{"id":55787,"date":"2026-03-25T09:00:00","date_gmt":"2026-03-25T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/latinoamerica21.com\/?p=55787"},"modified":"2026-03-26T11:43:58","modified_gmt":"2026-03-26T14:43:58","slug":"o-escudo-das-americas-nao-ajuda-a-america-latina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/o-escudo-das-americas-nao-ajuda-a-america-latina\/","title":{"rendered":"O \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d n\u00e3o ajuda a Am\u00e9rica Latina"},"content":{"rendered":"\n<p>A c\u00fapula do \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d, realizada em Miami, foi, em muitos aspectos, um espet\u00e1culo familiar. O presidente Trump reiterou temas j\u00e1 conhecidos: pulso firme contra os cart\u00e9is de drogas, antagonismo persistente em rela\u00e7\u00e3o a Cuba e a justificativa da guerra com o Ir\u00e3. No entanto, em meio a essa ret\u00f3rica usual, um detalhe se destacou: o vis\u00edvel orgulho de Trump ao recordar o apoio que deu a figuras da direita em distintos pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina. Na Argentina, por exemplo, condicionar a assist\u00eancia financeira \u00e0 vit\u00f3ria de Milei foi chave durante as \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es legislativas. Algo similar ocorreu durante as elei\u00e7\u00f5es presidenciais no Chile e em Honduras. \u00c0 medida em que as elei\u00e7\u00f5es se aproximam no Brasil, na Col\u00f4mbia e no Peru, din\u00e2micas parecidas podem se repetir. O \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d pode revelar menos um mecanismo de seguran\u00e7a do que uma esp\u00e9cie de franquia pol\u00edtica: um ve\u00edculo para exportar uma marca de pol\u00edtica conservadora para o sul, com a b\u00ean\u00e7\u00e3o de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p>Em termos operacionais, a iniciativa parece ser impulsionada principalmente pelo secret\u00e1rio de Estado, Marco Rubio, e pelo secret\u00e1rio de Defesa, Pete Hegseth. Ambos apoiaram com entusiasmo a recente opera\u00e7\u00e3o conjunta contra redes de narcotr\u00e1fico no Equador, um precedente que merece ser analisado com cautela. Se a l\u00f3gica do \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d for levada a s\u00e9rio e desenvolvida, opera\u00e7\u00f5es similares poder\u00e3o ser repetidas sob o pretexto de um suposto consenso regional. A quest\u00e3o \u00e9: consenso de quem? E com que objetivo?<\/p>\n\n\n\n<p>Aqui reside uma contradi\u00e7\u00e3o fundamental e evidente no cerne da agenda apresentada em Miami. M\u00e9xico e Col\u00f4mbia, os dois pa\u00edses mais afetados pelo narcotr\u00e1fico e cuja coopera\u00e7\u00e3o seria indispens\u00e1vel para qualquer arquitetura de seguran\u00e7a regional genu\u00edna, n\u00e3o foram convidados. Nem o Brasil. Essa aus\u00eancia \u00e9 talvez a mais reveladora de todas. O Brasil possui as maiores e mais capazes for\u00e7as armadas da Am\u00e9rica Latina, a maior economia do continente e faz fronteira com dez dos doze pa\u00edses sul-americanos. Qualquer iniciativa de seguran\u00e7a regional que exclua Bras\u00edlia n\u00e3o \u00e9 verdadeiramente uma estrutura de seguran\u00e7a, mas sim uma declara\u00e7\u00e3o de prefer\u00eancias ideol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9cadas atr\u00e1s, o cientista pol\u00edtico argentino Juan Carlos Puig argumentou que pa\u00edses como Argentina e Brasil n\u00e3o deveriam aspirar ao alinhamento total com uma pot\u00eancia hegem\u00f4nica, mas sim \u00e0 autonomia: a capacidade de agir dentro do sistema internacional sem sucumbir a press\u00f5es externas. O Brasil de Lula personificou precisamente essa l\u00f3gica, o que Puig chamou de autonomia heterodoxa: manter um di\u00e1logo aberto com Washington enquanto diversifica sistematicamente suas parcerias no Sul Global. Essa postura, ao que parece, \u00e9 inaceit\u00e1vel em Miami.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Uma regi\u00e3o fragmentada<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A doutrina \u201cDonroe\u201d de Trump est\u00e1 levando alguns l\u00edderes latino-americanos a diversificar suas estrat\u00e9gias internacionais para a \u00c1frica, \u00c1sia e Oriente M\u00e9dio, justamente para reduzir a depend\u00eancia de uma Casa Branca vol\u00e1til. No entanto, os participantes da reuni\u00e3o em Miami parecem preferir um status pr\u00f3ximo ao de um protetorado estadunidense.<\/p>\n\n\n\n<p>Ademais, o \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d se assemelha menos a um mecanismo integral de seguran\u00e7a e mais a um clube pol\u00edtico. Assim como o chamado Conselho de Paz de Trump, dificilmente abordar\u00e1 os fatores estruturais que impulsionam o narcotr\u00e1fico: a pobreza, a fragilidade institucional, a falta de alternativas econ\u00f4micas para as popula\u00e7\u00f5es rurais e a insaci\u00e1vel demanda por narc\u00f3ticos nos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p>C\u00fapulas de seguran\u00e7a que excluem os atores mais afetados e priorizam a ideologia sobre o pragmatismo n\u00e3o produzem resultados duradouros. Produzem fotografias.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m outro sinal que merece aten\u00e7\u00e3o. Apesar do que muitos esperavam, a China n\u00e3o apareceu como uma prioridade central na reuni\u00e3o de Miami, talvez devido \u00e0 pr\u00f3xima visita de Trump a Pequim. O Canal do Panam\u00e1 foi mencionado, como esperado, mas n\u00e3o houve uma rejei\u00e7\u00e3o direta da influ\u00eancia chinesa na Am\u00e9rica Latina. Isso \u00e9 revelador. O \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d, apesar de sua ret\u00f3rica belicosa, pode acabar sendo menos um instrumento para conter a China do que uma ferramenta para remodelar o cen\u00e1rio pol\u00edtico interno da Am\u00e9rica Latina \u00e0 imagem de Washington.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao enquadrar a seguran\u00e7a regional a partir de uma perspectiva ideol\u00f3gica e excluir atores-chave, o governo Trump provavelmente est\u00e1 acelerando justamente a diversifica\u00e7\u00e3o Sul-Sul que afirma querer evitar. \u00c0 medida que os governos latino-americanos observam como Washington tenta impor suas prefer\u00eancias pol\u00edticas na arquitetura de seguran\u00e7a regional, a atra\u00e7\u00e3o de se integrar ao BRICS, ampliar os la\u00e7os com a China \u2014 como j\u00e1 ocorre no caso do Uruguai \u2014 e fortalecer as parcerias comerciais com o Oriente M\u00e9dio pode se tornar cada vez maior. A depend\u00eancia de uma pot\u00eancia hegem\u00f4nica vol\u00e1til sempre foi o incentivo mais poderoso para buscar autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p>A li\u00e7\u00e3o que d\u00e9cadas de pol\u00edtica externa latino-americana deixam \u00e9, na verdade, o oposto do que foi proposto em Miami. Os governos da chamada \u201conda rosa\u201d \u2014 os de Lula, Kirchner e Ch\u00e1vez \u2014, com todas as suas limita\u00e7\u00f5es internas, compreenderam que a autonomia em um mundo multipolar se constr\u00f3i por meio da diversifica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o do alinhamento. Essa \u00e9 a tradi\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica externa na qual a Am\u00e9rica Latina deveria se apoiar: uma baseada na ag\u00eancia soberana, na solidariedade Sul-Sul e na amplia\u00e7\u00e3o pragm\u00e1tica do leque de rela\u00e7\u00f5es internacionais da regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>O \u201cEscudo das Am\u00e9ricas\u201d prop\u00f5e, ao contr\u00e1rio, um retorno \u00e0 l\u00f3gica da Doutrina Monroe (agora \u201cDonroe\u201d): a regi\u00e3o como um protetorado, cuja seguran\u00e7a \u00e9 definida e gerenciada a partir de Washington. A Am\u00e9rica Latina j\u00e1 experimentou esse modelo.<\/p>\n\n\n\n<p><em><sub>Tradu\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica revisada por Isabel Lima<\/sub><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A iniciativa impulsionada por Washington visa mais exportar alinhamentos pol\u00edticos e excluir atores-chave do que construir uma coopera\u00e7\u00e3o regional eficaz.<\/p>\n","protected":false},"author":605,"featured_media":55761,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"episode_type":"","audio_file":"","cover_image":"","cover_image_id":"","duration":"","filesize":"","filesize_raw":"","date_recorded":"","explicit":"","block":"","itunes_episode_number":"","itunes_title":"","itunes_season_number":"","itunes_episode_type":"","footnotes":""},"categories":[16758,16747],"tags":[17187],"gps":[],"class_list":{"0":"post-55787","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-donald-trump-pt-br","8":"category-ideologia-pt-br","9":"tag-debates-2"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55787","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/users\/605"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55787"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55787\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55788,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55787\/revisions\/55788"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55761"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55787"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55787"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55787"},{"taxonomy":"gps","embeddable":true,"href":"https:\/\/latinoamerica21.com\/pt-br\/wp-json\/wp\/v2\/gps?post=55787"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}