{"id":55423,"date":"2026-03-01T07:00:00","date_gmt":"2026-03-01T10:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=55423"},"modified":"2026-03-01T10:09:38","modified_gmt":"2026-03-01T13:09:38","slug":"comunicacao-politica-panico-moral-e-a-gramatica-trumpista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/comunicacao-politica-panico-moral-e-a-gramatica-trumpista\/","title":{"rendered":"Comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, p\u00e2nico moral e a gram\u00e1tica trumpista"},"content":{"rendered":"\n<p>As emo\u00e7\u00f5es se tornaram pe\u00e7a fundamental na comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Sentimentos como raiva, indigna\u00e7\u00e3o moral, ressentimento e nostalgia organizam percep\u00e7\u00f5es&nbsp; sobre pertencimento, amea\u00e7a e ordem social, antecedendo e orientando ideologias, segundo o pesquisador Paolo Demuru em sua obra<a href=\"https:\/\/editoraelefante.com.br\/produto\/politicas-do-encanto\/?srsltid=AfmBOorDGxD9hHFsKNWE7xcTlxofjDboYU2YcuYJ87w3CGM7pA-o_UDI\"> \u201cPol\u00edticas do encanto<\/a>\u201d. \u00c9 neste contexto que opera Donald Trump, que governa pelo ru\u00eddo e pela produ\u00e7\u00e3o incessante de crises que n\u00e3o se resolvem, apenas se acumulam e se sobrep\u00f5em<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0 ascens\u00e3o da extrema direita, as gram\u00e1ticas afetivas sustentam processos de polariza\u00e7\u00e3o que v\u00e3o al\u00e9m da diverg\u00eancia tradicional e se tornam antagonismos morais, nos quais o \u201coutro pol\u00edtico\u201d vira amea\u00e7a existencial.<\/p>\n\n\n\n<p>A despropor\u00e7\u00e3o, exagero e alarme na constru\u00e7\u00e3o do medo caracterizam o p\u00e2nico moral, conceito consolidado nos anos 70 pelo soci\u00f3logo Stanley Cohen, e que passou a ser empregado para entender a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00eddia, pol\u00edtica e opini\u00e3o p\u00fablica. Cada \u00e9poca tem seus pr\u00f3prios p\u00e2nicos morais, produzidos em contextos hist\u00f3ricos espec\u00edficos, principalmente em momentos de deslocamento de poder, de crises de hegemonia e de inseguran\u00e7a social.<\/p>\n\n\n\n<p>Os p\u00e2nicos morais dependem das plataformas digitais para existir, circular e ganhar amplitude, de acordo com autores como<a href=\"https:\/\/journals.sagepub.com\/doi\/full\/10.1177\/1367877920912257\"> Walsh e Hill<\/a>. Nesse sentido, eles deixam de ser apenas express\u00e3o de ansiedades sociais e passam a ocupar um lugar central nas disputas de poder, transformando-se em dispositivos cont\u00ednuos de produ\u00e7\u00e3o de sentido, articulando afetos, narrativas e antagonismos em larga escala. O medo consolida-se como um recurso pol\u00edtico e comunicacional estrat\u00e9gico, atravessando os debates p\u00fablicos e as formas de governar.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A gram\u00e1tica de Donald Trump<\/strong><strong><br><\/strong><strong><br><\/strong>Os Estados Unidos, ao se ver diante do enfraquecimento de sua hegemonia no cen\u00e1rio global, passa a operar menos pela estabilidade institucional e mais pela fabrica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua de amea\u00e7as. A pol\u00edtica deixa de ser administra\u00e7\u00e3o do comum e converte-se em gest\u00e3o do medo, em um movimento que n\u00e3o se restringe \u00e0s fronteiras norte-americanas, mas se projeta globalmente.<\/p>\n\n\n\n<p>Epis\u00f3dios recentes, como as tentativas reiteradas de deslegitimar governos latino-americanos, a press\u00e3o sobre a Venezuela e as narrativas fantasiosas em torno da \u201ccaptura\u201d de Nicol\u00e1s Maduro, revelam uma gram\u00e1tica imperialista fundada na ideia de conspira\u00e7\u00e3o permanente: algo estaria sempre sendo tramado contra os Estados Unidos, contra sua soberania, contra seu \u201cdestino hist\u00f3rico\u201d. A partir dessa suposi\u00e7\u00e3o, toda a\u00e7\u00e3o contundente, como san\u00e7\u00f5es, interven\u00e7\u00f5es, amea\u00e7as militares ou simb\u00f3licas, aparece como necess\u00e1ria, preventiva e moralmente justificada.<br><br>\u00c9 nesse contexto mais amplo que Donald Trump deve ser compreendido. Criar fantasias conspirat\u00f3rias n\u00e3o \u00e9 um desvio ret\u00f3rico ou uma excentricidade pessoal, mas uma estrat\u00e9gia central de comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica assumida por ele visando \u00e0 disputa de poder. Desde muito antes de chegar \u00e0 Casa Branca, o presidente norte-americano aprendeu que narrativas de amea\u00e7a mobilizam mais do que projetos de futuro e que o p\u00e2nico moral \u00e9 um recurso altamente eficaz em tempos de instabilidade e de centralidade das plataformas digitais.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao longo de sua trajet\u00f3ria, Trump transformou temas estrat\u00e9gicos em campos de guerra simb\u00f3lica. A imigra\u00e7\u00e3o virou invas\u00e3o; a imprensa, inimiga do povo; elei\u00e7\u00f5es, fraudes permanentes; ci\u00eancia, compl\u00f4 das elites. O que est\u00e1 em jogo n\u00e3o \u00e9 a veracidade dos fatos, mas a capacidade de produzir um sentimento difuso de risco moral, cultural e existencial. Governa-se, assim, pela sensa\u00e7\u00e3o de que \u201calgo est\u00e1 sendo roubado\u201d: o pa\u00eds, a identidade, o modo de vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa l\u00f3gica aparece de forma particularmente evidente no epis\u00f3dio da Groenl\u00e2ndia. \u00c0 primeira vista, a proposta de \u201ccomprar\u201d um territ\u00f3rio soberano pode soar como del\u00edrio geopol\u00edtico. No entanto, lida a partir da gram\u00e1tica trumpista, a ideia cumpre uma fun\u00e7\u00e3o muito mais sofisticada. Ela opera como dispositivo de p\u00e2nico moral: a sugest\u00e3o de que os Estados Unidos estariam perdendo espa\u00e7o, territ\u00f3rio, influ\u00eancia e grandeza para inimigos externos &#8211; como R\u00fassia e China &#8211; e para elites internas incapazes de proteger os interesses nacionais. A fantasia territorial funciona, nesse sentido, como met\u00e1fora de um pa\u00eds sitiado, em decad\u00eancia, que precisa ser \u201crecuperado\u201d a qualquer custo.<\/p>\n\n\n\n<p>Habilidoso na fabrica\u00e7\u00e3o comunicacional do p\u00e2nico, sempre amparado pelas redes sociais e pelas pol\u00edticas algor\u00edtmicas das plataformas que privilegiam a extrema direita, Trump aciona medos morais profundos, reorganiza antagonismos e produz pertencimento por exclus\u00e3o. O \u201cn\u00f3s\u201d s\u00f3 existe porque h\u00e1 um \u201celes\u201d amea\u00e7ador: migrantes, globalistas, burocratas, jornalistas, cientistas. Trata-se menos de procurar solu\u00e7\u00f5es e mais de administrar ressentimentos, canalizando frustra\u00e7\u00f5es difusas para alvos moralmente carregados.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Efeitos sociais do p\u00e2nico moral<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Nesse ambiente saturado de medo, as estrat\u00e9gias de p\u00e2nico moral deixam de operar apenas como ret\u00f3rica eleitoral e passam a produzir efeitos sociais mais amplos. Por exemplo, a migra\u00e7\u00e3o se transformou em um problema pol\u00edtico permanente. A imigra\u00e7\u00e3o, especialmente a oriunda do Sul global, passa a ser continuamente reinscrita como amea\u00e7a difusa \u00e0 ordem, \u00e0 cultura e \u00e0 estabilidade econ\u00f4mica, n\u00e3o por dados objetivos, mas pela repeti\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de narrativas de perigo.<\/p>\n\n\n\n<p>A migra\u00e7\u00e3o deixa de ser tratada como experi\u00eancia social complexa e passa a funcionar como um signo que sintetiza o medo, capaz de organizar ansiedades diversas em torno de um inimigo reconhec\u00edvel. Nessa din\u00e2mica, o medo n\u00e3o apenas orienta escolhas eleitorais, mas reorganiza hierarquias internas nas pr\u00f3prias di\u00e1sporas, produzindo distin\u00e7\u00f5es entre migrantes \u201cleg\u00edtimos\u201d e \u201cindesej\u00e1veis\u201d e convertendo a migra\u00e7\u00e3o em um campo atravessado por disputas simb\u00f3licas, afetivas e pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<p>O efeito \u00e9 a consolida\u00e7\u00e3o de um regime de aten\u00e7\u00e3o permanente, t\u00edpico do ecossistema das plataformas digitais, no qual a pol\u00edtica passa a operar por meio de crises sucessivas, declara\u00e7\u00f5es exacerbadas, recuos calculados e novos epis\u00f3dios de tens\u00e3o. Nada se resolve, nada se estabiliza. O p\u00e2nico n\u00e3o \u00e9 um desvio moment\u00e2neo, mas o pr\u00f3prio ambiente normal da a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u00c9 nesse registro que propostas como a \u201ccompra\u201d da Groenl\u00e2ndia devem ser lidas: menos como del\u00edrio geopol\u00edtico isolado e mais como dispositivo simb\u00f3lico de um imagin\u00e1rio imperial em permanente estado de alerta, no qual territ\u00f3rios, fronteiras e soberanias aparecem sempre prestes a ser perdidos ou tomados por for\u00e7as externas. Trump n\u00e3o governa apesar do caos que produz. Governa por meio dele, mobilizando afetos, mantendo a aten\u00e7\u00e3o em suspens\u00e3o cont\u00ednua e administrando o medo como recurso central de poder em um mundo atravessado por plataformas, algoritmos e fantasias conspirat\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, o trumpismo revela algo mais do que um estilo pessoal. Ele exp\u00f5e como, em um ambiente comunicacional dominado pelas plataformas digitais, m\u00e9tricas de engajamento e circula\u00e7\u00e3o acelerada de afetos, a fantasia conspirat\u00f3ria deixa de ser marginal e passa a operar como racionalidade pol\u00edtica. A Groenl\u00e2ndia, o muro, a fraude eleitoral ou a \u201camea\u00e7a comunista\u201d n\u00e3o s\u00e3o apenas temas: s\u00e3o dispositivos pol\u00edticos e comunicacionais de mobiliza\u00e7\u00e3o afetiva. E, nesse jogo, a verdade importa menos do que a capacidade de manter o medo em circula\u00e7\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>* Esse texto integra o projeto de pesquisa \u201cAtivismo anti-imigra\u00e7\u00e3o em plataformas digitais em apoio a pol\u00edticas de extrema direita e anti-imigra\u00e7\u00e3o\u201d desenvolvido no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Comunica\u00e7\u00e3o e Pr\u00e1ticas de Consumo, ESPM.<\/sub><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O trumpismo mostra como a comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica contempor\u00e2nea transforma o medo e o p\u00e2nico moral numa gram\u00e1tica do poder sustentada por emo\u00e7\u00f5es, plataformas digitais e crises permanentes.<\/p>\n","protected":false},"author":270,"featured_media":55418,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[17137],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-55423","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-comunicacion-pt-br","8":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55423","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/270"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55423"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55423\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55424,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55423\/revisions\/55424"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55418"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55423"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55423"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55423"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=55423"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}