{"id":55117,"date":"2026-02-12T15:00:00","date_gmt":"2026-02-12T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=55117"},"modified":"2026-02-12T19:49:28","modified_gmt":"2026-02-12T22:49:28","slug":"os-obstaculos-da-agenda-regional-de-cuidados-a-partir-de-uma-visao-feminista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/os-obstaculos-da-agenda-regional-de-cuidados-a-partir-de-uma-visao-feminista\/","title":{"rendered":"Os obst\u00e1culos da agenda regional de cuidados a partir de uma vis\u00e3o feminista"},"content":{"rendered":"\n<p>Nos \u00faltimos anos, a agenda de cuidados deixou de ser uma demanda setorial do movimento feminista para se tornar um dos debates pol\u00edticos mais relevantes na Am\u00e9rica Latina, em resposta \u00e0s profundas desigualdades que atravessam a regi\u00e3o. Contudo, seu avan\u00e7o concreto segue limitado e lento.<\/p>\n\n\n\n<p>Pa\u00edses como Uruguai, com seu Sistema Nacional Integrado de Cuidados, demonstraram que \u00e9 poss\u00edvel construir institui\u00e7\u00f5es espec\u00edficas, ampliar servi\u00e7os e reconhecer direitos. Na Argentina, Chile, Panam\u00e1, Col\u00f4mbia e M\u00e9xico, os debates sobre sistemas de cuidados, planos nacionais e reformas legais evidenciam uma mudan\u00e7a cultural e pol\u00edtica significativa que nos d\u00e1 esperan\u00e7a. Da mesma forma, os consensos regionais promovidos pela CEPAL e outros espa\u00e7os multilaterais contribu\u00edram para consolidar um marco comum que reconhece o cuidado como pilar do desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, esses avan\u00e7os convivem com fortes assimetrias, j\u00e1 que a cobertura permanece limitada, a qualidade dos servi\u00e7os desigual e a sustentabilidade financeira fr\u00e1gil. O risco \u00e9 que a agenda de cuidados fique presa a declara\u00e7\u00f5es progressistas sem a capacidade real de transformar o cotidiano de milh\u00f5es de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>De uma perspectiva feminista, os obst\u00e1culos que essa agenda enfrenta n\u00e3o s\u00e3o falhas de concep\u00e7\u00e3o ou problemas isolados de implementa\u00e7\u00e3o. Em vez disso, s\u00e3o reflexo de um modelo econ\u00f4mico, social e cultural sustentado pela explora\u00e7\u00e3o invis\u00edvel do trabalho de cuidado, realizado majoritariamente, e quase exclusivamente, por mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p>Analisar esses obst\u00e1culos \u00e9 chave para entender por que o cuidado, apesar de ser indispens\u00e1vel para a sustentabilidade da vida e da economia, continua ocupando um lugar marginal nas prioridades pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O obst\u00e1culo fiscal<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos principais limites para o desenvolvimento de sistemas integrais de cuidados \u00e9 a persistente restri\u00e7\u00e3o fiscal. Na Am\u00e9rica Latina, os debates or\u00e7ament\u00e1rios podem apresentar o cuidado como uma despesa dispens\u00e1vel, especialmente em contextos de crise econ\u00f4mica ou ajuste. Essa vis\u00e3o ignora que o cuidado j\u00e1 \u00e9 financiado, mas de forma desigual.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, quando o Estado n\u00e3o investe, o custo \u00e9 transferido diretamente para os lares e, dentro delas, para as mulheres. Como alerta a Oxfam em seu relat\u00f3rio <a href=\"https:\/\/www.oxfam.org\/es\/informes\/tiempo-para-el-cuidado\"><em>Tempo para o cuidado<\/em><\/a> (2020), essa combina\u00e7\u00e3o de desigualdade extrema e sistemas tribut\u00e1rios regressivos limita estruturalmente a capacidade do Estado de garantir o direito ao cuidado.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O obst\u00e1culo institucional<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Outro obst\u00e1culo estrutural \u00e9 a fragmenta\u00e7\u00e3o institucional das pol\u00edticas de cuidado. Em muitos pa\u00edses da regi\u00e3o, essas pol\u00edticas est\u00e3o dispersas por diferentes minist\u00e9rios, programas e n\u00edveis de governo, sem uma autoridade governante clara ou uma estrat\u00e9gia integral. Essa fragmenta\u00e7\u00e3o debilita a capacidade do Estado de garantir o direito ao cuidado e gera fortes desigualdades territoriais. Sem institucionalidade s\u00f3lida, a agenda do cuidado corre o risco de reproduzir as pr\u00f3prias desigualdades que busca combater.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O obst\u00e1culo cultural<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Um dos obst\u00e1culos mais persistentes \u00e9 a ordem cultural patriarcal que naturaliza o cuidado como uma responsabilidade feminina. Relat\u00f3rios da Oxfam mostram que as mulheres realizam mais de 75% do trabalho de cuidado n\u00e3o remunerado e dois ter\u00e7os do trabalho de cuidados remunerado, e que esse fardo limita seu acesso ao emprego e ao bem-estar.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa ideia, profundamente enraizada, segue organizando tanto as expectativas sociais quanto as decis\u00f5es pol\u00edticas. O cuidado se apresenta como uma extens\u00e3o \u201cnatural\u201d dos pap\u00e9is das mulheres, e n\u00e3o como um trabalho socialmente necess\u00e1rio que deve ser reconhecido, redistribu\u00eddo e valorizado. Essa naturaliza\u00e7\u00e3o tem consequ\u00eancias materiais: limita a autonomia econ\u00f4mica das mulheres, condiciona sua participa\u00e7\u00e3o no mercado de trabalho e refor\u00e7a os ciclos de pobreza e depend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto o cuidado continua sendo visto como um assunto privado e feminino, a corresponsabilidade social e de g\u00eanero (um pilar central da agenda regional) permanecer\u00e1 mais um discurso do que uma realidade.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O obst\u00e1culo trabalhista<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Quando o cuidado \u00e9 remunerado, geralmente ocorre em condi\u00e7\u00f5es prec\u00e1rias. O trabalho de cuidados remunerados em lares, centros comunit\u00e1rios ou institui\u00e7\u00f5es est\u00e1 marcado por baixos sal\u00e1rios, informalidade, prote\u00e7\u00e3o social limitada e fraco reconhecimento profissional. Essa precariedade afeta sobretudo as mulheres pobres, migrantes e racializadas, reproduzindo desigualdades dentro do pr\u00f3prio setor.<\/p>\n\n\n\n<p>Este n\u00e3o \u00e9 um problema secund\u00e1rio. Sem condi\u00e7\u00f5es de trabalho decentes, a expans\u00e3o de servi\u00e7os de cuidado se torna um novo nicho para explora\u00e7\u00e3o. A agenda do cuidado s\u00f3 ser\u00e1 transformadora se incluir direitos trabalhistas, forma\u00e7\u00e3o, estabilidade e prote\u00e7\u00e3o social para quem cuida.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O obst\u00e1culo pol\u00edtico<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a agenda regional de cuidados enfrenta um obst\u00e1culo pol\u00edtico central, a falta de vontade pol\u00edtica sustentada e as resist\u00eancias conservadoras. Embora o cuidado apare\u00e7a em alguns discursos oficiais e compromissos internacionais, podem perder prioridade para agendas consideradas mais produtivas ou estrat\u00e9gicas. Em contextos de avan\u00e7o de for\u00e7as neoconservadoras e antifeministas, como o que vivenciamos atualmente, o cuidado \u00e9 at\u00e9 mesmo deslegitimado como uma demanda ideol\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa falta de vontade se traduz em or\u00e7amentos insuficientes, institui\u00e7\u00f5es fr\u00e1geis e aus\u00eancia de lideran\u00e7a pol\u00edtica. Sem uma disputa expl\u00edcita pelo significado do cuidado como um direito e como infraestrutura social, a agenda corre o risco de ficar presa a declara\u00e7\u00f5es simb\u00f3licas sem capacidade transformadora real.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>O cuidado como uma disputa feminista pela igualdade<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A Agenda Regional de Cuidados prop\u00f5e reconhecer o cuidado como um direito humano (o direito de cuidar, de ser cuidado e de autocuidado) e como uma responsabilidade social compartilhada. Isso implica romper com a ideia de que o cuidado \u00e9 uma obriga\u00e7\u00e3o privada, feminina e gratuita, confinada ao lar e assumida principalmente por mulheres, especialmente aquelas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, racializadas e migrantes.<\/p>\n\n\n\n<p>Os obst\u00e1culos que a agenda regional de cuidados enfrenta n\u00e3o s\u00e3o acidentais. Todos os descritos aqui expressam um modelo que segue dependendo da distribui\u00e7\u00e3o desigual de tempo, trabalho e poder. De uma perspectiva feminista, avan\u00e7ar nessa agenda implica muito mais do que criar novos servi\u00e7os, requer questionar prioridades econ\u00f4micas, redistribuir recursos, transformar normas culturais e disputar poder.<\/p>\n\n\n\n<p>Colocar o cuidado no centro n\u00e3o \u00e9 uma concess\u00e3o ou um luxo em tempos de crise. \u00c9 uma condi\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para construir sociedades mais igualit\u00e1rias, democr\u00e1ticas e sustent\u00e1veis. Portanto, a agenda de cuidados \u00e9, em ess\u00eancia, uma luta feminista pela vida, e enfrentar seus obst\u00e1culos \u00e9 parte fundamental da luta contra as desigualdades estruturais na Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A agenda dos cuidados ganha espa\u00e7o no discurso regional, mas esbarra em um modelo que continua se sustentando no trabalho invis\u00edvel e prec\u00e1rio das mulheres.<\/p>\n","protected":false},"author":626,"featured_media":55109,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16716,16782],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-55117","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-desigualdad-es-pt-br","8":"category-genero-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55117","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/626"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55117"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55117\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55109"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55117"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55117"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55117"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=55117"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}