{"id":54539,"date":"2026-01-13T15:00:00","date_gmt":"2026-01-13T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54539"},"modified":"2026-01-13T10:16:18","modified_gmt":"2026-01-13T13:16:18","slug":"venezuela-e-a-ordem-mundial","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/venezuela-e-a-ordem-mundial\/","title":{"rendered":"Venezuela e a ordem mundial"},"content":{"rendered":"\n<p>Enquanto George W. Bush se curvava repetidamente tentando inventar raz\u00f5es medianamente aceit\u00e1veis ou compat\u00edveis com as leis internacionais que justificassem a invas\u00e3o do Iraque ou do Afeganist\u00e3o, Donald Trump nem sequer fingiu fazer o gesto. \u00c9 uma diferen\u00e7a. Mas n\u00e3o creio que seja suficiente para marcar a distin\u00e7\u00e3o entre uma ordem mundial e outra. A ordem mundial, desde que existe ordem e quando existe ordem, sempre foi a ordem do mais forte. A legalidade internacional sempre serviu como uma desculpa mais ou menos ignor\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso n\u00e3o significa que a for\u00e7a possa se dar ao luxo de prescindir de legitima\u00e7\u00f5es. Todo poder as requer, mesmo o mais desp\u00f3tico. <a href=\"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-primeira-vitima-do-corolario-trump-venezuela\/\">O regime venezuelano<\/a> ofereceu motivos de sobra para ser odiado pelo mundo e por seus vizinhos. \u00c9 um regime abjeto que, no entanto, n\u00e3o \u00e9 o mais abjeto que j\u00e1 enfrentou o poder imperial. Os talib\u00e3s no Afeganist\u00e3o eram bem piores. Saddam Hussein era um criminoso bem mais perigoso e desprez\u00edvel do que Nicol\u00e1s Maduro. A meu ver, nem mesmo nesses casos extremos as opera\u00e7\u00f5es policiais norte-americanas se justificam, porque aceitar seu papel de pol\u00edcia mundial significa nos submeter aos caprichos do julgamento dos pol\u00edticos norte-americanos sobre quem merece e quem n\u00e3o merece justi\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Os curdos merecem-na contra Saddam e contra o ISIS, mas os palestinos n\u00e3o a merecem contra Israel, outro exemplo conhecido de um pa\u00eds que nunca invoca nenhuma legalidade para justificar as suas opera\u00e7\u00f5es policiais ou abertamente genocidas. Experi\u00eancias sociais eticamente defens\u00e1veis, como o Chile de Allende ou o sandinismo da primeira \u00e9poca, mereceram a trai\u00e7\u00e3o e a felonia, sem a menor considera\u00e7\u00e3o por qualquer lei internacional. Estamos longe de uma ordem mundial aceit\u00e1vel. O essencial, \u00e9 claro, n\u00e3o \u00e9 o que eu penso, mas que o regime venezuelano estava suficientemente desacreditado mundialmente para servir de guarda-chuva moral a uma interven\u00e7\u00e3o que tamb\u00e9m usou a desculpa do narcotr\u00e1fico, embora n\u00e3o houvesse muitas provas defens\u00e1veis para incriminar os acusados. Toda for\u00e7a se submete a um certo consenso indispens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 por isso que Donald Trump acha incomparavelmente mais dif\u00edcil fazer uma opera\u00e7\u00e3o policial na Groenl\u00e2ndia do que na Venezuela. Ele tem a mesma for\u00e7a e o mesmo interesse geopol\u00edtico. Carece de um m\u00ednimo de legitimidade. Esse tipo de limite sempre existiu na ordem mundial do mais forte. O que \u00e9 realmente novo para a ordem mundial \u00e9 a doutrina de que cada pot\u00eancia tem direito irrestrito \u00e0s suas \u00e1reas de influ\u00eancia, que a Europa tem que se virar sozinha, que a Ucr\u00e2nia n\u00e3o \u00e9 responsabilidade dos Estados Unidos, que a Venezuela n\u00e3o pode decidir se tornar a ponta de lan\u00e7a da influ\u00eancia chinesa, russa ou iraniana no hemisf\u00e9rio ocidental. O quintal dos Estados Unidos, \u201cour backyard\u201d, foi explicitamente invocado por Marco Rubio. Isso significa, <em>realmente<\/em>, que os Estados Unidos est\u00e3o renunciando \u00e0 sua hegemonia mundial para aceitar uma hegemonia hemisf\u00e9rica a partir da qual poderiam negociar com outras pot\u00eancias regionais de peso equivalente?<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o sabemos se essa mudan\u00e7a, que, se confirmada, \u00e9 incomparavelmente mais importante do que o desprezo por uma desculpa desprez\u00edvel, \u00e9 uma pol\u00edtica permanente, al\u00e9m de Donald Trump. Tamb\u00e9m sabemos que, como sempre, essas pol\u00edticas s\u00e3o o resultado agregado de equil\u00edbrios de influ\u00eancia e poder de diferentes correntes de opini\u00e3o e diversos interesses na pol\u00edtica norte-americana. E essa \u00e9 uma mudan\u00e7a significativa que exige um realinhamento de for\u00e7as muito poderosas. Para John Bolton, era inaceit\u00e1vel ter que lidar com o isolacionismo que naturalmente acompanhava o car\u00e1ter de Trump. Aparentemente, J.D. Vance \u00e9 o porta-estandarte da corrente anti-intervencionista, enquanto Marco Rubio parece querer levar a doutrina do monop\u00f3lio da for\u00e7a no hemisf\u00e9rio ocidental at\u00e9 seus limites conhecidos, ou seja, at\u00e9 Cuba e Nicar\u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>Bolton seria a express\u00e3o de uma linha neoconservadora que, at\u00e9 onde se pode entender, \u00e9 majorit\u00e1ria entre os especialistas em pol\u00edtica externa, centrada em debater diversas op\u00e7\u00f5es destinadas a manter a hegemonia <em>mundial<\/em> norte-americana contra as amea\u00e7as da China e da R\u00fassia. Bolton considera ilus\u00f3ria a estrat\u00e9gia de Trump de se aproximar de Putin para afast\u00e1-lo da China, em algo como uma reedi\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia de Nixon com Mao em 1973. Sua op\u00e7\u00e3o \u00e9 levar a interven\u00e7\u00e3o na Venezuela e no Ir\u00e3 at\u00e9 sua conclus\u00e3o l\u00f3gica na mudan\u00e7a de regime.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m das figuras vis\u00edveis e das especula\u00e7\u00f5es, o central ser\u00e3o os diversos interesses dos diferentes atores coletivos por tr\u00e1s de cada uma dessas figuras. O que podemos dizer com certeza \u00e9 que o isolacionismo original da doutrina MAGA se transformou na pol\u00edtica de configurar uma <em>soberania hemisf\u00e9rica<\/em> imperial completa que coloca a Am\u00e9rica Latina de volta no centro da estrat\u00e9gia norte-americana, pela primeira vez desde a queda das torres g\u00eameas. Se ser\u00e1 est\u00e1vel ou se ter\u00e1 sucesso no paralelogramo de for\u00e7as da pol\u00edtica norte-americana, n\u00e3o sabemos.<\/p>\n\n\n\n<p>Ser\u00e1 uma nova ordem mundial? Os gritos de dor que ouvimos por toda parte talvez sejam dores de parto. Ou talvez sejam as tradicionais v\u00edtimas da velha ordem que continua sem ceder.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise venezuelana exp\u00f5e n\u00e3o uma nova ordem mundial, mas a persist\u00eancia do velho princ\u00edpio do poder do mais forte, agora reconfigurado em uma disputa aberta pelas \u00e1reas de influ\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"author":260,"featured_media":54531,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16721],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-54539","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-venezuela-pt-br","8":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54539","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/260"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54539"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54539\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54531"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54539"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54539"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54539"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=54539"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}