{"id":54317,"date":"2026-01-02T11:00:34","date_gmt":"2026-01-02T14:00:34","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54317"},"modified":"2026-01-02T20:06:36","modified_gmt":"2026-01-02T23:06:36","slug":"2025-america-em-reajuste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/2025-america-em-reajuste\/","title":{"rendered":"2025: Am\u00e9rica em reajuste"},"content":{"rendered":"\n<p>O ano de 2025 encerra-se com a sensa\u00e7\u00e3o compartilhada de que o continente americano atravessa um profundo reajuste, embora sem encontrar um rumo est\u00e1vel. As elei\u00e7\u00f5es, longe de serem celebra\u00e7\u00f5es da for\u00e7a democr\u00e1tica, confirmaram que o voto hoje legitima projetos incompat\u00edveis entre si: de governos liberais que apostam na redu\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica do Estado a experi\u00eancias conservadores sustentados em identidades culturais tradicionais, passando por regimes linha-dura que parecem depender mais da obedi\u00eancia emocional do eleitorado do que do equil\u00edbrio institucional. O mapa pol\u00edtico n\u00e3o s\u00f3 mudou de cor; mudou de l\u00f3gica. A Am\u00e9rica est\u00e1 girando novamente, mas o faz sobre um solo cada vez mais fr\u00e1gil, corro\u00eddo pelo desencanto dos cidad\u00e3os, pela inseguran\u00e7a estrutural e pela incapacidade dos sistemas pol\u00edticos de produzir certeza.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica do Sul foi o palco mais vis\u00edvel dessa transforma\u00e7\u00e3o. Na Argentina, Javier Milei completou o segundo ano de seu singular experimento liberal-libert\u00e1rio com um profundo ajuste econ\u00f4mico que, embora tenha come\u00e7ado a conter a infla\u00e7\u00e3o, n\u00e3o conseguiu aliviar o fardo di\u00e1rio dos setores mais vulner\u00e1veis. O pa\u00eds vive preso entre um governo que se assume portador de uma miss\u00e3o \u201crefundacional\u201d, disposto a romper com d\u00e9cadas de pr\u00e1ticas estadistas, e uma sociedade cansada que exige resultados tang\u00edveis al\u00e9m dos discursos sobre revolu\u00e7\u00e3o cultural ou liberdade econ\u00f4mica. N\u00e3o se trata somente do \u00eaxito ou fracasso de um programa econ\u00f4mico; o que est\u00e1 em jogo \u00e9 a pr\u00f3pria possibilidade de um projeto antisistema se tornar uma alternativa democraticamente sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O Chile confirmou essa tend\u00eancia regional. <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/como-entender-a-vitoria-de-kast\/\">A vit\u00f3ria eleitoral de Jos\u00e9 Antonio Kast<\/a> simbolizou o retorno de uma direita radical ao poder, respaldada por um expressivo voto territorial. Contudo, esse triunfo n\u00e3o se traduziu na capacidade de governar sem freios: o novo presidente assume uma maioria parlamentar limitada, o que o obriga a operar em um Congresso adverso e altamente fragmentado. O caso chileno volta a demonstra que a legitimidade eleitoral nem sempre garante a governabilidade e que o continente transita para um modelo em que a popularidade presidencial enfrenta contrapesos legislativos que o debilita desde o primeiro dia. A Bol\u00edvia tamb\u00e9m ofereceu a ruptura mais simb\u00f3lica: ap\u00f3s duas d\u00e9cadas de hegemonia do MAS, um governo de centro-direita chegou ao poder e tentou desmantelar os pilares distributivos que definiam o pa\u00eds desde o in\u00edcio do s\u00e9culo. A rea\u00e7\u00e3o social foi imediata: greves, protestos e um conflito pol\u00edtico que mergulhou o pa\u00eds novamente na instabilidade. O Brasil, por sua vez, optou pela continuidade. Lula da Silva anunciou sua inten\u00e7\u00e3o de concorrer novamente, alimentando um paradoxo regional: o continente exige renova\u00e7\u00e3o, mas muitas de suas figuras centrais seguem dependendo de l\u00edderes do passado recente.<\/p>\n\n\n\n<p>A Am\u00e9rica Central viveu um processo diferente: l\u00e1, a disputa n\u00e3o foi ideol\u00f3gica, mas institucional. El Salvador aprofundou seu modelo plebiscit\u00e1rio de seguran\u00e7a total, com um estado que se expande das pris\u00f5es para todos os \u00e2mbitos da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Na Nicar\u00e1gua, a repress\u00e3o pol\u00edtica continuou com a mesma intensidade, e a democracia deixou de ser um horizonte e se tornou uma lembran\u00e7a. A Guatemala tentou avan\u00e7ar com uma agenda anticorrup\u00e7\u00e3o sob a constante amea\u00e7a de redes pol\u00edticas e judiciais que buscam impedir qualquer reforma estrutural. A Am\u00e9rica Central parece ter sacrificado a democracia liberal em troca de uma lideran\u00e7a forte, e o aspecto preocupante \u00e9 que essa mudan\u00e7a goza de significativo apoio popular.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto isso, o M\u00e9xico e o Equador exemplificaram o conflito latino-americano entre viol\u00eancia estrutural e legitimidade democr\u00e1tica. No M\u00e9xico, a primeira fase do governo de Claudia Sheinbaum foi marcada por um ajuste estrat\u00e9gico em mat\u00e9ria de seguran\u00e7a: manteve-se a participa\u00e7\u00e3o das for\u00e7as armadas como um elemento central do controle territorial, mas o componente civil foi refor\u00e7ado na preven\u00e7\u00e3o, intelig\u00eancia e coordena\u00e7\u00e3o institucional. Esse enfoque, com um entorno econ\u00f4mico est\u00e1vel e um d\u00f3lar forte, ajudou a manter altos n\u00edveis de aprova\u00e7\u00e3o presidencial at\u00e9 o final do ano. Em paralelo, a nova Suprema Corte de Justi\u00e7a da Na\u00e7\u00e3o iniciou seus trabalhos em meio a grandes expectativas e intenso escrut\u00ednio p\u00fablico. Contudo, entre setembro e dezembro, a Corte, presidida por Hugo Aguilar Ortiz, conseguiu consolidar uma imagem de autonomia institucional: operou segundo seus pr\u00f3prios crit\u00e9rios, manteve-se distante da press\u00e3o pol\u00edtica e reafirmou sua capacidade de conduzir a agenda jurisdicional com independ\u00eancia. Sua implementa\u00e7\u00e3o reduziu os temores iniciais sobre a reformula\u00e7\u00e3o judicial e fortaleceu a percep\u00e7\u00e3o de um equil\u00edbrio entre poderes.<\/p>\n\n\n\n<p>O Equador seguiu um caminho oposto, mas parecido: Daniel Noboa consolidou seu mandato com a promessa de um ataque frontal ao crime organizado. Sua reelei\u00e7\u00e3o confirmou que os cidad\u00e3os j\u00e1 n\u00e3o votam s\u00f3 por projetos econ\u00f4micos ou ideol\u00f3gicos, mas por prote\u00e7\u00e3o pessoal. A seguran\u00e7a deixou de ser uma pol\u00edtica setorial e tornou-se a pr\u00f3pria ess\u00eancia do contrato social.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica do Norte, o retorno de Donald Trump modificou o equil\u00edbrio hemisf\u00e9rico. Os Estados Unidos reinstauraram uma agenda marcada pela press\u00e3o migrat\u00f3ria, endurecimento de fronteiras e uma postura mais confrontativa em rela\u00e7\u00e3o a regimes autorit\u00e1rios. O Caribe, por sua vez, continuou a lidar com sua crise humanit\u00e1ria mais severa: o Haiti permaneceu mergulhado em um colapso institucional, um lembrete brutal de que o Estado falido n\u00e3o \u00e9 mais uma categoria acad\u00eamica, mas uma experi\u00eancia real.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Democracias esgotadas: elei\u00e7\u00f5es competitivas e deriva punitivista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se observarmos o continente no geral, 2025 apresenta tr\u00eas conclus\u00f5es preocupantes. A primeira \u00e9 que <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/america-latina-2025-o-voto-de-protesto-entre-a-fragmentacao-e-a-erosao-democratica\/\">a democracia eleitoral continua operando, mas a democracia liberal est\u00e1 se erodindo<\/a>. H\u00e1 elei\u00e7\u00f5es competitivas, mas com aceita\u00e7\u00e3o cada vez menor devido \u00e0s limita\u00e7\u00f5es que sustentam o sistema. A segunda \u00e9 que o mal-estar j\u00e1 n\u00e3o impulsiona projetos progressistas de reforma social, mas sim lideran\u00e7as punitivas que priorizam a ordem em detrimento do futuro. A terceira \u00e9 que a crescente obsess\u00e3o com a seguran\u00e7a suplantou as discuss\u00f5es hist\u00f3ricas sobre desigualdade, integra\u00e7\u00e3o e desenvolvimento; hoje, o continente n\u00e3o debate como crescer, mas como sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<p>As democracias das Am\u00e9ricas seguem vivas, mas est\u00e3o exaustas. Governos mudam, ideologias se alternam, fronteiras s\u00e3o redesenhadas, mas a incerteza permanece. Em 2025, as Am\u00e9ricas reconfiguraram seu mapa pol\u00edtico sem conseguir responder \u00e0 quest\u00e3o essencial: estamos indo rumo a uma democracia mais s\u00f3lida ou transitando para uma ordem onde o medo substitui a cidadania? O ano terminou sem uma resposta clara, embora tenha deixado um alerta contundente: sociedades fatigadas nem sempre escolhem o que \u00e9 melhor; escolhem o que \u00e9 imediato. E o que \u00e9 imediato, hoje, chama-se seguran\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ano de 2025 encerra-se com a sensa\u00e7\u00e3o compartilhada de que o continente americano atravessa um profundo reajuste, embora sem encontrar um rumo est\u00e1vel. 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