{"id":54491,"date":"2026-01-11T07:00:00","date_gmt":"2026-01-11T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54491"},"modified":"2026-01-09T19:33:17","modified_gmt":"2026-01-09T22:33:17","slug":"paralisia-institucional-regressao-multilateral-e-aprofundamento-de-praticas-imperiais","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/paralisia-institucional-regressao-multilateral-e-aprofundamento-de-praticas-imperiais\/","title":{"rendered":"Paralisia institucional, regress\u00e3o multilateral e aprofundamento de pr\u00e1ticas imperiais"},"content":{"rendered":"\n<p>A pol\u00edtica internacional opera como uma pe\u00e7a teatral: organiza narrativas, define personagens e estabelece cl\u00edmax, produzindo um di\u00e1logo permanente com seu p\u00fablico. Essa dimens\u00e3o imag\u00e9tica molda percep\u00e7\u00f5es e orienta formas espec\u00edficas de compreender os conflitos armados. Por meio de jogos de simula\u00e7\u00e3o e dissimula\u00e7\u00e3o, constr\u00f3i-se um horizonte interpretativo que legitima pr\u00e1ticas, naturaliza interven\u00e7\u00f5es e estabiliza leituras. \u00c9 nessa rela\u00e7\u00e3o entre palco, coxia e plateia que se consolida um cen\u00e1rio marcado por paralisia institucional, regress\u00e3o multilateral e aprofundamento de pr\u00e1ticas imperiais, ancoradas em um direito internacional carcomido e seletivamente mobilizado.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ato (1): Organiza\u00e7\u00f5es Regionais, Multilateralismo e Direito Internacional<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Observa-se, em primeiro lugar, a inoper\u00e2ncia das organiza\u00e7\u00f5es regionais, como a UNASUL, incapaz de funcionar como inst\u00e2ncia aut\u00f4noma de coordena\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e conten\u00e7\u00e3o de conflitos. Em paralelo, assiste-se ao esvaziamento do multilateralismo liberal do p\u00f3s-Segunda Guerra, substitu\u00eddo por uma l\u00f3gica de exce\u00e7\u00e3o, unilateralismo e uso discricion\u00e1rio da for\u00e7a. Esse processo \u00e9 agravado pela recusa dos Estados Unidos em se submeterem ao Estatuto de Roma, bem como pela <em>American Service Members\u2019 Protection Act<\/em>, que institucionaliza a excepcionalidade jur\u00eddica ao impedir que cidad\u00e3os estadunidenses sejam julgados pelo Tribunal Penal Internacional. Revela-se, assim, um sistema jur\u00eddico internacional hier\u00e1rquico, profundamente assim\u00e9trico e distante de qualquer universalismo efetivo.<\/p>\n\n\n\n<p>No plano dom\u00e9stico, os Estados Unidos operam sob um regime de exce\u00e7\u00e3o permanente. Embora a Constitui\u00e7\u00e3o preveja controles institucionais, a concentra\u00e7\u00e3o de poder no Executivo, aliada \u00e0 neutraliza\u00e7\u00e3o do Legislativo e da Suprema Corte, esvazia os mecanismos de freios e contrapesos. Trata-se de uma reatualiza\u00e7\u00e3o do excepcionalismo estadunidense, intensificada pelo trumpismo, que rejeita os princ\u00edpios normativos da democracia liberal ao mesmo tempo em que instrumentaliza seletivamente suas institui\u00e7\u00f5es. A pol\u00edtica externa estadunidense estrutura-se pela produ\u00e7\u00e3o recorrente da figura do inimigo &#8211; do comunismo ao terrorismo, do narcotr\u00e1fico \u00e0 China &#8211; , uma gram\u00e1tica indispens\u00e1vel \u00e0 legitima\u00e7\u00e3o de interven\u00e7\u00f5es e \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o de consensos internos, ainda que enfrente crescente resist\u00eancia da opini\u00e3o p\u00fablica diante dos custos de novas aventuras militares.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ato (2): Estados Unidos, Venezuela e Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>O que se observa n\u00e3o \u00e9 apenas uma crise da ordem internacional, mas o colapso de suas bases normativas m\u00ednimas, substitu\u00eddas por uma l\u00f3gica aberta de for\u00e7a, exce\u00e7\u00e3o e hierarquiza\u00e7\u00e3o. A amplia\u00e7\u00e3o da cartografia imperial de alvos &#8211;&nbsp; com Ir\u00e3, Cuba e Col\u00f4mbia figurando como espa\u00e7os de conten\u00e7\u00e3o &#8211; n\u00e3o representa um desvio, mas a pr\u00f3pria transforma\u00e7\u00e3o da ordem contempor\u00e2nea. A escalada estadunidense deve ser lida menos como demonstra\u00e7\u00e3o de poder e mais como sintoma de ansiedade estrat\u00e9gica diante de deslocamentos estruturais econ\u00f4micos, energ\u00e9ticos, <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-que-e-a-geopolitica\/\">geopol\u00edticos<\/a> e simb\u00f3licos que amea\u00e7am sua posi\u00e7\u00e3o hegem\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a Venezuela n\u00e3o aparece como causa, mas como espa\u00e7o de condensa\u00e7\u00e3o dessa ansiedade imperial. O recurso \u00e0 coer\u00e7\u00e3o, \u00e0 tutela e \u00e0 viol\u00eancia discursiva revela mais inseguran\u00e7a do que for\u00e7a. No plano regional, o trumpismo combina pr\u00e1ticas cl\u00e1ssicas de interven\u00e7\u00e3o com tecnologias de guerra h\u00edbrida, vigil\u00e2ncia e intelig\u00eancia, buscando desestabiliza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e eleitorais. Ainda assim, o chavismo n\u00e3o desaparece. A nacionaliza\u00e7\u00e3o do petr\u00f3leo via PDVSA reconfigurou a geopol\u00edtica energ\u00e9tica regional, reduzindo a influ\u00eancia direta dos Estados Unidos e tornando o petr\u00f3leo &#8211; eixo central da disputa estrat\u00e9gica. As tentativas de ruptura institucional em 2002, 2019 e 2026 devem ser compreendidas como parte de uma estrat\u00e9gia recorrente de conten\u00e7\u00e3o e disciplinamento pol\u00edtico, na qual a democracia liberal figura como ret\u00f3rica secund\u00e1ria frente aos interesses energ\u00e9ticos.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso, parte significativa das rela\u00e7\u00f5es comerciais petrol\u00edferas tende a se manter com os Estados Unidos, ainda que crescentemente mediada por outras moedas, como o yuan. Isso sinaliza deslocamentos relevantes na arquitetura financeira internacional e imp\u00f5e limites materiais \u00e0s tentativas de isolamento promovidas por Washington, ao mesmo tempo em que consolida a China como principal parceira econ\u00f4mica de diversos pa\u00edses latino-americanos.<\/p>\n\n\n\n<p>A a\u00e7\u00e3o estadunidense na Venezuela, portanto, n\u00e3o \u00e9 civilizat\u00f3ria, mas expressa uma forma contempor\u00e2nea de barb\u00e1rie pol\u00edtica. A ret\u00f3rica pacifista do trumpismo opera como dispositivo de simula\u00e7\u00e3o: sob o discurso de uma \u201cVenezuela livre\u201d, encobrem-se pr\u00e1ticas coercitivas, interesses energ\u00e9ticos e estrat\u00e9gias imperiais, transformando viol\u00eancia em cuidado, interven\u00e7\u00e3o em liberta\u00e7\u00e3o e domina\u00e7\u00e3o em responsabilidade. Embora os Estados Unidos n\u00e3o tenham constitu\u00eddo um imp\u00e9rio colonial formal, isso n\u00e3o implica aus\u00eancia de pr\u00e1ticas coloniais, rearticuladas sob a forma de tutela e nega\u00e7\u00e3o da soberania do outro.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ato (3): Plano Simb\u00f3lico &#8211; Cultura, M\u00eddia e Opini\u00e3o P\u00fablica<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Essas din\u00e2micas n\u00e3o se esgotam no plano estrat\u00e9gico ou material. Cultura e m\u00eddia operam como campos centrais de disputa pol\u00edtica, produzindo sentidos, afetos e pertencimentos. No caso venezuelano, mobilizam narrativas de resist\u00eancia ancoradas em mem\u00f3rias de colonialismo, depend\u00eancia e luta anti-imperialista, conferindo tra\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica \u00e0 Revolu\u00e7\u00e3o Bolivariana enquanto imagin\u00e1rio hist\u00f3rico. Essa disputa se expressa tamb\u00e9m no plano sem\u00e2ntico: a normaliza\u00e7\u00e3o de termos como \u201cinterven\u00e7\u00e3o\u201d em detrimento de \u201cguerra\u201d, ou \u201ccaptura\u201d em lugar de sequestro, despolitiza a viol\u00eancia e obscurece assimetrias de poder, ao mesmo tempo em que revela duplos padr\u00f5es normativos na caracteriza\u00e7\u00e3o de regimes pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Ato (4): Diplomacia Brasileira, Estados Unidos e Am\u00e9rica Latina<\/strong><\/h4>\n\n\n\n<p>Diante desse cen\u00e1rio, a pol\u00edtica externa brasileira pode seguir tr\u00eas caminhos: o alinhamento autom\u00e1tico aos Estados Unidos; uma cr\u00edtica frontal e isolada; ou uma posi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica combinada com di\u00e1logo e negocia\u00e7\u00e3o multilateral, especialmente via CELAC e f\u00f3runs regionais. A fragmenta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da Am\u00e9rica Latina, marcada pela ades\u00e3o de m\u00faltiplos governos a agendas de direita e extrema-direita, limita a constru\u00e7\u00e3o de respostas coletivas e amplia a vulnerabilidade regional frente \u00e0 escalada intervencionista.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa pe\u00e7a tr\u00e1gica encenada pelos Estados Unidos segue em curso, revelando menos a for\u00e7a de uma hegemonia consolidada e mais a ansiedade de um poder em crise.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sob narrativas de legalidade e ordem, o atual sistema internacional normaliza a exce\u00e7\u00e3o, legitima a for\u00e7a e reconfigura as rela\u00e7\u00f5es de poder globais, com impactos diretos na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n","protected":false},"author":853,"featured_media":54502,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16947],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-54491","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-internet-es-pt-br","8":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54491","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/853"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54491"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54491\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54502"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54491"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54491"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54491"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=54491"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}