{"id":54889,"date":"2026-01-31T09:00:00","date_gmt":"2026-01-31T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54889"},"modified":"2026-01-30T18:12:07","modified_gmt":"2026-01-30T21:12:07","slug":"crises-hidricas-em-montevideu-e-rio-de-janeiro-uma-oportunidade-para-a-privatizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/crises-hidricas-em-montevideu-e-rio-de-janeiro-uma-oportunidade-para-a-privatizacao\/","title":{"rendered":"Crises h\u00eddricas em Montevid\u00e9u e Rio de Janeiro: uma oportunidade para a privatiza\u00e7\u00e3o?"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos anos, ao menos duas metr\u00f3poles sul-americanas sofreram com a escassez de \u00e1gua devido \u00e0 qualidade ou quantidade inadequada. Em 2020, a Regi\u00e3o Metropolitana do Rio de Janeiro enfrentou uma emerg\u00eancia h\u00eddrica devido a uma contamina\u00e7\u00e3o por geosmina, um composto org\u00e2nico n\u00e3o t\u00f3xico produzido por algas que, segundo moradores, deixou a \u00e1gua com um cheiro \u201cdesagrad\u00e1vel\u201d e exp\u00f4s uma crise estrutural de \u00e1gua e saneamento. J\u00e1 em 2023, a Regi\u00e3o Metropolitana de Montevid\u00e9u vivenciou uma crise que colocou em risco aproximadamente 1,5 milh\u00e3o de pessoas devido \u00e0 seca e ao aumento da salinidade da \u00e1gua, gerando preocupa\u00e7\u00f5es sobre sua potabilidade e criando um sentimento generalizado de vulnerabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c0 primeira vista, as crises parecem distintas: uma causada pelo excesso de cloreto de s\u00f3dio, a outra por mau odor. Mas h\u00e1 um padr\u00e3o comum: disputas sobre o modelo de gest\u00e3o h\u00eddrica, press\u00e3o do setor privado (interessado em entrar no mercado de distribui\u00e7\u00e3o), crises de gest\u00e3o devido <a href=\"https:\/\/redi.anii.org.uy\/jspui\/handle\/20.500.12381\/3208\">ao modelo predominantemente centralizado, pouco participativo e com grande assimetria de poder na governan\u00e7a<\/a>, e narrativas oficiais que buscaram mascarar as responsabilidades. Essas foram algumas das reflex\u00f5es que emergiram da mesa-redonda <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=uwDz0f-r4pE\">\u201cO que vem primeiro: crises h\u00eddricas, solu\u00e7\u00f5es hidr\u00e1ulicas ou a atua\u00e7\u00e3o de empresas privadas? Reflex\u00f5es sobre Montevid\u00e9u e Rio de Janeiro\u201d<\/a>, da qual participaram os especialistas Mar\u00eda Selva Ortiz, \u00c1lvaro Briano e Ana Lucia Britto, no \u00e2mbito do projeto \u201cDimens\u00f5es hidrossociais da crise h\u00eddrica na Regi\u00e3o Metropolitana de Montevid\u00e9u\u201d, em parceria com o PRIDES (Faculdade de Ci\u00eancias Sociais) e a Unidade de Ci\u00eancia e Desenvolvimento (Faculdade de Ci\u00eancias) da Universidade da Rep\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A naturaliza\u00e7\u00e3o das causas<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O discurso oficial e certos meios de comunica\u00e7\u00e3o responsabilizaram a seca, a variabilidade clim\u00e1tica e os fen\u00f4menos ambientais como a prolifera\u00e7\u00e3o de algas ou a contamina\u00e7\u00e3o por geosmina. Em Montevid\u00e9u, o aumento da salinidade da \u00e1gua, que ent\u00e3o passou a ser definida como \u201cbeb\u00edvel\u201d (uma nova categoria utilizada para substituir a \u00e1gua pot\u00e1vel), e as restri\u00e7\u00f5es h\u00eddricas foram explicadas como consequ\u00eancia da baixa vaz\u00e3o do Rio Santa Luc\u00eda (que des\u00e1gua no estu\u00e1rio do Rio da Prata) e da seca prolongada. Contudo, esse diagn\u00f3stico omite as decis\u00f5es que levaram a atrasos nos investimentos, \u00e0 falta de manuten\u00e7\u00e3o das redes de \u00e1gua, \u00e0s dificuldades e atrasos na implementa\u00e7\u00e3o das medidas de gest\u00e3o planejadas para a bacia, \u00e0 limitada participa\u00e7\u00e3o p\u00fablica, entre outros fatores.<\/p>\n\n\n\n<p>De forma semelhante, no Rio de Janeiro, a polui\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica da bacia do Rio Guandu, fonte de \u00e1gua para mais de 9 milh\u00f5es de pessoas,<a href=\"https:\/\/periodicos.furg.br\/rbhcs\/article\/view\/10748\/pdf\"> o subinvestimento hist\u00f3rico em \u00e1gua e saneamento<\/a>, e uma gest\u00e3o marcada pela neglig\u00eancia precederam a contamina\u00e7\u00e3o por geosmina. Soma-se a isso a percep\u00e7\u00e3o de um problema estritamente t\u00e9cnico, a despolitiza\u00e7\u00e3o e a baixa participa\u00e7\u00e3o social na gest\u00e3o, marcadas por decis\u00f5es \u201cintencionalmente\u201d equivocadas. Isso inclui a capta\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de \u00e1gua bruta quando as condi\u00e7\u00f5es eram inadequadas para o tratamento, resultando na distribui\u00e7\u00e3o de \u00e1gua com propriedades organol\u00e9pticas alteradas (cheiro e sabor) por toda a metr\u00f3pole. A narrativa p\u00fablica n\u00e3o buscou minimizar o alarme (pelo contr\u00e1rio, contribuiu para amplific\u00e1-lo), com a crise servindo como um dos fatores que sustentaram e legitimaram uma agenda de privatiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 em curso, iniciada ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Lei n\u00ba 14.026\/2020. Em resumo, em ambos os casos, as crises foram parcialmente explicadas como fen\u00f4menos naturais ou t\u00e9cnicos, embora tivessem ra\u00edzes pol\u00edticas e institucionais profundas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Escassez h\u00eddrica e social e oportunidades de privatiza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Se considerarmos entender essas crises atrav\u00e9s do conceito de escassez h\u00eddrica e social, formulado pela especialista Ana L\u00facia Britto, podemos entend\u00ea-las n\u00e3o como consequ\u00eancias ambientais ou naturais, mas como produto de decis\u00f5es institucionais, modelos de desenvolvimento, desigualdades e rela\u00e7\u00f5es de poder. Em um contexto ideal, a \u00e1gua seria garantida como um direito humano e gerida de forma participativa; no entanto, quando o Estado deixa de fazer os investimentos necess\u00e1rios, prioriza interesses econ\u00f4micos ou subestima a participa\u00e7\u00e3o social, o resultado \u00e9 a escassez que afeta milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso uruguaio, a vulnerabilidade do abastecimento depende hoje de decis\u00f5es de investimento de longo prazo, do modelo de gest\u00e3o escolhido para a bacia do rio Santa Luc\u00eda (que prioriza o setor agr\u00edcola) e da manuten\u00e7\u00e3o da rede de distribui\u00e7\u00e3o. No <a href=\"https:\/\/journals.openedition.org\/geografares\/4259\">Rio de Janeiro<\/a>, a escassez resulta de uma complexa rede de desigualdades territoriais, concentra\u00e7\u00e3o da oferta, fragilidade institucional e um modelo t\u00e9cnico centralizado, al\u00e9m de investimentos historicamente baixos em infraestrutura e defici\u00eancias na cobertura de \u00e1gua e saneamento. Esses fatores foram agravados pela crise econ\u00f4mica e fiscal do estado do Rio de Janeiro, que favoreceu a privatiza\u00e7\u00e3o do setor.<\/p>\n\n\n\n<p>Argumenta-se frequentemente que as crises h\u00eddricas podem se tornar janelas de oportunidade para reconfigurar a governan\u00e7a da \u00e1gua. O <a href=\"https:\/\/www.researchgate.net\/publication\/327353513_As_duas_faces_da_crise_hidrica_escassez_e_despolitizacao_do_acesso_a_agua_na_Regiao_Metropolitana_do_Rio_de_Janeiro\">caso do Rio de Janeiro<\/a> mostra como a polui\u00e7\u00e3o foi usada para deslegitimar a empresa p\u00fablica de \u00e1gua e saneamento (CEDAE), o que, juntamente com outros fatores, levou \u00e0 privatiza\u00e7\u00e3o dos servi\u00e7os em 2021.<\/p>\n\n\n\n<p>Em Montevid\u00e9u, a crise de 2023 reacendeu o debate sobre grandes obras hidr\u00e1ulicas, como o Projeto Netuno, proposto por um cons\u00f3rcio de empresas privadas e aprovado durante o governo anterior. Esses projetos foram defendidos como solu\u00e7\u00f5es estruturais sob o pretexto de \u201cseguran\u00e7a h\u00eddrica\u201d. Diferentemente do caso do Rio de Janeiro, a agenda de privatiza\u00e7\u00e3o no Uruguai foi parcialmente contida, em grande parte devido \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o social e \u00e0 mudan\u00e7a pol\u00edtica que atualmente renegocia outros projetos hidr\u00e1ulicos com o cons\u00f3rcio privado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Considera\u00e7\u00f5es finais<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As crises h\u00eddricas revelam o que \u00e9 priorizado em nossas sociedades: quem decide, quem se beneficia, quem \u00e9 deixado de lado e que tipo de rela\u00e7\u00e3o idealizamos com um recurso fundamental para a vida.<\/p>\n\n\n\n<p>As crises h\u00eddricas metropolitanas do s\u00e9culo XXI n\u00e3o se definem s\u00f3 pela escassez de \u00e1gua ou pela m\u00e1 qualidade da \u00e1gua que chega \u00e0s casas. Elas se definem pela forma como os Estados, as empresas e as sociedades mobilizam \u2014 ou deixam de mobilizar \u2014 a capacidade pol\u00edtica para lidar com elas. Os casos de Montevid\u00e9u e Rio de Janeiro demonstram que o que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 apenas a gest\u00e3o da \u00e1gua, mas tamb\u00e9m o modelo de gest\u00e3o dos territ\u00f3rios das bacias hidrogr\u00e1ficas, da infraestrutura de saneamento e do ambiente urbano. Em ambos os casos, o t\u00e9cnico e o pol\u00edtico n\u00e3o podem ser separados: a crise h\u00eddrica n\u00e3o \u00e9 meramente um problema ambiental (ou natural) ou uma falha t\u00e9cnica, mas sim um sinal de profundas defici\u00eancias em um modelo de gest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Os ciclos pol\u00edticos mudam, mas o paradigma da \u00e1gua permanece. Seja por meio de contratos herdados, flexibiliza\u00e7\u00f5es regulat\u00f3rias ou novos projetos apresentados como essenciais para a seguran\u00e7a h\u00eddrica, essas crises acabam refor\u00e7ando o mesmo modelo, que prioriza projetos de infraestrutura e a participa\u00e7\u00e3o privada em detrimento de alternativas democratizantes para a gest\u00e3o de um bem comum. Diante dessa situa\u00e7\u00e3o, devemos nos perguntar: as crises tamb\u00e9m podem levar ao fortalecimento da gest\u00e3o da \u00e1gua como um bem comum e um direito humano? Ou acabar\u00e3o sempre por ser um caminho para solu\u00e7\u00f5es que envolvam o setor privado com interesse em servi\u00e7os de abastecimento de \u00e1gua?<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As crises h\u00eddricas em Montevid\u00e9u e no Rio de Janeiro revelam como a escassez de \u00e1gua se torna uma oportunidade para privatizar um recurso que deveria ser um direito p\u00fablico.<\/p>\n","protected":false},"author":471,"featured_media":54877,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17065],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-54889","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-agua-pt-br","8":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54889","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/471"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54889"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54889\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54877"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54889"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54889"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54889"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=54889"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}