{"id":54652,"date":"2026-01-19T15:00:00","date_gmt":"2026-01-19T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54652"},"modified":"2026-01-19T09:11:07","modified_gmt":"2026-01-19T12:11:07","slug":"realismo-periferico-na-america-latina-e-europa-como-reacao-a-intervencao-na-venezuela","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/realismo-periferico-na-america-latina-e-europa-como-reacao-a-intervencao-na-venezuela\/","title":{"rendered":"Realismo perif\u00e9rico na Am\u00e9rica Latina e Europa como rea\u00e7\u00e3o \u00e0 interven\u00e7\u00e3o na Venezuela"},"content":{"rendered":"\n<p>A opera\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos na Venezuela no in\u00edcio do ano n\u00e3o foi uma surpresa propriamente dita, embora a natureza e a aparente efic\u00e1cia da opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o fossem antecipadas por muitos. A captura de Nicol\u00e1s Maduro, seja ela resultado de uma trai\u00e7\u00e3o interna, como alguns especulam, ou de uma esmagadora superioridade militar tecnol\u00f3gica, tem poucas consequ\u00eancias para uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica na Venezuela, uma das principais preocupa\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o nos \u00faltimos 20 anos. No entanto, a mudan\u00e7a de regime n\u00e3o \u00e9 uma prioridade para o governo Trump, mas sim o controle das reservas de petr\u00f3leo da Venezuela e a defesa da hegemonia hemisf\u00e9rica dos Estados Unidos frente \u00e0 China.<\/p>\n\n\n\n<p>A rea\u00e7\u00e3o dos Estados latino-americanos e da Uni\u00e3o Europeia \u00e0 interven\u00e7\u00e3o militar dos Estados Unidos e \u00e0 captura de Maduro foi dividida \u2014 mais na Am\u00e9rica Latina do que na Europa \u2014 e, em geral, bastante t\u00edmida. H\u00e1 muitos anos, o intelectual argentino Carlos Escud\u00e9 desenvolveu o conceito de \u201crealismo perif\u00e9rico\u201d pensando especificamente na Am\u00e9rica Latina (e em seu pr\u00f3prio pa\u00eds). Se avaliarmos a rea\u00e7\u00e3o aos acontecimentos em ambos os lados do Atl\u00e2ntico diante da interven\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos, pode-se observar que, em v\u00e1rios casos, a resposta se encaixa bem nas premissas do realismo perif\u00e9rico; em alguns epis\u00f3dios, inclusive, poderia-se falar de um \u201crealismo oportunista\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 dif\u00edcil caracterizar de outra forma a rea\u00e7\u00e3o do regime venezuelano ap\u00f3s a captura de Maduro: por um lado, mant\u00e9m uma ret\u00f3rica abertamente anti-imperialista e revolucion\u00e1ria; por outro, parece entregar a gest\u00e3o do petr\u00f3leo aos Estados Unidos. Hugo Ch\u00e1vez, inevitavelmente, se revira no t\u00famulo. Na pr\u00e1tica, a prioridade de seus herdeiros e herdeiras no novo contexto n\u00e3o \u00e9 a coer\u00eancia ideol\u00f3gica nem a defesa do projeto bolivariano, mas sim se agarrar ao poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Outro exemplo ilustrativo \u00e9 o do presidente colombiano Gustavo Petro. Durante muito tempo, ele foi um dos cr\u00edticos mais veementes de Donald Trump na Am\u00e9rica Latina. No entanto, ap\u00f3s algumas amea\u00e7as veladas da Casa Branca e um telefonema com o presidente estadunidense, ele passou em tempo recorde da confronta\u00e7\u00e3o aos elogios, destacando coincid\u00eancias pol\u00edticas com Donald Trump que at\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s considerava impens\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p>O realismo perif\u00e9rico sustenta, em ess\u00eancia, que a pol\u00edtica externa deve partir do reconhecimento de rela\u00e7\u00f5es de poder assim\u00e9tricas \u2014 neste caso, frente aos Estados Unidos \u2014 e que os governos, quando priorizam o bem-estar econ\u00f4mico de sua popula\u00e7\u00e3o, ajustam sua conduta externa a essa realidade. Dessa perspectiva, entrar em um conflito aberto com Washington pela a\u00e7\u00e3o militar na Venezuela implica assumir custos sem nenhuma expectativa realista de benef\u00edcio.<\/p>\n\n\n\n<p>Isso d\u00e1 origem a duas rea\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. Por um lado, o acompanhamento cego ou, como se diz em ingl\u00eas, bandwagoning com os Estados Unidos. Por outro lado, a defesa dos princ\u00edpios fundamentais da pol\u00edtica internacional e do direito internacional, e o esfor\u00e7o para influenciar a solu\u00e7\u00e3o a m\u00e9dio e longo prazo do conflito na Venezuela. A interven\u00e7\u00e3o \u00e9 irrevers\u00edvel e Maduro n\u00e3o retornar\u00e1 \u00e0 Venezuela no curto ou m\u00e9dio prazo, embora tamb\u00e9m seja discut\u00edvel se o atual governo venezuelano realmente deseja esse retorno.<\/p>\n\n\n\n<p>As institui\u00e7\u00f5es multilaterais latino-americanas at\u00e9 agora n\u00e3o conseguiram chegar a um consenso nem mesmo para uma declara\u00e7\u00e3o oficial comum. A realiza\u00e7\u00e3o de uma reuni\u00e3o da CELAC em 4 de janeiro, solicitada pelo Brasil e convocada pela Col\u00f4mbia em sua qualidade de presid\u00eancia pro tempore, gerou inicialmente certas expectativas. No entanto, logo ficou evidente a persistente fragmenta\u00e7\u00e3o regional, marcada pela divis\u00e3o entre governos de esquerda e direita, \u00e0 qual se soma uma linha de fratura adicional entre aqueles que se alinham com os Estados Unidos e aqueles que buscam manter maior autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>O resultado evidencia a efic\u00e1cia do enfoque bilateral de Washington em rela\u00e7\u00e3o aos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina e do Caribe, sustentada na oferta de \u201cacordos especiais\u201d a parceiros selecionados. A Argentina liderou a oposi\u00e7\u00e3o a uma declara\u00e7\u00e3o comum cr\u00edtica \u00e0 opera\u00e7\u00e3o e foi apoiada por Paraguai, Peru, Bol\u00edvia, Costa Rica, Equador, El Salvador, Panam\u00e1, Rep\u00fablica Dominicana e Trinidad e Tobago. \u00c0 medida que as elei\u00e7\u00f5es eram realizadas, alguns pa\u00edses foram mudando sua posi\u00e7\u00e3o. Os casos mais not\u00e1veis s\u00e3o os do Chile e Honduras, onde os presidentes rec\u00e9m-eleitos, Kast e Asfura, que assumir\u00e3o o poder em breve, expressaram seu apoio a Trump, em contraste com as posi\u00e7\u00f5es dos mandat\u00e1rios cessantes, Boric e Xiomara Castro.<\/p>\n\n\n\n<p>O Conselho Permanente da OEA se reuniu em 6 de janeiro, mas tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu chegar a um consenso sobre uma declara\u00e7\u00e3o comum. Da mesma forma, Argentina, Equador, Paraguai e El Salvador apoiaram a opera\u00e7\u00e3o militar, enquanto Brasil, Chile, Col\u00f4mbia, M\u00e9xico e Honduras a criticaram. O embaixador argentino Carlos Bernardo Cherniak declarou que \u201ca Argentina aprecia a determina\u00e7\u00e3o demonstrada pelo presidente dos Estados Unidos e sua administra\u00e7\u00e3o nas a\u00e7\u00f5es tomadas na Venezuela\u201d, enquanto o embaixador brasileiro Benoni Belli afirmou que \u201cos ataques em territ\u00f3rio venezuelano e o sequestro de seu presidente ultrapassam uma linha inaceit\u00e1vel. Esses atos representam uma grave afronta \u00e0 soberania da Venezuela e amea\u00e7am a comunidade internacional\u201d. Isso ilustra a discrep\u00e2ncia entre as principais posi\u00e7\u00f5es dos pa\u00edses sul-americanos e explica por que o Mercosul tamb\u00e9m n\u00e3o conseguiu chegar a um consenso sobre uma resposta conjunta.<\/p>\n\n\n\n<p>Embora a Uni\u00e3o Europeia tenha mantido uma pol\u00edtica ativa de promo\u00e7\u00e3o e defesa da democracia nas \u00faltimas d\u00e9cadas, na atual crise venezuelana, ela carece de capacidade para exercer influ\u00eancia real e permanece, em grande parte, relegada ao papel de mera espectadora. Al\u00e9m disso, a UE enfrenta a amea\u00e7a do governo estadunidense de anexar a Groenl\u00e2ndia e, ao mesmo tempo, depende do apoio de Washington no conflito na Ucr\u00e2nia, o que limita sua margem de manobra.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, a UE atua de forma similar \u00e0 maioria dos pa\u00edses latino-americanos, defendendo com cautela os princ\u00edpios do direito internacional, ao mesmo tempo que evita conflitos abertos com os EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Por exemplo, a declara\u00e7\u00e3o do Alto Representante da UE, apoiada por todos os pa\u00edses da UE, exceto a Hungria, sobre as consequ\u00eancias da interven\u00e7\u00e3o dos EUA na Venezuela afirma: \u201cEstamos em contato pr\u00f3ximo com os Estados Unidos, bem como com parceiros regionais e internacionais, para apoiar e facilitar o di\u00e1logo com todas as partes envolvidas, visando uma solu\u00e7\u00e3o negociada, democr\u00e1tica, inclusiva e pac\u00edfica para a crise, liderada pelos venezuelanos. Respeitar a vontade do povo venezuelano continua sendo a \u00fanica maneira de a Venezuela restaurar a democracia e resolver a crise atual.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Essa \u00e9 uma posi\u00e7\u00e3o que pode ser compartilhada tanto pela Uni\u00e3o Europeia quanto pelos Estados latino-americanos e poderia servir de base para a coordena\u00e7\u00e3o de a\u00e7\u00f5es relativas \u00e0 situa\u00e7\u00e3o na Venezuela. Embora a UE e os governos aliados na Am\u00e9rica Latina n\u00e3o tenham o mesmo poder de influ\u00eancia que os Estados Unidos sobre o regime venezuelano, podem condicionar a sua coopera\u00e7\u00e3o com um governo sem legitimidade democr\u00e1tica a progressos concretos na liberta\u00e7\u00e3o de presos pol\u00edticos, na abertura de espa\u00e7os para a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e na apresenta\u00e7\u00e3o de um cronograma claro e cr\u00edvel para uma transi\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A interven\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos na Venezuela reativou na Am\u00e9rica Latina e na Europa uma pol\u00edtica externa marcada pelo realismo perif\u00e9rico: cautela, adapta\u00e7\u00e3o ao poder e defesa ret\u00f3rica de princ\u00edpios sem confronto direto.<\/p>\n","protected":false},"author":859,"featured_media":54645,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16757],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-54652","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-eeuu-pt-br","8":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54652","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/859"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54652"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54652\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54645"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54652"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54652"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54652"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=54652"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}