{"id":55060,"date":"2026-02-09T09:00:00","date_gmt":"2026-02-09T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=55060"},"modified":"2026-02-09T23:26:48","modified_gmt":"2026-02-10T02:26:48","slug":"a-epidemia-de-solidao-chegou-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-epidemia-de-solidao-chegou-ao-brasil\/","title":{"rendered":"A epidemia de solid\u00e3o chegou ao Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p>Um dos clich\u00eas mais associados ao povo brasileiro entre latino-americanos e estrangeiros \u00e9 sua suposta alegria de viver e um car\u00e1ter extremamente festivo e greg\u00e1rio. Mas o que acontece quando s\u00e3o os pr\u00f3prios brasileiros que questionam essas cren\u00e7as?<\/p>\n\n\n\n<p>Uma pesquisa in\u00e9dita da consultoria Market Analysis, realizada com uma amostra representativa de 1.000 adultos, revela que mais de um em cada tr\u00eas brasileiros (35,2%) se sente sozinho sempre ou com muita frequ\u00eancia. A esse n\u00famero somam-se outros 6% que n\u00e3o sabem expressar como se sentem a respeito, uma aus\u00eancia de opini\u00e3o que, no caso de sentimentos negativos (como solid\u00e3o e abandono), costuma ser interpretada como um ind\u00edcio de emo\u00e7\u00f5es pessimistas. No conjunto, esses 41% de pessoas que experimentam um mal-estar afetivo diante de uma situa\u00e7\u00e3o frustrante ligada \u00e0 solid\u00e3o mostram uma vulnerabilidade e fragilidade incompat\u00edveis com o clich\u00ea de alegria, leveza e cordialidade existencial tradicionalmente atribu\u00eddo ao povo brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Os cientistas sociais j\u00e1 questionavam o mito do Brasil como uma sociedade cordial, soci\u00e1vel e emocionalmente integrada a partir das estat\u00edsticas de viol\u00eancia social ou de profunda desigualdade e discrimina\u00e7\u00e3o. Hoje, acrescenta-se a essa cr\u00edtica um plano mais subjetivo e intimista: a ruptura psicol\u00f3gica substantiva do sujeito, que exibe seu isolamento como um dilaceramento moral e existencial. N\u00e3o se trata mais do indiv\u00edduo abrutamente retirado de seu contexto rural ou local e massificado em uma multid\u00e3o solit\u00e1ria, como descrito por David Riesman no in\u00edcio do s\u00e9culo XX. A solid\u00e3o que reina hoje n\u00e3o \u00e9 um mero retrato do cotidiano que acompanha a pessoa, mas um estigma que constr\u00f3i uma identidade negativa, desmoralizada e paralisante.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Demografia da solid\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A solid\u00e3o \u00e9 considerada hoje a nova epidemia mundial, especialmente no Norte desenvolvido, uma situa\u00e7\u00e3o que impulsionou a cria\u00e7\u00e3o de minist\u00e9rios e escrit\u00f3rios governamentais espec\u00edficos em pa\u00edses como o Reino Unido, Jap\u00e3o e Espanha. Pesquisas realizadas em mais de 142 pa\u00edses pelo instituto Gallup em 2023 indicaram que, em m\u00e9dia, 23% dos adultos consultados se sentiram involunt\u00e1ria e desconfortavelmente sozinhos no dia anterior. Nos Estados Unidos, algumas pesquisas revelaram que, entre 2019 e 2024, a porcentagem de pessoas que se sentiam socialmente abandonadas passou de 31% para 53%. De fato, j\u00e1 em 2023, o diretor-geral de Sa\u00fade P\u00fablica dos Estados Unidos, Dr. Vivek Murthy, declarou a solid\u00e3o uma praga em seu pa\u00eds e, pouco depois, a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) a instituiu como \u201cuma amea\u00e7a \u00e0 sa\u00fade global\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>A globaliza\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o, que se estende a regi\u00f5es como a brasileira, obedece em parte \u00e0 l\u00f3gica estrutural que a predetermina: o fen\u00f4meno tende a se agravar primeiro e com mais intensidade entre os setores economicamente perif\u00e9ricos, o que revela uma rela\u00e7\u00e3o direta entre menor renda e maior propens\u00e3o a se sentir afetiva e socialmente desconectado do resto da sociedade. No Brasil, a sensa\u00e7\u00e3o de solid\u00e3o \u00e9 o dobro (aproximando-se de 47%) entre aqueles que pertencem aos estratos mais baixos da pir\u00e2mide social (classes C2\/D\/E) do que entre os cidad\u00e3os que se encontram no topo dessa pir\u00e2mide (classe A). \u00c0 precariedade econ\u00f4mica se soma a fragilidade emocional e social.<\/p>\n\n\n\n<p>A maior exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 solid\u00e3o de grupos espec\u00edficos, como mulheres (11 pontos percentuais a mais que os homens) ou pessoas com menor n\u00edvel de escolaridade, revela que as vulnerabilidades se sobrep\u00f5em. Sem d\u00favida, a sobrecarga de tarefas entre as mulheres reduz drasticamente as possibilidades de vida social al\u00e9m das obriga\u00e7\u00f5es cotidianas. No caso daqueles com baixo n\u00edvel de escolaridade, a concentra\u00e7\u00e3o precoce em compromissos de sobreviv\u00eancia e reprodu\u00e7\u00e3o material b\u00e1sica elimina oportunidades de diversificar suas redes e interlocu\u00e7\u00f5es sociais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao contr\u00e1rio do que mostram alguns estudos pr\u00e9-pand\u00eamicos, tamb\u00e9m h\u00e1 diferen\u00e7as et\u00e1rias muito significativas. Pesquisas recentes conduzidas pela associa\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos American Association of Retired Persons (AARP), que ajuda a melhorar a qualidade de vida de pessoas com mais de 50 anos, identificam a popula\u00e7\u00e3o com mais de 45 anos como uma das mais afetadas pela exclus\u00e3o social e afetiva. No entanto, no Brasil, quem mais sofre com essa sensa\u00e7\u00e3o s\u00e3o os jovens, o que antecipa um futuro sombrio de gera\u00e7\u00f5es emocionalmente desconectadas e socialmente atrofiadas. Em termos de solid\u00e3o, a diferen\u00e7a entre aqueles com idades entre 18 e 24 anos e aqueles com 65 anos ou mais \u00e9 de 50%: esse sentimento afeta 45% dos mais jovens contra 30% dos mais velhos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que causa a epidemia de solid\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>As an\u00e1lises sociol\u00f3gicas ajudam a entender o contexto, mas n\u00e3o fornecem informa\u00e7\u00f5es sobre a narrativa individual que as pessoas constroem para dar sentido \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o. Essa narrativa costuma explicar a solid\u00e3o em fun\u00e7\u00e3o de falhas pessoais ou de circunst\u00e2ncias que escapam ao controle individual.<\/p>\n\n\n\n<p>Como ilustra o estudo da AARP mencionado acima, o enfraquecimento dos la\u00e7os comunit\u00e1rios e do compromisso c\u00edvico contribui para esse desenraizamento; trata-se de causas sist\u00eamicas. Mas tamb\u00e9m sabemos que o uso excessivo de tecnologias de informa\u00e7\u00e3o e entretenimento, a ruptura da ordem familiar e o consumismo material como forma de se expressar e se relacionar com os outros condicionam o grau de isolamento individual. No Brasil, as causas da solid\u00e3o s\u00e3o atribu\u00eddas muito mais ao sistema (61% dos entrevistados) do que \u00e0s escolhas individuais (26%).<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O que gera a epidemia da solid\u00e3o?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o afetiva e abandono social tem sido historicamente associada \u00e0 deteriora\u00e7\u00e3o da sa\u00fade pessoal (menor expectativa de vida, danos neurol\u00f3gicos, maior consumo de drogas e rem\u00e9dios, h\u00e1bitos n\u00e3o saud\u00e1veis, tend\u00eancias depressivas e suicidas, etc.). Alguns otimistas reconhecem certos paliativos como deriva\u00e7\u00e3o positiva da solid\u00e3o, tais como a ado\u00e7\u00e3o de uma fam\u00edlia multiesp\u00e9cie com animais e plantas em casa ou a explora\u00e7\u00e3o curiosa de companhias virtuais oferecidas pela intelig\u00eancia artificial. No entanto, nem sempre se trata de solu\u00e7\u00f5es que conduzem a uma integra\u00e7\u00e3o social eficaz, sem mencionar seus custos financeiros, nem sempre assum\u00edveis entre quem geralmente prov\u00eam das classes com menos recursos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os efeitos negativos potenciais da solid\u00e3o n\u00e3o param por a\u00ed. Assim como Riesman advertiu em seu estudo sobre a \u201cmultid\u00e3o solit\u00e1ria\u201d, a massifica\u00e7\u00e3o da solid\u00e3o est\u00e1 ligada \u00e0 anomia coletiva, \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, ao fanatismo e \u00e0 desconfian\u00e7a generalizada. De fato, o estudo da Market Analysis indica que os brasileiros que se sentem solit\u00e1rios tamb\u00e9m se sentem mais inseguros, aderem menos \u00e0 democracia, s\u00e3o mais pessimistas, admitem ter menos controle sobre sua vida digital e o tempo que dedicam a ela, e vivem sua conectividade de maneira conflituosa e opressiva, como um fardo ou algo fora de seu controle.<\/p>\n\n\n\n<p>Com legi\u00f5es de pessoas que se encontram sozinhas involuntariamente e vivem com desconforto seu isolamento social e afetivo, o Brasil participa com peso significativo de um dos fen\u00f4menos mais desconcertantes de nossa era: a implos\u00e3o emocional de gera\u00e7\u00f5es baseada em sua tristeza e sensa\u00e7\u00e3o de abandono afetivo, em vez de uma explos\u00e3o participativa e criativa baseada em sua aspira\u00e7\u00e3o de melhorar a sociedade e o planeta.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil, s\u00edmbolo de sociabilidade e alegria, enfrenta hoje um paradoxo preocupante: milh\u00f5es de pessoas vivem uma solid\u00e3o persistente que corr\u00f3i os la\u00e7os sociais.<\/p>\n","protected":false},"author":90,"featured_media":55039,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16728],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-55060","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-brasil-pt-br","8":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55060","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/90"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55060"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55060\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55039"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55060"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55060"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55060"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=55060"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}