{"id":54650,"date":"2026-01-19T09:00:00","date_gmt":"2026-01-19T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54650"},"modified":"2026-01-19T09:07:06","modified_gmt":"2026-01-19T12:07:06","slug":"a-verdadeira-ameaca-a-democracia-nao-e-o-populismo-e-a-oligarquia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-verdadeira-ameaca-a-democracia-nao-e-o-populismo-e-a-oligarquia\/","title":{"rendered":"A verdadeira amea\u00e7a \u00e0 democracia n\u00e3o \u00e9 o populismo. \u00c9 a oligarquia"},"content":{"rendered":"\n<p>Quando a democracia entra em crise, o dedo acusador costuma apontar para o populismo. L\u00edderes carism\u00e1ticos, discursos anti-institucionais e estilos autorit\u00e1rios ocupam manchetes e debates, refor\u00e7ando uma narrativa c\u00f4moda: a democracia liberal estaria amea\u00e7ada de baixo. No entanto, essa explica\u00e7\u00e3o \u00e9 incompleta \u2014 e, em muitos casos, enganosa. Na Am\u00e9rica Latina, e cada vez mais tamb\u00e9m em outras regi\u00f5es, o problema mais persistente n\u00e3o \u00e9 o populismo, mas a oligarquia.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde as independ\u00eancias do s\u00e9culo XIX, a Am\u00e9rica Latina foi um enorme laborat\u00f3rio de republicanismo. As novas rep\u00fablicas surgidas da ruptura colonial abra\u00e7aram princ\u00edpios radicais para sua \u00e9poca: soberania popular, constitucionalismo, elei\u00e7\u00f5es competitivas e secularismo. N\u00e3o eram c\u00f3pias imperfeitas da Europa, mas experi\u00eancias originais que tentavam articular a liberdade pol\u00edtica em sociedades profundamente desiguais. O problema \u00e9 que essa desigualdade nunca foi resolvida. A cidadania foi proclamada universal, mas praticada de forma seletiva, atravessada por hierarquias de classe, etnia e g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p>Desse desequil\u00edbrio hist\u00f3rico nasceram rep\u00fablicas formalmente representativas, mas substancialmente olig\u00e1rquicas. Ao longo do tempo, pequenas elites econ\u00f4micas \u2014 muitas vezes ligadas a interesses externos \u2014 conseguiram capturar o Estado, moldar as institui\u00e7\u00f5es e converter a representa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em um mecanismo de reprodu\u00e7\u00e3o do poder. As elei\u00e7\u00f5es continuaram existindo, mas a igualdade pol\u00edtica ficou vazia de conte\u00fado. N\u00e3o se tratava de democracias fracassadas, mas de algo mais inquietante: democracias compat\u00edveis com a domina\u00e7\u00e3o de poucos.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhar para a democracia a partir da tradi\u00e7\u00e3o republicana permite compreender melhor essa din\u00e2mica. Uma rep\u00fablica n\u00e3o se reduz ao ato de votar. Ela pressup\u00f5e a prote\u00e7\u00e3o efetiva da liberdade contra a domina\u00e7\u00e3o, seja ela exercida pelo Estado ou por poderes privados. Para isso, s\u00e3o indispens\u00e1veis o Estado de Direito, a separa\u00e7\u00e3o de poderes e uma administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica capaz de agir com autonomia diante de interesses particulares. Quando a riqueza e o poder se concentram de forma extrema, essas condi\u00e7\u00f5es se deterioram. A desigualdade torna muitos cidad\u00e3os dependentes, vulner\u00e1veis e, em \u00faltima inst\u00e2ncia, menos livres.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa perspectiva tamb\u00e9m ajuda a reinterpretar o populismo. Longe de ser uma anomalia inexplic\u00e1vel, o populismo geralmente surge como resposta \u00e0 experi\u00eancia cotidiana de exclus\u00e3o e abuso produzida por regimes olig\u00e1rquicos. Quando as institui\u00e7\u00f5es deixam de representar, quando a justi\u00e7a protege sistematicamente os poderosos e quando o crescimento econ\u00f4mico beneficia poucos, o apelo ao \u201cpovo\u201d contra a \u201celite\u201d torna-se politicamente eficaz. O problema \u00e9 que o populismo raramente resolve aquilo que denuncia. Ao concentrar o poder, enfraquecer os contrapesos e politizar o aparato estatal, acaba substituindo a domina\u00e7\u00e3o da minoria pela domina\u00e7\u00e3o personalista, sem reconstruir a rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Por isso, a amea\u00e7a mais profunda n\u00e3o \u00e9 apenas o retrocesso democr\u00e1tico entendido como manipula\u00e7\u00e3o eleitoral ou restri\u00e7\u00f5es \u00e0 imprensa, mas o que poderia ser chamado de retrocesso republicano. Este se manifesta na eros\u00e3o do Estado como institui\u00e7\u00e3o impessoal, na confus\u00e3o entre o p\u00fablico e o privado, na degrada\u00e7\u00e3o da burocracia e no uso discricion\u00e1rio do poder. Estados de exce\u00e7\u00e3o normalizados, ataques a \u00f3rg\u00e3os de controle ou a demoli\u00e7\u00e3o de capacidades administrativas em nome da efici\u00eancia n\u00e3o fortalecem a democracia: eles a esvaziam por dentro.<\/p>\n\n\n\n<p>Diante desse panorama, a hist\u00f3ria latino-americana tamb\u00e9m oferece recursos normativos e pol\u00edticos. Junto com as tradi\u00e7\u00f5es olig\u00e1rquicas e populistas, existe uma corrente de republicanismo plebeu: ind\u00edgena, anticolonial, antipatriarcal e radicalmente igualit\u00e1ria. Movimentos sociais, explos\u00f5es populares e processos constituintes t\u00eam buscado, repetidamente, ampliar a cidadania real e submeter o poder econ\u00f4mico ao interesse p\u00fablico. N\u00e3o se trata de rejeitar as institui\u00e7\u00f5es, mas de democratiz\u00e1-las; n\u00e3o de personalizar o poder, mas de distribu\u00ed-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa discuss\u00e3o n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0 Am\u00e9rica Latina. Na Europa e em outras regi\u00f5es, o liberalismo democr\u00e1tico tem demonstrado uma complac\u00eancia perigosa diante da desigualdade e da tecnocratiza\u00e7\u00e3o. A sacraliza\u00e7\u00e3o da propriedade privada, a f\u00e9 cega no m\u00e9rito e a delega\u00e7\u00e3o de decis\u00f5es pol\u00edticas a mercados e especialistas enfraqueceram o senso do bem comum. A cidadania tornou-se passiva e a pol\u00edtica, gerencial. Nesse contexto, n\u00e3o \u00e9 surpreendente que cres\u00e7a o desencanto e que prosperem solu\u00e7\u00f5es autorit\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p>Recuperar conceitos como rep\u00fablica, oligarquia e revolu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio acad\u00eamico nost\u00e1lgico. \u00c9 uma forma de nomear problemas reais que a linguagem dominante ocultou. A democracia n\u00e3o pode ser sustentada sem um Estado capaz de proteger os direitos contra o poder privado, nem sem uma cidadania que seja materialmente igual em sua capacidade de influenciar os assuntos p\u00fablicos. Se o debate se limitar a condenar o populismo sem questionar as estruturas olig\u00e1rquicas que o alimentam, o diagn\u00f3stico permanecer\u00e1 falho.<\/p>\n\n\n\n<p>A democracia, entendida em seu sentido mais amplo, \u00e9 uma rep\u00fablica democratizada: uma ordem de autogoverno baseada na igualdade c\u00edvica, no Estado de Direito e na participa\u00e7\u00e3o efetiva. Defend\u00ea-la hoje exige mais do que proteger os procedimentos eleitorais. Exige confrontar a concentra\u00e7\u00e3o de poder e riqueza que a corr\u00f3i silenciosamente. Porque se a democracia est\u00e1 em crise, n\u00e3o \u00e9 apenas por causa daqueles que a desafiam de fora, mas tamb\u00e9m por causa daqueles que a est\u00e3o esvaziando por dentro.<\/p>\n\n\n\n<p><sub><em>*Texto baseado na edi\u00e7\u00e3o especial do LASA Forum \u201cRep\u00fablicas Olig\u00e1rquicas na Am\u00e9rica Latina\u201d (vol. 56, n. 4, 2025), dispon\u00edvel aqui: https:\/\/forum.lasaweb.org\/issues\/vol56-issue4\/<\/em><\/sub><\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A crise da democracia n\u00e3o prov\u00e9m das massas mobilizadas, mas das elites econ\u00f4micas que, a partir de dentro, aprenderam a governar sem prestar contas.<\/p>\n","protected":false},"author":857,"featured_media":54634,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16770,16748],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-54650","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-democracia-pt-br","8":"category-populismo-pt-br","9":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54650","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/857"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54650"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54650\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54634"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54650"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54650"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54650"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=54650"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}