{"id":55064,"date":"2026-02-10T09:00:00","date_gmt":"2026-02-10T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=55064"},"modified":"2026-02-09T23:45:12","modified_gmt":"2026-02-10T02:45:12","slug":"quando-a-ideologia-substitui-a-politica-economica-de-trump-a-noboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/quando-a-ideologia-substitui-a-politica-economica-de-trump-a-noboa\/","title":{"rendered":"Quando a ideologia substitui a pol\u00edtica econ\u00f4mica: de Trump a Noboa"},"content":{"rendered":"\n<p>Em 20 de janeiro de 2025, Donald Trump iniciou seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos. Desde seu primeiro mandato, Trump promoveu uma agenda caracterizada por decis\u00f5es unilaterais, o uso recorrente de tarifas como instrumento de press\u00e3o pol\u00edtica e uma leitura ideol\u00f3gica das rela\u00e7\u00f5es internacionais que desconsiderou crit\u00e9rios t\u00e9cnicos, multilaterais e de planejamento econ\u00f4mico de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>Um dos epis\u00f3dios mais emblem\u00e1ticos foi a imposi\u00e7\u00e3o de tarifas sobre a China e v\u00e1rios parceiros europeus, sob o pretexto de corrigir supostos \u201cabusos comerciais\u201d e reduzir o d\u00e9ficit externo estadunidense. Na pr\u00e1tica, essas medidas responderam menos a uma estrat\u00e9gia abrangente de pol\u00edtica industrial e mais a uma l\u00f3gica de coer\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica, na qual o com\u00e9rcio foi utilizado como mecanismo de puni\u00e7\u00e3o e negocia\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A China respondeu com tarifas rec\u00edprocas, aprofundando uma guerra comercial que afetou as cadeias de valor globais, aumentou o custo dos insumos e gerou distor\u00e7\u00f5es que, com o tempo, for\u00e7aram os Estados Unidos a reverter algumas dessas medidas.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse padr\u00e3o se intensificou durante o segundo mandato de Trump. Os impasses com os governos europeus e latino-americanos decorreram de diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas expl\u00edcitas, e n\u00e3o de avalia\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas de pol\u00edticas econ\u00f4micas ou comerciais. Na Europa, as tens\u00f5es comerciais \u2014 incluindo as amea\u00e7as de tarifas \u2014 foram reativadas como instrumentos de press\u00e3o. Nesse contexto, a inten\u00e7\u00e3o do governo estadunidense de assumir o controle da Groenl\u00e2ndia e as declara\u00e7\u00f5es subsequentes de Trump refor\u00e7aram esse enfoque. Apesar de suavizar sua ret\u00f3rica em f\u00f3runs como Davos, o presidente manteve um tom abertamente amea\u00e7ador, sugerindo que \u201cse n\u00e3o negociarem, os Estados Unidos se lembrar\u00e3o de quem estava do outro lado\u201d, o que tensiona as normas b\u00e1sicas do direito internacional e do multilateralismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, essa l\u00f3gica se traduziu em restri\u00e7\u00f5es migrat\u00f3rias e financeiras contra governos politicamente distantes e em confrontos diretos com l\u00edderes como Lula da Silva e Gustavo Petro. No entanto, outros pa\u00edses com problemas estruturais compar\u00e1veis \u200b\u200b\u2014 incluindo a expans\u00e3o do narcotr\u00e1fico \u2014 ficaram \u00e0 margem devido ao seu alinhamento com Washington. O Equador \u00e9 um exemplo ilustrativo: apesar da deteriora\u00e7\u00e3o de sua seguran\u00e7a interna, do avan\u00e7o do crime organizado e de seu status como um dos principais pontos de exporta\u00e7\u00e3o de coca\u00edna do mundo, segundo relat\u00f3rios de organiza\u00e7\u00f5es multilaterais e ag\u00eancias especializadas (UNODC, DEA), o pa\u00eds n\u00e3o sofreu repres\u00e1lias significativas, demonstrando o peso dos alinhamentos pol\u00edticos sobre as considera\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas.<\/p>\n\n\n\n<p>Contudo, essa l\u00f3gica de confronto n\u00e3o se limitou \u00e0 pol\u00edtica externa dos EUA. Na Am\u00e9rica Latina, esse tipo de abordagem come\u00e7ou a ser incorporado \u00e0 pol\u00edtica econ\u00f4mica e externa de alguns pa\u00edses, como Argentina e Equador. No caso equatoriano, o recente impasse diplom\u00e1tico e comercial com a Col\u00f4mbia ilustra particularmente essa din\u00e2mica: decis\u00f5es reativas, adotadas sem uma avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica abrangente e com efeitos econ\u00f4micos imediatos. Nesse contexto, o governo de Daniel Noboa demonstra como uma estrat\u00e9gia guiada por c\u00e1lculos pol\u00edticos de curto prazo pode reproduzir padr\u00f5es j\u00e1 observados na pol\u00edtica externa dos EUA sob Donald Trump, com riscos ainda maiores quando aplicada a contextos institucionalmente mais fr\u00e1geis e economicamente dependentes.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O \u201cTrump equatoriano\u201d e a pol\u00edtica de confronto<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde o in\u00edcio de seu mandato, o presidente Daniel Noboa tem demonstrado tra\u00e7os de gest\u00e3o pol\u00edtica an\u00e1logos ao estilo de Donald Trump. Um deles \u00e9 a busca sistem\u00e1tica por culpados externos ou institucionais para os problemas de governan\u00e7a e implementa\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas. Em diversas ocasi\u00f5es, o Poder Executivo atribuiu a falta de progresso na seguran\u00e7a e em reformas-chave \u00e0 Corte Nacional de Justi\u00e7a e a outros \u00f3rg\u00e3os estatais, por meio de acusa\u00e7\u00f5es p\u00fablicas contra ju\u00edzes e funcion\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse padr\u00e3o n\u00e3o \u00e9 novo. Durante seu primeiro mandato, o Equador esteve no centro de um dos epis\u00f3dios mais delicados do direito internacional em sua hist\u00f3ria recente: a invas\u00e3o da embaixada mexicana em Quito para prender o ex-vice-presidente Jorge Glas. Al\u00e9m das controv\u00e9rsias jur\u00eddicas em torno de Glas, o evento constituiu uma viola\u00e7\u00e3o dos princ\u00edpios da Conven\u00e7\u00e3o de Viena e resultou em uma deteriora\u00e7\u00e3o significativa das rela\u00e7\u00f5es bilaterais com o M\u00e9xico. Posteriormente, o governo equatoriano anunciou medidas comerciais e tarif\u00e1rias que, longe de se basearem em uma avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica da pol\u00edtica econ\u00f4mica, aprofundaram a ruptura diplom\u00e1tica e geraram custos evit\u00e1veis. A analogia com Trump reside, portanto, no recurso a decis\u00f5es unilaterais e na utiliza\u00e7\u00e3o de san\u00e7\u00f5es comerciais como instrumento de press\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>Este estilo ressurgiu recentemente na rela\u00e7\u00e3o com a Col\u00f4mbia. Em 20 de janeiro de 2026, o presidente Gustavo Petro declarou que Glas deveria ser libertado da pris\u00e3o por raz\u00f5es humanit\u00e1rias e de sa\u00fade \u2014 uma declara\u00e7\u00e3o percebida como interfer\u00eancia em assuntos internos \u2014 e o governo Noboa respondeu em 21 de janeiro anunciando um aumento de 30% nas tarifas de importa\u00e7\u00e3o da Col\u00f4mbia, com vig\u00eancia a partir de 1\u00ba de fevereiro de 2026. A medida foi justificada pela alegada falta de coopera\u00e7\u00e3o no combate ao narcotr\u00e1fico, pelos impactos das atividades il\u00edcitas na fronteira e por um persistente d\u00e9ficit comercial bilateral. No entanto, o momento dessas justificativas e o impasse diplom\u00e1tico sugerem uma rea\u00e7\u00e3o pol\u00edtica em vez de uma avalia\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica abrangente.<\/p>\n\n\n\n<p>A decis\u00e3o \u00e9 particularmente delicada, considerando que a Col\u00f4mbia \u00e9 um dos principais parceiros comerciais do Equador e um fornecedor estrat\u00e9gico de eletricidade. Nos \u00faltimos dois anos, as importa\u00e7\u00f5es de eletricidade da Col\u00f4mbia t\u00eam sido cruciais para mitigar a crise energ\u00e9tica do Equador, em um contexto de condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas adversas e investimentos limitados em novas fontes de gera\u00e7\u00e3o. Apesar dessa interdepend\u00eancia, o conflito escalou rapidamente: em 22 de janeiro, a Col\u00f4mbia anunciou tarifas rec\u00edprocas e a suspens\u00e3o ou revis\u00e3o das vendas de energia para o Equador, uma medida que, se implementada, teria efeitos imediatos sobre a atividade produtiva, os custos das empresas e o bem-estar das fam\u00edlias. O pr\u00f3prio governo equatoriano reconheceu esse risco e anunciou incentivos para a autogera\u00e7\u00e3o privada, um sinal claro da vulnerabilidade do sistema el\u00e9trico.<\/p>\n\n\n\n<p>Tudo isso ocorre em um contexto de resultados mistos do governo Noboa. Na frente econ\u00f4mica, houve avan\u00e7os, como a redu\u00e7\u00e3o do risco-pa\u00eds para cerca de 458 pontos \u2014 o n\u00edvel mais baixo em uma d\u00e9cada \u2014, crescimento das exporta\u00e7\u00f5es n\u00e3o petrol\u00edferas, sinais de reativa\u00e7\u00e3o no setor da constru\u00e7\u00e3o civil e perspectivas de crescimento do PIB mais otimistas. No entanto, esses resultados contrastam fortemente com o desempenho claramente desfavor\u00e1vel na \u00e1rea da seguran\u00e7a. Ap\u00f3s uma taxa de homic\u00eddios de quase 45,7 por 100 mil habitantes em 2023, o Equador registrou cerca de 39 em 2024, permanecendo entre os pa\u00edses mais violentos do mundo. Os n\u00fameros preliminares para 2025 sugerem uma deteriora\u00e7\u00e3o ainda maior, com uma taxa estimada entre 49 e 51 homic\u00eddios por 100.000 habitantes (8.847 casos), o n\u00edvel mais alto da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds, refletindo o aprofundamento do crime organizado e do narcotr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma compara\u00e7\u00e3o entre os Estados Unidos sob Donald Trump e o Equador sob Daniel Noboa revela um padr\u00e3o comum: quando a ideologia substitui a pol\u00edtica econ\u00f4mica e o confronto substitui a coopera\u00e7\u00e3o, os custos acabam sendo econ\u00f4micos, institucionais e sociais. No caso dos Estados Unidos, o tamanho de sua economia permite absorver parte desses custos e, eventualmente, ter maior margem de manobra para corrigir o rumo. Em economias pequenas e dependentes como a do Equador, no entanto, as margens de erro s\u00e3o muito menores e as consequ\u00eancias mais imediatas. Reproduzir uma l\u00f3gica de poder, press\u00e3o e alinhamento ideol\u00f3gico em uma regi\u00e3o historicamente tratada como \u201cquintal\u201d n\u00e3o fortalece a soberania nem a seguran\u00e7a econ\u00f4mica. Pelo contr\u00e1rio, enfraquece a coopera\u00e7\u00e3o regional, aumenta a vulnerabilidade externa e p\u00f5e em risco as conquistas recentes. Para al\u00e9m de uma lideran\u00e7a confrontativa, o Equador \u2014 e a Am\u00e9rica Latina como um todo \u2014 necessita de estrat\u00e9gias de pol\u00edtica externa e econ\u00f4mica baseadas no pragmatismo, no planejamento e na integra\u00e7\u00e3o, mesmo quando existem diferen\u00e7as ideol\u00f3gicas, como demonstra o processo de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e pol\u00edtica europeia.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando a ideologia substitui o pragmatismo na pol\u00edtica econ\u00f4mica e externa, o confronto ganha centralidade e os custos \u2014 econ\u00f4micos, institucionais e sociais \u2014 n\u00e3o demoram a aparecer.<\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":55049,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16715,16747],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-55064","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-ecuador-pt-br","8":"category-ideologia-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55064","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/131"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55064"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55064\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55049"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55064"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55064"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55064"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=55064"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}