7a, a linguagem se sofistica, os documentos se multiplicam, mas a vida nas comunidades perif\u00e9ricas permanece marcada pela falta de estrutura, de rede el\u00e9trica est\u00e1vel, de saneamento, de conectividade e de pol\u00edticas territoriais robustas. Fala-se muito sobre resili\u00eancia, mas pouco sobre as condi\u00e7\u00f5es materiais e informacionais que tornam a resili\u00eancia poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p>A COP30 abriu um debate importante e necess\u00e1rio: reconheceu que informa\u00e7\u00e3o \u00e9 um instrumento para a justi\u00e7a social e clim\u00e1tica. Mas ainda vivemos em um mundo onde a velocidade do discurso internacional \u00e9 infinitamente maior do que a velocidade da pol\u00edtica p\u00fablica. O risco \u00e9 que a COP30 entre para a hist\u00f3ria como mais um grande encontro que falou sobre inclus\u00e3o, mas que n\u00e3o incluiu, de forma pr\u00e1tica, quem mais vivencia a crise clim\u00e1tica. E sem a\u00e7\u00e3o inclusiva, n\u00e3o h\u00e1 justi\u00e7a clim\u00e1tica poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Realizada na Amaz\u00f4nia, a COP30 colocou no centro do debate clim\u00e1tico uma quest\u00e3o fundamental e adiada: a desigualdade no acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o como fator que agrava a vulnerabilidade das comunidades mais afetadas pela crise clim\u00e1tica.<\/p>\n","protected":false},"author":846,"featured_media":54101,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16897,16794],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-54111","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cambio-climatico-pt-br","8":"category-desinformacion-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54111","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/846"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54111"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54111\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54101"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54111"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54111"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54111"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=54111"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}