{"id":54932,"date":"2026-02-02T15:00:00","date_gmt":"2026-02-02T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=54932"},"modified":"2026-02-02T16:58:59","modified_gmt":"2026-02-02T19:58:59","slug":"visoes-contrarias-sobre-a-crenca-em-davos-milei-e-carney","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/visoes-contrarias-sobre-a-crenca-em-davos-milei-e-carney\/","title":{"rendered":"Vis\u00f5es contr\u00e1rias sobre a cren\u00e7a em Davos: Milei e Carney"},"content":{"rendered":"\n<p>Na pol\u00edtica internacional, aquilo em que se acredita pode ter graves consequ\u00eancias. O primeiro-ministro canadense, Mark Carney, sabe disso e, no F\u00f3rum Econ\u00f4mico Mundial em Davos, argumentou que o poder da cren\u00e7a coletiva pode desafiar a hegemonia estadunidense. As grandes pot\u00eancias, argumentou Carney, usam a depend\u00eancia econ\u00f4mica como arma. Mas se, por exemplo, as na\u00e7\u00f5es deixarem de acreditar coletivamente em institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas como o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), essas poder\u00e3o perder seu poder. No entanto, ser\u00e1 a solu\u00e7\u00e3o t\u00e3o simples?<\/p>\n\n\n\n<p>Nenhuma regi\u00e3o conhece o <em>hard power <\/em>dos Estados Unidos, mas tamb\u00e9m o poder coletivo da cren\u00e7a em normas compartilhadas, melhor do que a Am\u00e9rica Latina. A regi\u00e3o foi a primeira no mundo a se tornar uma zona livre de armas nucleares ap\u00f3s o Tratado de Tlatelolco, em 1967, exemplificando a famosa afirma\u00e7\u00e3o construtivista de Alexander Wendt, de 1992: \u201cAnarquia \u00e9 o que os Estados fazem dela\u201d. As na\u00e7\u00f5es latino-americanas acreditavam, e ainda acreditam, que, ao respeitar os termos do tratado, seus vizinhos n\u00e3o buscar\u00e3o capacidades nucleares militares.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, os Estados Unidos responderam com for\u00e7a \u00e0s cren\u00e7as das na\u00e7\u00f5es da regi\u00e3o. A Doutrina Monroe (1823), o Corol\u00e1rio Roosevelt (1904), a Emenda Platt (1901), os golpes de Estado na Guatemala (1954) e no Chile (1973), a fracassada invas\u00e3o da Ba\u00eda dos Porcos em Cuba (1961) e as invas\u00f5es de Granada (1983) e do Panam\u00e1 (1989) s\u00e3o exemplos das respostas dos Estados Unidos \u00e0s pol\u00edticas de esquerda de diversos pa\u00edses ou ao seu desejo de diversificar suas rela\u00e7\u00f5es. Em outras palavras, os Estados Unidos responderam com interven\u00e7\u00f5es baseadas em cren\u00e7as que desafiam as suas pr\u00f3prias.<\/p>\n\n\n\n<p>Portanto, aplicar essa l\u00f3gica \u00e0 economia latino-americana n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples. O &#8220;hard power&#8221; na regi\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 mantido pelo poder do d\u00f3lar exercido por Washington. Na Argentina, a cren\u00e7a compartilhada no poder e no valor do d\u00f3lar estadunidense, talvez impulsionada pela Lei de Conversibilidade de 1991, levou os argentinos a economizar US$260,443 bilh\u00f5es (INDEC, 2025). Uma mudan\u00e7a de mentalidade, por exemplo, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 poupan\u00e7a em pesos ou qualquer outra moeda, seria muito custosa para aqueles que possuem economias em d\u00f3lares. De fato, tr\u00eas outros pa\u00edses latino-americanos adotaram o d\u00f3lar como moeda oficial: Panam\u00e1 (1904), Equador (2000) e El Salvador (2001).<\/p>\n\n\n\n<p>Isso \u00e9 algo que Javier Milei, presidente da Argentina e apoiador de Trump, compreendeu perfeitamente. Recentemente, em Davos, Milei argumentou que o capitalismo de livre mercado n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 mais produtivo, mas tamb\u00e9m o \u00fanico sistema justo. No entanto, o capitalismo de livre mercado que Milei defende n\u00e3o \u00e9 livre e, portanto, n\u00e3o \u00e9 justo. Ele \u00e9 governado e mantido pelos Estados Unidos e pelo d\u00f3lar estadunidense. Os Direitos Especiais de Saque (DES) do FMI, atrelados ao d\u00f3lar a 43,38, e a maioria dos EUA com 17,42% dos votos (quase um veto), s\u00e3o um excelente exemplo da instrumentaliza\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es contra a qual Carney alerta.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, ao manter sua cren\u00e7a no poder do d\u00f3lar, Milei n\u00e3o est\u00e1 apenas cumprindo sua promessa de campanha de 2023 de dolarizar a Argentina, mas tamb\u00e9m reafirmando seu alinhamento com a escola austr\u00edaca de economia, cujo membro, Murray Rothbard, definiu o governo como um grupo de bandidos que usam a coer\u00e7\u00e3o para obter receita. Portanto, a cren\u00e7a no poder do d\u00f3lar caminha lado a lado com o poderio militar dos EUA.<\/p>\n\n\n\n<p>Milei afirmou que \u201co direito fundamental \u00e0 liberdade d\u00e1 origem ao direito adquirido \u00e0 propriedade privada, que se manifesta em nossa capacidade de adquirir livremente propriedade com os frutos do nosso trabalho\u201d. No entanto, na Argentina, os frutos do trabalho, embora frequentemente pagos em pesos, s\u00e3o poupados em d\u00f3lares estadunidenses. Os im\u00f3veis na Argentina s\u00e3o frequentemente comprados \u00e0 vista, em d\u00f3lares estadunidenses. E na prov\u00edncia de La Rioja, em 2024, \u201cquase-moedas\u201d, que remontam \u00e0 crise de 2001, foram usadas para pagar trabalhadores assalariados. Isso prejudica ainda mais a confian\u00e7a p\u00fablica no peso.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, como a Argentina e outras na\u00e7\u00f5es latino-americanas podem responder aos apelos de Carney e evitar a cren\u00e7a de que o d\u00f3lar oferece um futuro seguro?<\/p>\n\n\n\n<p>Se uma na\u00e7\u00e3o deixa de acreditar no poder do Fundo Monet\u00e1rio Internacional e do d\u00f3lar estadunidense, o poder do d\u00f3lar enfraquece? Talvez, mas apenas ligeiramente. Mas se uma regi\u00e3o inteira deixa de acreditar no poder do d\u00f3lar, poder\u00edamos ver a mudan\u00e7a que Carney tenta explicar. No entanto, isso depende de se ter uma moeda confi\u00e1vel. Os l\u00edderes das na\u00e7\u00f5es latino-americanas que dolarizaram suas moedas ter\u00e3o que convencer suas popula\u00e7\u00f5es. Sem mencionar Antonio Kast, do Chile, e Rodrigo Paz, da Bol\u00edvia, que t\u00eam uma ideologia alinhada com a dos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma forma de diversificar e reduzir a depend\u00eancia do d\u00f3lar americano seria continuar fortalecendo a autonomia regional por meio de organiza\u00e7\u00f5es como o Banco Interamericano de Desenvolvimento ou o Mercosul. E, em n\u00edvel global, o Novo Banco de Desenvolvimento do BRICS+, com igualdade de poder de voto no banco, \u00e9 atraente.<\/p>\n\n\n\n<p>Se a Am\u00e9rica Latina manteve sua liberaliza\u00e7\u00e3o nuclear desde 1967, talvez consiga se libertar do d\u00f3lar. No entanto, para os latino-americanos, a chave para romper com a moeda americana n\u00e3o \u00e9 a confian\u00e7a, mas a coragem.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carney aposta em uma f\u00f3rmula pol\u00edtica inc\u00f4moda: se o mundo deixar de acreditar nas institui\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas dominadas por Washington, seu poder ser\u00e1 corro\u00eddo.<\/p>\n","protected":false},"author":866,"featured_media":54915,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16708,16750],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-54932","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-politica-pt-br","8":"category-economia-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54932","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/866"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54932"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54932\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54915"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54932"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54932"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54932"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=54932"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}