{"id":5501,"date":"2021-05-14T08:45:00","date_gmt":"2021-05-14T11:45:00","guid":{"rendered":"http:\/\/latinoamerica21.com\/?p=5501"},"modified":"2021-05-14T05:02:23","modified_gmt":"2021-05-14T08:02:23","slug":"argentina-vaca-muerta-e-o-perecimento-do-gas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/argentina-vaca-muerta-e-o-perecimento-do-gas\/","title":{"rendered":"Argentina: Vaca Muerta e o perecimento do g\u00e1s"},"content":{"rendered":"\n<p>A pandemia gerou o colapso do sistema de sa\u00fade, embora fa\u00e7a tempo que a sa\u00fade p\u00fablica tenha perdido o interesse da sociedade. A m\u00eddia fez eco \u00e0 greve dos m\u00e9dicos em Neuqu\u00e9n, mas destacou os custos que este tipo de medida gera na produ\u00e7\u00e3o de Vaca Morta (VM). Omar Guti\u00e9rrez, governador da prov\u00edncia argentina acima mencionada, destaca a natureza &#8220;puramente pol\u00edtica&#8221; da greve.<\/p>\n\n\n\n<p>A VM se apresenta como uma oportunidade \u00fanica para o desenvolvimento do pa\u00eds: pura gan\u00e2ncia. O g\u00e1s \u00e9 apresentado como um vetor de transi\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do petr\u00f3leo, seu aproveitamento n\u00e3o envolve o aumento do volume de emiss\u00f5es de carbono. Mas poucos falam sobre os custos ambientais gerados pela atividade, que mais cedo ou mais tarde acabam sendo afrontados pela sociedade. Ou os efeitos \u00e0 sa\u00fade que imp\u00f5e o <em>fracking<\/em>, associados com a utiliza\u00e7\u00e3o de produtos qu\u00edmicos ou a partir do mau manejo de res\u00edduos. Pouco importa se deve ser imposta uma &#8220;zona de sacrif\u00edcio&#8221;, a atividade gera benef\u00edcios para a maioria. Esta seria a l\u00f3gica aceita por todos, tanto neoliberais quanto neo-extrativistas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Os ventos est\u00e3o mudando de dire\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Mas os ventos favor\u00e1veis que uma vez favoreceram uma decolagem est\u00e3o mudando de dire\u00e7\u00e3o. Qualquer esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o a partir da exporta\u00e7\u00e3o de g\u00e1s pode acabar evaporando no ar. Infelizmente, o metano n\u00e3o se dissolve t\u00e3o facilmente. <a href=\"https:\/\/www.nytimes.com\/2021\/04\/07\/climate\/debt-climate-change.html\">Um relat\u00f3rio das Na\u00e7\u00f5es Unidas a ser publicado nos pr\u00f3ximos dias<\/a> destaca os efeitos nocivos da libera\u00e7\u00e3o deste tipo de g\u00e1s na atmosfera terrestre.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do <a href=\"http:\/\/latinoamerica21.com\/en\/oil-is-no-longer-trendy\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">di\u00f3xido de carbono que permanece por centenas de anos<\/a>, o metano dura pouco tempo (cerca de uma d\u00e9cada), mas \u00e9 muito mais perigoso. Segundo o Painel Intergovernamental sobre Mudan\u00e7a Clim\u00e1tica (IPCC), o efeito do metano sobre o aquecimento global \u00e9 86 vezes mais forte do que o gerado pelo CO2 (da\u00ed o metano ser chamado de carbono em ester\u00f3ides!). Por esta raz\u00e3o, e para reduzir rapidamente o aquecimento global, um n\u00famero crescente de especialistas sugere o abandono de projetos gas\u00edferos.<\/p>\n\n\n\n<p>A condena\u00e7\u00e3o gerada pela explora\u00e7\u00e3o tem repercuss\u00f5es al\u00e9m do ambientalismo. H\u00e1 desinteresse entre os investidores em financiar novos projetos e as empresas l\u00edderes est\u00e3o correndo para vender ativos. Um crescente n\u00famero de empres\u00e1rios teme que <a href=\"https:\/\/www.bloomberg.com\/news\/articles\/2021-04-17\/gas-is-the-new-coal-with-risk-of-100-billion-in-stranded-assets\">o g\u00e1s se torne o novo carv\u00e3o<\/a>. A pressa em sair est\u00e1 ligada ao medo de ser exposto: seus ativos podem se desvalorizar muito antes de conseguir amortizar seus investimentos.<\/p>\n\n\n\n<p>O estado da Calif\u00f3rnia acaba de anunciar a proibi\u00e7\u00e3o do <em>fracking<\/em> a partir de 2024 e, a fim de reduzir as emiss\u00f5es de metano, a administra\u00e7\u00e3o Biden decidiu reverter o tratamento benevolente de Trump para o setor. Em poucas palavras, medidas restritivas est\u00e3o ganhando adeptos, j\u00e1 que diminuir o n\u00edvel de emiss\u00f5es de metano representa o meio mais r\u00e1pido e eficaz para cumprir o objetivo pautado no acordo de Paris.<\/p>\n\n\n\n<p>Cresce o consenso por um &#8220;<em>new<\/em> <em>greendeal<\/em>&#8220;, uma mar\u00e9 que agora atinge ambas as costas do Atl\u00e2ntico Norte. Enquanto isso, \u00c1sia-Pac\u00edfico continua investindo em tecnologias renov\u00e1veis, com a tr\u00edade composta por China, Jap\u00e3o e Cor\u00e9ia do Sul liderando a produ\u00e7\u00e3o e a inova\u00e7\u00e3o a n\u00edvel global. Isto explica a redu\u00e7\u00e3o cont\u00ednua dos pre\u00e7os de equipamentos renov\u00e1veis, o aumento da competitividade que permite que a ind\u00fastria desloque qualquer projeto n\u00e3o-renov\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>O progresso n\u00e3o \u00e9 linear. Embora a ind\u00fastria petrol\u00edfera n\u00e3o desconhe\u00e7a mais os efeitos nocivos gerados por sua produ\u00e7\u00e3o, pouco fazem para revert\u00ea-la: o negacionismo de ontem transformou-se em impossibilidade, conforme descrito pelo cientista americano Michael Mann em seu livro mais recente <em>The New Climate Wars<\/em>. A mesma atitude tamb\u00e9m \u00e9 observada entre os pa\u00edses produtores de petr\u00f3leo da regi\u00e3o, como o M\u00e9xico e a Argentina, que persistem em sua aposta no <em>fracking<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Repensando a pol\u00edtica energ\u00e9tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso deveria nos obrigar a agir para o bem comum e repensar a pol\u00edtica energ\u00e9tica. Entretanto, o or\u00e7amento apresentado pelo governo argentino prop\u00f5e &#8220;promover o desenvolvimento de dep\u00f3sitos convencionais e n\u00e3o convencionais, assim como a explora\u00e7\u00e3o costa afora de hidrocarbonetos. As obras de infraestrutura acompanhar\u00e3o esta proje\u00e7\u00e3o&#8221;. Estabelecendo o g\u00e1s como um &#8220;vetor fundamental para realizar a transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, (&#8230;) sem perder de vista a possibilidade de gerar saldos export\u00e1veis&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m dos subs\u00eddios originais, se somariam a esse ano pelo menos US$ 550 milh\u00f5es de fundos que se associam ao imposto sobre grandes fortunas. Estes beneficiar\u00e3o o financiamento de programas e projetos de explora\u00e7\u00e3o, desenvolvimento e produ\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo e g\u00e1s natural, em princ\u00edpio realizados pela YPF. Desta forma, o g\u00e1s continua sendo descrito como um vetor, mais e mais fundos s\u00e3o alocados e os efeitos gerados pela atividade s\u00e3o ocultados.<\/p>\n\n\n\n<p>De um ponto de vista p\u00fablico, devemos reconsiderar as raz\u00f5es da situa\u00e7\u00e3o atual. A fim de fomentar uma atividade que claramente n\u00e3o \u00e9 economicamente vi\u00e1vel, <a href=\"https:\/\/farn.org.ar\/los-subsidios-a-los-combustibles-fosiles-2019-2020-todo-sigue-igual-de-bien\/\">o governo da Argentina mant\u00e9m subs\u00eddios<\/a> e embarca num d\u00e9ficit fiscal maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Os recursos poderiam ser redirecionados \u00e0 demanda, com cr\u00e9ditos suaves para a renova\u00e7\u00e3o de resid\u00eancias (estimulando o uso de vidros duplos para isolamento t\u00e9rmico), ou com transforma\u00e7\u00f5es no transporte p\u00fablico (racionaliza\u00e7\u00e3o do sistema, subs\u00eddios para a remodela\u00e7\u00e3o do transporte p\u00fablico para modelos el\u00e9tricos).<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso levaria a uma redu\u00e7\u00e3o, ainda que gradual, na demanda de g\u00e1s. Tamb\u00e9m n\u00e3o podemos pensar em resolver, no futuro imediato, o problema fiscal ou a crescente brecha externa gerada por um pre\u00e7o subsidiado. Mas devemos pensar na transforma\u00e7\u00e3o como vi\u00e1vel. Basta ver a convers\u00e3o do sistema de transporte na \u00e1rea metropolitana de Santiago do Chile. Poder\u00edamos tamb\u00e9m analisar a experi\u00eancia iniciada por Gustavo Petro em Bogot\u00e1 com os t\u00e1xis el\u00e9tricos, cujas defici\u00eancias podem ser \u00fateis ao projetar a transi\u00e7\u00e3o. Mais fundos n\u00e3o s\u00e3o necess\u00e1rios, o que \u00e9 necess\u00e1rio \u00e9 uma decis\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>As not\u00edcias vindas da prov\u00edncia de Neuqu\u00e9n n\u00e3o s\u00f3 s\u00e3o tendenciosas, mas tamb\u00e9m mostram o baixo valor que, como sociedade, atribu\u00edmos ao bem comum. Como disse o Governador Omar Guti\u00e9rrez, a greve foi de natureza pol\u00edtica. Certamente foi. Mas a indecis\u00e3o gerada em torno da lei de biocombust\u00edveis tamb\u00e9m \u00e9 pol\u00edtica, assim como continuar a conceder subs\u00eddios \u00e0 VM ou desfinanciar a sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p>Ignorar ou considerar como inevit\u00e1veis os efeitos nocivos gerados por esta atividade \u00e9 tamb\u00e9m uma decis\u00e3o pol\u00edtica. \u00c9 um custo imposto pelo desenvolvimento, mesmo quando \u00e9 claramente irracional. \u00c9 uma decis\u00e3o que prioriza os benef\u00edcios de alguns poucos e lucros a curto prazo.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>*Tradu\u00e7\u00e3o do espanhol por Maria Isabel Santos Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vaca Muerta &#8211; a principal forma\u00e7\u00e3o n\u00e3o convencional de hidrocarbonetos da Argentina &#8211; \u00e9 apresentada como uma oportunidade \u00fanica para o desenvolvimento do pa\u00eds. O g\u00e1s \u00e9 apresentado como um vetor de transi\u00e7\u00e3o. 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