{"id":55467,"date":"2026-03-03T15:00:00","date_gmt":"2026-03-03T18:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=55467"},"modified":"2026-03-03T18:48:28","modified_gmt":"2026-03-03T21:48:28","slug":"a-geopolitica-do-eu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/a-geopolitica-do-eu\/","title":{"rendered":"A geopol\u00edtica do eu"},"content":{"rendered":"\n<p>Durante d\u00e9cadas, a geopol\u00edtica tem sido um campo de estudo dedicado a analisar como a localiza\u00e7\u00e3o, o territ\u00f3rio, os recursos naturais e as caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas influenciam o poder e a estrat\u00e9gia dos Estados, cuja evolu\u00e7\u00e3o era considerada intimamente ligada a ela. A rela\u00e7\u00e3o entre espa\u00e7o e pol\u00edtica, considerando fatores econ\u00f4micos, militares e culturais que condicionam a proje\u00e7\u00e3o internacional e a competi\u00e7\u00e3o pela influ\u00eancia global, tem sido sua raz\u00e3o de ser. Sem question\u00e1-la fundamentalmente, as mudan\u00e7as no cen\u00e1rio internacional que se cristalizaram ao longo do \u00faltimo ano geraram s\u00e9rias d\u00favidas sobre as bases dessa concep\u00e7\u00e3o, na medida em que se observa uma transforma\u00e7\u00e3o gradual da ess\u00eancia dos Estados-na\u00e7\u00e3o, uma nostalgia obsessiva e lideran\u00e7as abusivas.<\/p>\n\n\n\n<p>Especificamente, desde a consolida\u00e7\u00e3o da doutrina Trump delineada na Estrat\u00e9gia de Seguran\u00e7a Nacional, tr\u00eas momentos significativos foram observados e destacados em diferentes f\u00f3runs. \u00c9 certamente verdade que isso ocorre no contexto excepcional da contra-a\u00e7\u00e3o do primeiro-ministro canadense Mark Carney em Davos, onde ele criticou um cen\u00e1rio que representava uma ruptura em vez de uma transi\u00e7\u00e3o. Tr\u00eas semanas depois, na 62\u00aa Confer\u00eancia de Seguran\u00e7a de Munique, o chanceler alem\u00e3o Friedrich Merz ratificou essa vis\u00e3o ao declarar que \u201ca ordem internacional j\u00e1 n\u00e3o existe como a conhec\u00edamos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Carney agora lidera as negocia\u00e7\u00f5es entre a UE e um importante bloco comercial do Indo-Pac\u00edfico, composto por Canad\u00e1, Singapura, M\u00e9xico, Jap\u00e3o, Vietn\u00e3, Mal\u00e1sia e Austr\u00e1lia, ap\u00f3s instar essas pot\u00eancias m\u00e9dias a unirem for\u00e7as em apoio a uma das maiores alian\u00e7as econ\u00f4micas globais, que criaria um novo bloco comercial com 1,5 bilh\u00e3o de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>O primeiro momento foi o evento de Munique, o grande templo hist\u00f3rico do transatl\u00e2ntico, onde Marco Rubio assumiu um papel essencial, suavizando a linguagem rude e confrontativa de seu presidente. No entanto, o conte\u00fado de suas palavras continua desalentador. Apelou com uma franqueza incomum (talvez ing\u00eanua?) para uma identidade compartilhada com a Europa (\u201cpara n\u00f3s, estadunidenses, nosso lar pode estar no Hemisf\u00e9rio Ocidental, mas sempre seremos filhos da Europa\u201d), fruto de um suposto passado glorioso que criou \u201cuma civiliza\u00e7\u00e3o exemplar\u201d, sem falhas, fundada na \u201cf\u00e9 crist\u00e3\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o restava nada a fazer sen\u00e3o sentir orgulho disso, pois \u201cna Europa nasceram as ideias que semearam as sementes da liberdade que mudaram o mundo\u201d. A den\u00fancia dos perigos da imigra\u00e7\u00e3o em massa foi o \u00e1pice singular da narrativa simplista com a qual busca unificar o medo que moldar\u00e1 a identidade subserviente de vastas maiorias ansiosas por sua sobreviv\u00eancia. Se a estrat\u00e9gia funcionou em rela\u00e7\u00e3o ao crime a favor do publicit\u00e1rio Bukele, por que n\u00e3o funcionaria agora com a demoniza\u00e7\u00e3o do estrangeiro, com a exalta\u00e7\u00e3o da \u201cremigra\u00e7\u00e3o\u201d?<\/p>\n\n\n\n<p>O segundo momento crucial foi o lan\u00e7amento oficial, em 19 de fevereiro, do Conselho de Paz, inicialmente concebido como uma \u201cadministra\u00e7\u00e3o de transi\u00e7\u00e3o\u201d para Gaza, mas cujo alcance a Casa Branca agora busca globalizar. Os Estados Unidos, assim que o Congresso aprovar, contribuir\u00e3o com dez bilh\u00f5es de d\u00f3lares para sua opera\u00e7\u00e3o. A reuni\u00e3o contou com a presen\u00e7a da fam\u00edlia Trump (seu genro Kushner), empres\u00e1rios (Witkoff), celebridades (Infantino), membros de seu gabinete (Vance e Rubio) e representantes de 27 pa\u00edses, todos unidos por interesses privados e la\u00e7os de lealdade. Compareceram para prestar homenagem e formalizar o fim do multilateralismo, mas nenhum deles pagou a taxa de ades\u00e3o de um bilh\u00e3o de d\u00f3lares a este novo clube.<\/p>\n\n\n\n<p>Em seu discurso de boas-vindas, Trump dirigiu-se aos dois \u00fanicos presidentes latino-americanos presentes com palavras cujo significado dispensa maiores coment\u00e1rios: \u201cOnde est\u00e1 o presidente Milei? Eu o apoiei. N\u00e3o deveria apoiar pessoas, mas apoio quem eu gosto\u2026 Ele estava um pouco atr\u00e1s nas pesquisas. No fim, venceu com folga.\u201d Ent\u00e3o, \u201cO presidente Pe\u00f1a, do Paraguai, est\u00e1 aqui. Muito obrigado. Ele \u00e9 um jovem bonito. \u00c9 sempre bom ser jovem e bonito. Isso n\u00e3o significa que tenhamos que gostar dele. Eu n\u00e3o gosto de jovens bonitos. Eu gosto de mulheres. N\u00e3o me interesso por isso. Voc\u00ea tamb\u00e9m faz um excelente trabalho.\u201d Milei n\u00e3o teve a oportunidade de falar, mas Pe\u00f1a falou e agradeceu efusivamente ao anfitri\u00e3o por suas palavras.<\/p>\n\n\n\n<p>Finalmente, Trump convocou um grupo de presidentes latino-americanos para uma c\u00fapula em Miami, no dia 7 de mar\u00e7o, algumas semanas antes de sua viagem a Pequim. A lista inicial de convidados confirmados inclu\u00eda Milei (Argentina), Paz (Bol\u00edvia), Noboa (Equador), Bukele (El Salvador), Asfura (Honduras) e Pe\u00f1a (Paraguai). Esta \u00e9 a comitiva mais leal da regi\u00e3o no novo governo Trump. Pouco depois, Molino, presidente do Panam\u00e1, tamb\u00e9m conseguiu ser inclu\u00eddo na lista. A c\u00fapula se concentrar\u00e1 em contrariar a influ\u00eancia chinesa no hemisf\u00e9rio, sob o pretexto da ret\u00f3rica trumpista do regionalismo fechado.<\/p>\n\n\n\n<p>Se para analistas como Ian Bremmer, esse tipo de discurso reflete a consolida\u00e7\u00e3o de uma era de \u201cgeopol\u00edtica transacional\u201d, em que as alian\u00e7as s\u00e3o cada vez mais medidas em termos de interesses concretos, pessoalmente prefiro me concentrar no perfil mais individualista e autocr\u00e1tico do atual momento de vassalagem. O presidente dos Estados Unidos, como outros chefes de Estado recentemente citados, concentra o poder em suas m\u00e3os porque o Congresso lhe cedeu o seu, tendo tamb\u00e9m aprovado menos leis do que qualquer outro desde meados do s\u00e9culo XIX. Al\u00e9m disso, conseguiu que seu atual porta-voz, Marco Rubio, que h\u00e1 oito anos o chamou de vigarista a quem n\u00e3o se podia confiar os c\u00f3digos nucleares, em sua trai\u00e7\u00e3o pessoal, adornasse seu servilismo para satisfa\u00e7\u00e3o m\u00e1xima do ego presidencial. A situa\u00e7\u00e3o representa o c\u00famulo da geopol\u00edtica do eu, pois o relato constante de Trump sobre o passado, o presente e o futuro \u00e9 sempre na primeira pessoa do singular.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na era da \u201cgeopol\u00edtica do eu\u201d, o poder global deixa de se articular em regras e alian\u00e7as est\u00e1veis para girar em torno da lideran\u00e7a personalista, transacional e autorreferencial de Donald Trump.<\/p>\n","protected":false},"author":45,"featured_media":55459,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16762],"tags":[15839],"gps":[],"class_list":{"0":"post-55467","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-relaiciones-internacionales-pt-br","8":"tag-ideias-pt-br"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/45"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55467"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55467\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55468,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55467\/revisions\/55468"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55459"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55467"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=55467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}