{"id":54237,"date":"2025-12-26T09:00:00","date_gmt":"2025-12-26T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54237"},"modified":"2025-12-26T13:02:38","modified_gmt":"2025-12-26T16:02:38","slug":"em-nome-de-deus-o-caracter-messianico-do-populismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/em-nome-de-deus-o-caracter-messianico-do-populismo\/","title":{"rendered":"Em nome de Deus: o car\u00e1cter messi\u00e2nico do populismo"},"content":{"rendered":"\n<p>Jair Bolsonaro e Hugo Ch\u00e1vez, apesar de representarem extremos opostos do espectro pol\u00edtico, t\u00eam uma caracter\u00edstica em comum: ambos usaram discursos e s\u00edmbolos religiosos para se apresentarem como \u201csalvadores da p\u00e1tria\u201d, cada um assumindo o papel de l\u00edder escolhido por uma miss\u00e3o divina em meio a crises pol\u00edticas e institucionais. Com narrativas que misturam f\u00e9 e pol\u00edtica, o que chamamos de populismo messi\u00e2nico, tanto Bolsonaro quanto Ch\u00e1vez conseguiram transformar suas imagens p\u00fablicas usando elementos religiosos para legitimar suas a\u00e7\u00f5es e conquistar seguidores.<\/p>\n\n\n\n<p>O populismo \u00e9 um fen\u00f4meno complexo e multidimensional, que pode ser visto como um movimento, uma estrat\u00e9gia ou uma ideologia, e que muitas vezes se op\u00f5e \u00e0 democracia liberal, justificando a transgress\u00e3o de seus princ\u00edpios em nome da vontade popular. Se manifesta em lideran\u00e7as que polarizam a sociedade entre \u201cpovo\u201d e \u201celite\u201d, promovendo a centraliza\u00e7\u00e3o do poder, a desconfian\u00e7a institucional e a ret\u00f3rica de crise e amea\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>O populismo messi\u00e2nico, em particular, enfatiza o culto \u00e0 personalidade do l\u00edder como salvador hist\u00f3rico, utilizando a mobiliza\u00e7\u00e3o emocional e a manipula\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica para consolidar seu dom\u00ednio e limitar a oposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 encarnado por l\u00edderes carism\u00e1ticos que se posicionam como salvadores diante de elites consideradas corruptas ou como amea\u00e7as externas, e mobilizam discursos religiosos e simb\u00f3licos para legitimar seu poder. No Brasil, o apoio evang\u00e9lico foi essencial para Bolsonaro, enquanto na Venezuela Ch\u00e1vez contou com o apoio da Igreja Cat\u00f3lica e dos movimentos crist\u00e3os de esquerda.<\/p>\n\n\n\n<p>Ambos os casos evidenciam a sacraliza\u00e7\u00e3o do l\u00edder e a polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que mina os alicerces da democracia liberal.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O populismo messi\u00e2nico de Bolsonaro: o enviado de Deus<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Com o crescimento dos evang\u00e9licos no Brasil, Bolsonaro construiu sua imagem como l\u00edder messi\u00e2nico, utilizando simbologia crist\u00e3 para se apresentar como um salvador em uma batalha espiritual contra o mal, o comunismo e a corrup\u00e7\u00e3o. Houve dois elementos centrais que refor\u00e7aram sua narrativa providencial e sua conex\u00e3o com a base evang\u00e9lica, que o v\u00ea como um defensor da fam\u00edlia tradicional e dos valores crist\u00e3os: seu batismo no rio Jord\u00e3o, em Israel, em 2016, e a sobreviv\u00eancia ao ataque durante a campanha de 2018.<\/p>\n\n\n\n<p>O batismo no rio Jord\u00e3o, um local sagrado para o cristianismo, simbolizou o renascimento espiritual e o compromisso p\u00fablico com a f\u00e9, o que refor\u00e7ou sua legitimidade entre os evang\u00e9licos e ampliou sua base pol\u00edtica. O ataque sofrido em 2018 foi interpretado como um mart\u00edrio que precedeu sua vit\u00f3ria eleitoral e consolidou sua imagem como l\u00edder protegido por Deus e destinado a salvar o Brasil. A rea\u00e7\u00e3o nas redes sociais evidenciou a polariza\u00e7\u00e3o e a constru\u00e7\u00e3o de narrativas conspirat\u00f3rias em torno do epis\u00f3dio, e a figura de seu agressor, Ad\u00e9lio Bispo, foi demonizada para refor\u00e7ar a dicotomia entre o bem e o mal.<\/p>\n\n\n\n<p>A dualidade bem-mal segue uma l\u00f3gica sacralizante: moralmente, Bolsonaro encarna o bem e Ad\u00e9lio o mal; narrativamente, Bolsonaro \u00e9 apresentado como o salvador e Ad\u00e9lio como a amea\u00e7a. Simbolicamente, Bolsonaro representa o bem e Ad\u00e9lio \u00e9 associado ao diabo. No discurso, Bolsonaro aparece como figura legitimadora, enquanto Ad\u00e9lio \u00e9 associado \u00e0 viol\u00eancia e ao medo.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O messianismo de Hugo Ch\u00e1vez: a santifica\u00e7\u00e3o do comandante eterno<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ch\u00e1vez surgiu no contexto da crise institucional venezuelana dos anos 90, apresentando-se como um l\u00edder antiestablishment e promotor da \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Bolivariana\u201d. Sua estrat\u00e9gia combinava a mobiliza\u00e7\u00e3o popular por meio de programas sociais e o desmantelamento institucional para centralizar o Poder Executivo. A rela\u00e7\u00e3o com as for\u00e7as armadas e o uso de discursos simb\u00f3licos fortaleceram sua identidade pol\u00edtica, que incorporou elementos espirituais e redentores, associando-se ao libertador Sim\u00f3n Bol\u00edvar e criando uma religi\u00e3o pol\u00edtica secular que persistiu ap\u00f3s sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s sua morte, Ch\u00e1vez foi popularmente santificado, com a cria\u00e7\u00e3o de uma capela dedicada a ele e a incorpora\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos religiosos cat\u00f3licos e elementos do chavismo nas pr\u00e1ticas devocionais. H\u00e1 murais, imagens dos \u201colhos de Ch\u00e1vez\u201d e ora\u00e7\u00f5es adaptadas que exemplificam essa fus\u00e3o entre o pol\u00edtico e o sagrado, consolidando sua figura como entidade espiritual e s\u00edmbolo moral da revolu\u00e7\u00e3o. Essa sacraliza\u00e7\u00e3o popular, embora n\u00e3o reconhecida oficialmente pela Igreja Cat\u00f3lica, refor\u00e7a a continuidade do carisma e da autoridade pol\u00edtica do l\u00edder falecido.<\/p>\n\n\n\n<p>A rela\u00e7\u00e3o entre religi\u00e3o e pol\u00edtica \u00e9 central na constru\u00e7\u00e3o de populismos messi\u00e2nicos na Am\u00e9rica Latina, onde l\u00edderes como Bolsonaro e Ch\u00e1vez utilizam elementos religiosos para legitimar seu poder, mobilizar emo\u00e7\u00f5es coletivas e consolidar identidades pol\u00edticas. A instrumentaliza\u00e7\u00e3o de s\u00edmbolos sagrados, narrativas de miss\u00e3o divina e epis\u00f3dios de mart\u00edrio ou santifica\u00e7\u00e3o refor\u00e7am o v\u00ednculo carism\u00e1tico com os seguidores e desafiam as institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas tradicionais. Apesar das diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas, ambos os casos ilustram como a pol\u00edtica e a religi\u00e3o se entrela\u00e7am para conferir significado e transcend\u00eancia aos projetos de poder na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jair Bolsonaro e Hugo Ch\u00e1vez, apesar de representarem extremos opostos do espectro pol\u00edtico, t\u00eam uma caracter\u00edstica em comum: ambos usaram discursos e s\u00edmbolos religiosos para se apresentarem como \u201csalvadores da p\u00e1tria\u201d, cada um assumindo o papel de l\u00edder escolhido por uma miss\u00e3o divina em meio a crises pol\u00edticas e institucionais. 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