{"id":55373,"date":"2026-02-25T09:00:00","date_gmt":"2026-02-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=55373"},"modified":"2026-02-25T19:19:25","modified_gmt":"2026-02-25T22:19:25","slug":"quando-os-estados-se-enfrentam-o-crime-se-coordena-equador-versus-colombia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/quando-os-estados-se-enfrentam-o-crime-se-coordena-equador-versus-colombia\/","title":{"rendered":"Quando os Estados se enfrentam, o crime se coordena: Equador versus Col\u00f4mbia"},"content":{"rendered":"\n<p>A disputa que atualmente op\u00f5e o Equador \u00e0 Col\u00f4mbia, retratada como uma guerra comercial, \u00e9, na verdade, sintoma de algo mais delicado: poderia marcar o in\u00edcio do colapso da coopera\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica necess\u00e1ria para governar uma fronteira e uma economia regional que j\u00e1 n\u00e3o se move s\u00f3 por limites geogr\u00e1ficos, mas por redes criminosas transnacionais.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando esses dois vizinhos substituem a coordena\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica por san\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, o problema deixa de ser bilateral e se torna um multiplicador de custos para toda a regi\u00e3o andina. O Equador justificou a taxa de seguran\u00e7a de 30% sobre bens colombianos alegando falta de coopera\u00e7\u00e3o contra o narcotr\u00e1fico, enquanto a Col\u00f4mbia respondeu aplicando uma de 30% sobre mais de vinte produtos equatorianos e suspendendo a venda de energia el\u00e9trica. Ao mesmo tempo, sabe-se que o d\u00e9ficit comercial do Equador com a Col\u00f4mbia foi de US$838 milh\u00f5es nos primeiros dez meses do \u00faltimo ano para o qual h\u00e1 dados dispon\u00edveis, e que a Col\u00f4mbia exportou US$1,67 bilh\u00e3o para o Equador nos primeiros onze meses. Portanto, n\u00e3o estamos falando de um interc\u00e2mbio marginal, mas de uma troca em larga escala envolvendo medicamentos, insumos industriais, agroqu\u00edmicos e bens de consumo.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas o argumento subjacente do Equador n\u00e3o \u00e9 o d\u00e9ficit, mas a seguran\u00e7a, e aqui surge a quest\u00e3o que deve nortear qualquer editorial: a fronteira \u00e9 o problema ou \u00e9 um reflexo de um problema maior? Antes, as drogas cruzavam pela fronteira, e ainda o fazem. No entanto, seria um erro acreditar que o narcotr\u00e1fico contempor\u00e2neo depende principalmente de travessias terrestres. O que mudou n\u00e3o foi a exist\u00eancia do fluxo, mas sua estrutura: o neg\u00f3cio n\u00e3o est\u00e1 mais ligado a uma linha fronteiri\u00e7a como \u00fanico corredor, mas sim conectado a uma cadeia multin\u00f3dica que inclui portos, cont\u00eaineres, rotas mar\u00edtimas, lavagem de ativos, corrup\u00e7\u00e3o e controle prisional.<\/p>\n\n\n\n<p>O Equador registrou 9.216 assassinatos em 2025, frente aos 7.063 em 2024, representando um aumento de 30% em apenas um ano, segundo dados do Minist\u00e9rio do Interior. N\u00e3o se trata de um aumento marginal, mas sim um indicador de um Estado pressionado por guerras entre gangues e realinhamentos criminosos. Portanto, para entender por que a viol\u00eancia disparou no Equador, apesar de o pa\u00eds n\u00e3o ser um grande produtor de coca, \u00e9 preciso analisar seu papel como pa\u00eds de tr\u00e2nsito. Algumas fontes oficiais indicaram que, em 2024, opera\u00e7\u00f5es do Bloco de Seguran\u00e7a apreenderam 278 toneladas de drogas (28% a mais que em 2023), um n\u00famero que, por si s\u00f3, demonstra a magnitude do corredor equatoriano no mapa regional.<\/p>\n\n\n\n<p>O Minist\u00e9rio da Defesa informou que, at\u00e9 30 de outubro de 2025, 135 toneladas haviam sido apreendidas em opera\u00e7\u00f5es mar\u00edtimas. Esse n\u00famero \u00e9 relevante porque confirma que o corredor de drogas n\u00e3o se limita mais \u00e0 travessia da fronteira: ele tamb\u00e9m inclui rotas mar\u00edtimas e log\u00edstica portu\u00e1ria. Portanto, quando o conflito bilateral \u00e9 apresentado como consequ\u00eancia da fronteira, uma rede complexa e multifacetada \u00e9 simplificada em excesso. A oferta tamb\u00e9m pressiona no lado colombiano; por exemplo, sabe-se que em 2023 a Col\u00f4mbia atingiu 253.000 hectares de cultivo de coca (10% a mais que em 2022) e uma produ\u00e7\u00e3o potencial de 2.664 toneladas de coca\u00edna (53% a mais que no ano anterior). Esse aumento intensifica a competi\u00e7\u00e3o por rotas e a necessidade de escoamento para mercados externos. Em outras palavras, mesmo que uma rota seja fechada, o tr\u00e1fico encontra outra. E quando os custos do com\u00e9rcio legal aumentam devido a tarifas, atritos ou controles improvisados, o incentivo ao contrabando e \u00e0 apropria\u00e7\u00e3o de lucros il\u00edcitos tamb\u00e9m aumenta.<\/p>\n\n\n\n<p>A ideia de que tudo se deve \u00e0s planta\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m \u00e9 incompleta. O cultivo \u00e9 a origem, mas o problema reside na cadeia de suprimentos. O Equador n\u00e3o precisa cultivar coca em larga escala para se tornar um centro de distribui\u00e7\u00e3o; basta ser uma plataforma log\u00edstica e financeira. Nesse contexto, a fronteira funciona como um centro para combust\u00edvel, armas, pessoas, minera\u00e7\u00e3o ilegal, cobran\u00e7as ilegais de gangues e drogas. A fronteira importa, mas por si s\u00f3 n\u00e3o explica o colapso da ordem no Equador. Por essa raz\u00e3o, o governo Noboa declarou estado de conflito armado interno em 9 de janeiro de 2024 e designou 22 grupos como organiza\u00e7\u00f5es terroristas, numa tentativa de fortalecer a resposta do Estado e justificar a interven\u00e7\u00e3o militar na seguran\u00e7a interna, que at\u00e9 ent\u00e3o havia sido limitada.<\/p>\n\n\n\n<p>Nesse contexto, vale a pena fazer outra pergunta que ajuda a compreender o problema em sua totalidade: as FARC est\u00e3o mais divididas? A resposta \u00e9 sim, e essa fragmenta\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 importante para o Equador. Um relat\u00f3rio do governo australiano indica que, ap\u00f3s a dissolu\u00e7\u00e3o das FARC, surgiram mais de 30 grupos dissidentes, n\u00e3o monol\u00edticos, com fac\u00e7\u00f5es e alian\u00e7as em constante mudan\u00e7a. O relat\u00f3rio estima ainda uma for\u00e7a coletiva entre 4.000 e 8.000 membros, com atividades criminosas ligadas ao tr\u00e1fico de coca\u00edna, minera\u00e7\u00e3o ilegal e extors\u00e3o. Portanto, a fragmenta\u00e7\u00e3o por si s\u00f3 n\u00e3o exporta automaticamente a viol\u00eancia, mas multiplica o n\u00famero de atores que competem por rotas, cobram por prote\u00e7\u00e3o e buscam parceiros log\u00edsticos. E quando o lado equatoriano tem gangues locais fortes e um sistema prisional infiltrado, a conex\u00e3o se torna funcional: n\u00e3o \u00e9 Col\u00f4mbia contra Equador, mas um mercado regional para servi\u00e7os criminosos complementares.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 aqui que o enfoque de repres\u00e1lia econ\u00f4mica se torna estrategicamente inadequado. Se o objetivo \u00e9 melhorar a seguran\u00e7a, as tarifas n\u00e3o apreendem coca\u00edna nem desmantelam redes. Se o objetivo \u00e9 pressionar por coopera\u00e7\u00e3o, romper os canais de coordena\u00e7\u00e3o torna os esfor\u00e7os conjuntos mais caros e lentos. E se o objetivo \u00e9 pol\u00edtico, o custo pode superar o benef\u00edcio: os consumidores pagam mais, as empresas reconfiguram suas cadeias de suprimentos e territ\u00f3rios fronteiri\u00e7os como San Lorenzo e o norte de Esmeraldas ficam ainda mais expostos a economias ilegais que prosperam com o atrito estatal.<\/p>\n\n\n\n<p>Conv\u00e9m olhar para a hist\u00f3ria para n\u00e3o repetir os erros. A Col\u00f4mbia j\u00e1 viveu um ciclo em que a viol\u00eancia e o narcotr\u00e1fico pareciam ingovern\u00e1veis. No in\u00edcio da d\u00e9cada de 1990, Medell\u00edn atingiu taxas de homic\u00eddio de 381 por 100 mil habitantes, segundo o Banco Mundial, no auge do terror urbano ligado \u00e0s economias criminosas. E isso levanta uma terceira quest\u00e3o: o que a Col\u00f4mbia fez? Isolou-se, como o Equador amea\u00e7a fazer hoje em termos comerciais? A resposta, com todos os seus problemas e controv\u00e9rsias, foi uma combina\u00e7\u00e3o de fortalecimento do Estado, reformas e, sobretudo, apoio internacional em massa.<\/p>\n\n\n\n<p>O Plano Col\u00f4mbia, iniciado em 2000, recebeu um impulso inicial de US$1,3 bilh\u00e3o do governo dos Estados Unidos, e a assist\u00eancia acumulada ultrapassou US$10 bilh\u00f5es nos anos subsequentes, segundo relat\u00f3rios do Congresso estadunidense. Esse apoio se traduziu em capacidades como intelig\u00eancia, mobilidade a\u00e9rea, interdi\u00e7\u00e3o, treinamento e fortalecimento institucional. Os custos humanos, os efeitos sobre os direitos humanos e a efic\u00e1cia final podem ser debatidos, mas um fato \u00e9 dif\u00edcil de ignorar: a Col\u00f4mbia n\u00e3o resolveu seu problema isolando-se, mas sim, em grande medida, integrando-se a esquemas de coopera\u00e7\u00e3o e financiamento. O Equador encontra-se numa encruzilhada parecida, embora n\u00e3o id\u00eantica.<\/p>\n\n\n\n<p>Os dados sobre homic\u00eddios mostram uma forte press\u00e3o interna, os n\u00fameros das apreens\u00f5es demonstram que o pa\u00eds se situa na principal rota do tr\u00e1fico, especialmente a mar\u00edtima, e a fragmenta\u00e7\u00e3o dos atores armados e criminosos no norte aumenta a complexidade. Neste contexto, transformar a disputa com a Col\u00f4mbia numa guerra tarif\u00e1ria \u00e9 como tentar apagar um inc\u00eandio com gasolina: pode gerar aplausos imediatos, mas tamb\u00e9m abre as portas para os verdadeiros benefici\u00e1rios do atrito \u2013 o contrabando, a corrup\u00e7\u00e3o e as redes criminosas \u2013 e, al\u00e9m disso, encarece o com\u00e9rcio formal, que sustenta empregos e o abastecimento legal.<\/p>\n\n\n\n<p>A sa\u00edda \u00e9 conceber uma coopera\u00e7\u00e3o verific\u00e1vel, com metas e n\u00fameros concretos, e n\u00e3o s\u00f3 com comunicados. Se o Equador acusa a Col\u00f4mbia de falta de coopera\u00e7\u00e3o, que apresente indicadores claros do que exige: quantas opera\u00e7\u00f5es conjuntas espera, quantos alvos de alto valor, quantos controlos coordenados, quanta rastreabilidade portu\u00e1ria partilhada, quanta informa\u00e7\u00e3o judicial trocada. E se a Col\u00f4mbia responder, que esses n\u00fameros sejam transformados em protocolos sustent\u00e1veis, e n\u00e3o em muni\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Porque a quest\u00e3o fundamental, aquela que deveria permanecer sem resposta ap\u00f3s analisar esta situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 se as drogas eram usadas para atravessar a fronteira \u2014 um debate antigo e est\u00e9ril \u2014 mas sim se os estados andinos ir\u00e3o lutar entre si enquanto as economias ilegais, que s\u00e3o globais, est\u00e3o mais coordenadas do que nunca.<\/p>\n\n\n\n<p>A integra\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 testada em anos de calmaria; ela \u00e9 testada quando a criminalidade aumenta, a viol\u00eancia se intensifica e a pol\u00edtica busca atalhos.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em um cen\u00e1rio em que o crime se organiza em rede, a falta de coordena\u00e7\u00e3o entre o Equador e a Col\u00f4mbia apenas encarece o que \u00e9 legal e fortalece o que \u00e9 ilegal.<\/p>\n","protected":false},"author":770,"featured_media":55352,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16762,16715,16717],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-55373","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","8":"category-ecuador-pt-br","9":"category-colombia-pt-br","10":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55373","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/770"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55373"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55373\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55374,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55373\/revisions\/55374"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55352"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55373"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55373"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55373"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=55373"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}